Toda canção pode esconder uma história.
Primeiro, a história. Depois, a canção.
Sertão e Interior

Poeira do Meu Sertão

A história que poderia ter existido antes de uma canção

Havia um tempo em que as estradas do interior não conheciam asfalto. Eram caminhos abertos pela necessidade, desenhados entre fazendas, pequenos povoados e rios, por onde passavam homens, animais e carros de boi. No tempo da seca, a terra avermelhada se desfazia sob os cascos e as rodas, levantando uma poeira fina que entrava pelas casas, grudava nas roupas e cobria de vermelho quem se aventurasse pela estrada.

Foi numa dessas estradas que cresceu Antônio.

Desde menino, ele aprendera que o sertão tinha seus próprios sons. Antes mesmo de enxergar quem vinha pelo caminho, sabia reconhecer o ranger de um carro de boi. Era um gemido comprido, quase triste, produzido pela madeira trabalhando sob o peso da carga. O som atravessava o silêncio e anunciava de longe a chegada de alguém.

Antônio costumava correr até a cerca para ver o carro passar.

As rodas pesadas abriam sulcos profundos no chão seco. Atrás delas ficava uma nuvem avermelhada que demorava a desaparecer. Para o menino, aquilo não era sujeira. Era parte da paisagem. Era o cheiro da estrada, da terra quente e do lugar onde nascera.

Seu pai costumava dizer:

— Essa poeira conhece todo mundo por aqui.

E talvez conhecesse mesmo.

Conhecia os homens que saíam ainda de madrugada para trabalhar. Conhecia as mulheres que esperavam no terreiro a volta dos maridos e dos filhos. Conhecia os viajantes, os tropeiros, os carros de boi carregados e os animais conduzidos de uma fazenda para outra.

Anos depois, Antônio deixou de observar a estrada atrás da cerca. Passou a fazer parte dela.

Aprendeu a montar, a conduzir o gado e a reconhecer os sinais que os animais davam. Sabia quando estavam cansados, quando sentiam sede e quando alguma coisa os assustava.

Nos meses mais secos, levar a boiada até a água era tarefa que exigia experiência.

O ribeirão ficava distante.

Quando centenas de cascos começavam a bater na estrada, a terra parecia desaparecer. A poeira subia lentamente e depois tomava conta de tudo. Cobria os animais, as árvores próximas e o próprio boiadeiro.

À frente da boiada, Antônio seguia montado em seu cavalo.

Levava o berrante e conhecia cada chamado que precisava fazer. Para quem assistia de longe, poderia parecer apenas um homem conduzindo gado. Para ele, porém, aquilo era uma conversa antiga entre homem, animal e terra.

Havia dias em que chegava em casa quase irreconhecível.

O rosto estava vermelho de poeira. A camisa, antes clara, carregava a cor da estrada. Quando lavava o rosto no tanque do quintal, a água escorria avermelhada.

Ele ria.

Aquela poeira não o incomodava.

Era a poeira de sua terra.

Mas o sertão também sabia mudar de repente.

Depois de semanas de calor, algumas tardes começavam diferentes. Primeiro vinha o vento. Depois, o céu escurecia no horizonte. Nuvens pesadas se juntavam rapidamente e os animais ficavam inquietos.

Os mais velhos olhavam para cima e sabiam:

— Hoje vem água.

O trovão surgia distante e logo outro respondia mais perto. Os relâmpagos cortavam o céu e, de repente, a chuva despencava.

A mesma estrada que poucas horas antes levantava nuvens de poeira transformava-se em barro.

A água preenchia os sulcos deixados pelas rodas dos carros de boi. A terra seca absorvia o que conseguia e o restante corria pelas pequenas valetas em direção aos campos e aos rios.

Antônio gostava daquele cheiro.

O cheiro da primeira chuva sobre a terra seca era, para ele, uma das melhores coisas da vida.

Era como se o sertão respirasse novamente.

Passaram-se muitos anos.

Os carros de boi ficaram mais raros. Vieram caminhões, tratores e estradas melhores. Algumas receberam cascalho; outras, mais tarde, ganharam asfalto.

O velho caminho diante da fazenda, porém, permaneceu durante muito tempo como Antônio o conhecera na infância.

Vermelho.

No fim da vida, já com os cabelos brancos, ele costumava sentar-se na varanda e olhar para aquela estrada.

De vez em quando passava um carro e levantava uma nuvem de pó. Quando o vento soprava em direção à casa, a poeira chegava até a varanda.

Os filhos reclamavam.

— Pai, entre para dentro. Essa poeira vai entrar nos seus olhos.

Antônio apenas sorria.

Não havia motivo para se zangar.

Naquela poeira estava sua infância.

Estava o carro de boi que ele esperava junto à cerca. Estava seu pai. Estavam as boiadas procurando água nos dias de seca. Estava o cavalo que o acompanhara durante tantos anos. Estavam o berrante, os trovões das tardes de verão e o cheiro da terra quando finalmente chegava a chuva.

A poeira carregava suas lembranças.

Certa tarde, sentado na varanda, Antônio pegou um pouco daquela terra vermelha com a mão. Apertou-a entre os dedos e ficou observando os pequenos grãos escaparem lentamente.

Talvez naquele momento tenha compreendido uma coisa simples, dessas que somente o tempo consegue ensinar.

Durante toda a vida, o homem acredita que possui a terra.

Constrói cercas, registra propriedades, divide campos e coloca seu nome em documentos. Diz: “Esta terra é minha.”

Mas, no fim, acontece justamente o contrário.

Somos nós que pertencemos à terra.

Dela retiramos o alimento, sobre ela construímos nossa casa, por seus caminhos fazemos nossa história e, quando nossa caminhada termina, é para ela que retornamos.

Antônio abriu a mão.

O vento levou alguns grãos daquela terra.

Ele acompanhou a pequena nuvem vermelha desaparecer sobre a estrada e sorriu.

Não sentia tristeza.

Sabia que um dia também voltaria para aquele chão.

E talvez, depois de muitos anos, quando outra boiada passasse por uma velha estrada do interior, quando uma roda marcasse novamente a terra seca ou quando um menino corresse até uma cerca para observar o movimento, uma pequena parte de tudo aquilo que Antônio havia sido se levantasse novamente no ar.

Misturada à terra.

Misturada às lembranças.

Transformada na velha poeira vermelha do sertão.