Toda canção pode esconder uma história.
Primeiro, a história. Depois, a canção.
Pelo Mundo

A Casa das Janelas Vermelhas

A história que poderia ter existido antes de uma canção

Quando Thomas Reed voltou a Nova Orleans, a cidade ainda carregava marcas da enchente daquele verão.

As ruas mais baixas tinham lama seca junto aos meios-fios, algumas fachadas permaneciam fechadas e havia móveis quebrados empilhados diante de casas que não puderam ser salvas. Mesmo assim, a cidade fazia o que sempre fizera depois das tragédias: voltava a tocar.

Havia música em portas abertas, nos bares pequenos, nas esquinas e nos pátios escondidos atrás de paredes descascadas. Trompetes, pianos, vozes roucas e baterias que pareciam discutir com a noite.

Thomas não voltava havia quinze anos.

Ainda assim, reconheceu o cheiro.

Rio, madeira úmida, fumaça, café forte e alguma coisa doce que vinha das cozinhas.

Desceu do trem levando apenas uma mala e um endereço escrito num pedaço de papel.

O endereço não era seu.

Era de uma casa que ele passara metade da vida tentando esquecer.

A primeira vez que Thomas viu a construção, tinha dezessete anos.

Na época, chamavam-na apenas de **a Casa do Sol Nascente**.

Não havia placa.

Nem nome oficial.

Era um casarão antigo numa rua estreita, com venezianas vermelhas, varanda comprida e um desenho de sol pintado sobre a porta dos fundos.

Durante o dia parecia abandonado.

À noite, tudo mudava.

Luzes acendiam atrás das cortinas.

Homens chegavam em carruagens, automóveis e, às vezes, a pé.

Havia música.

Bebida.

Jogos.

E histórias que as famílias respeitáveis fingiam não conhecer.

Thomas chegou ali seguindo o irmão mais velho.

Samuel tinha vinte e quatro anos e parecia saber tudo que um rapaz de dezessete desejava aprender.

Vestia-se bem.

Falava com segurança.

Conhecia gente.

Tinha dinheiro no bolso mesmo sem emprego fixo.

Thomas o admirava.

A mãe dos dois, Margaret, não.

— Seu irmão está procurando problema — dizia.

Thomas defendia Samuel.

— Ele sabe o que faz.

Margaret olhava para o filho.

— É isso que mais me preocupa.

O pai morrera quando Thomas ainda era criança.

Margaret lavava roupas para famílias ricas e fazia costuras para sustentar os filhos.

Samuel começou a trabalhar cedo.

Primeiro nos cais.

Depois como carregador.

Em algum momento, encontrou outros caminhos para ganhar dinheiro.

Nunca explicou exatamente quais.

Thomas descobriu naquela noite.

Samuel entrou pela porta dos fundos como quem pertencia ao lugar.

Thomas foi atrás.

A sala principal estava cheia.

Homens jogavam cartas.

Outros bebiam.

Um piano tocava perto da parede.

Mulheres circulavam entre as mesas.

Thomas ficou parado.

Samuel riu.

— Fecha a boca.

— O que é este lugar?

— Um lugar onde ninguém pergunta demais.

Thomas deveria ter ido embora.

Não foi.

Samuel apresentou-o a alguns homens.

Trouxeram bebida.

Thomas tossiu no primeiro gole.

Todos riram.

Depois começou a observar o jogo.

Dinheiro mudava de mãos depressa.

Parecia fácil.

Um homem apostava.

Perdia.

Apostava novamente.

Ganhava.

De repente tinha mais dinheiro do que Thomas vira num mês inteiro de trabalho.

— Posso jogar? — perguntou.

Samuel respondeu:

— Não.

Thomas estranhou.

— Por quê?

— Porque eu mandei.

— Você joga.

— Justamente.

Na época, Thomas interpretou aquilo como egoísmo.

Só muitos anos depois entenderia que era medo.

Mesmo proibido pelo irmão, voltou.

Primeiro escondido.

Depois frequentemente.

Aprendeu cartas.

Aprendeu apostas.

Aprendeu a observar pessoas.

E descobriu que havia algo perigoso em ganhar pela primeira vez.

Naquela primeira vitória importante, saiu de casa com dois dólares e voltou com trinta e sete.

Margaret perguntou:

— Onde conseguiu?

Thomas mentiu.

— Trabalho extra.

A mãe olhou por alguns segundos.

Talvez soubesse.

Mas não insistiu.

Com o dinheiro, Thomas comprou um vestido para ela.

Margaret recusou.

— Por quê?

— Porque não sei de onde veio.

— Eu falei.

— E eu conheço meus filhos.

O vestido permaneceu dobrado sobre uma cadeira durante dias.

Thomas ficou ofendido.

Acabou devolvendo.

A Casa do Sol Nascente não destruía ninguém numa única noite.

Esse era o perigo.

Se tudo fosse perdido de uma vez, seria fácil compreender.

Mas o lugar oferecia primeiro pequenas recompensas.

Um pouco de dinheiro.

Uma noite divertida.

A sensação de ser importante.

A ilusão de controlar o acaso.

Thomas começou a frequentá-la quase diariamente.

A mãe percebeu.

Samuel também.

Os dois discutiram.

— Pare de ir lá.

Thomas riu.

— Agora você virou pregador?

— Estou falando sério.

— Você me levou.

Samuel não respondeu.

Era verdade.

— Eu sei o que estou fazendo.

Samuel aproximou-se.

— Não sabe.

— E você sabe?

— Sei mais do que você.

Thomas ficou irritado.

— Então por que continua indo?

Samuel olhou para o irmão e disse uma frase que Thomas não compreenderia durante anos:

— Porque algumas portas são mais fáceis de atravessar entrando do que saindo.

Thomas não parou.

Pelo contrário.

Começou a apostar mais.

Deixou o trabalho.

Dizia que poderia ganhar mais numa noite do que em uma semana.

Às vezes conseguia.

Às vezes perdia tudo.

Quando perdia, pedia dinheiro emprestado.

Quando ganhava, pagava.

Depois voltava.

O círculo parecia funcionar.

Até deixar de funcionar.

Aos vinte anos, devia dinheiro a três homens.

Aos vinte e um, vendeu o relógio que pertencera ao pai.

Aos vinte e dois, pegou dinheiro escondido da mãe.

Foi a primeira vez que Margaret o expulsou de casa.

Não gritou.

Aquilo foi pior.

Colocou uma pequena mala na porta.

— Quando quiser meu filho de volta, esta casa está aberta.

Thomas sentiu raiva.

— Eu sou seu filho.

Margaret balançou a cabeça.

— Você está aqui. Mas não é você.

Ele foi embora.

Samuel tentou ajudá-lo.

Pagou parte de suas dívidas.

Arranjou trabalho.

Levou Thomas para morar consigo.

Durante alguns meses, funcionou.

Então uma noite Thomas voltou à Casa do Sol Nascente.

Apenas para ver os amigos.

Foi o que disse a si mesmo.

Saiu de lá sem o dinheiro do aluguel.

Quando Samuel descobriu, perdeu o controle.

Brigaram.

Thomas acusou o irmão de hipocrisia.

Samuel respondeu que estava tentando tirá-lo daquilo havia anos.

— Você me colocou lá.

A frase feriu.

Samuel ficou em silêncio.

Thomas percebeu.

Continuou mesmo assim.

— Se eu estraguei minha vida, aprendi com você.

Foi embora.

Na manhã seguinte, Samuel desapareceu.

Durante semanas ninguém sabia onde estava.

Até chegar notícia de Baton Rouge.

Samuel havia sido encontrado morto.

Uma briga.

Dívida.

Ninguém soube explicar exatamente.

Talvez jogo.

Talvez bebida.

Talvez algo pior.

Thomas não foi ao enterro.

A vergonha foi maior que a coragem.

Passou três dias bebendo.

Depois voltou à casa.

A Casa do Sol Nascente parecia igual.

O piano tocava.

As cartas corriam.

As pessoas riam.

Thomas sentiu ódio.

Mas sentou-se.

Jogou.

Perdeu.

Jogou novamente.

Era a única coisa que sabia fazer com a culpa.

Meses depois, recebeu uma carta da mãe.

Não a abriu por dois dias.

Quando finalmente leu, havia poucas palavras.

Margaret dizia que não escreveria para pedir que voltasse.

Também não diria que tudo estava perdoado.

Escreveu apenas:

“Samuel morreu achando que ainda podia salvar você. Não transforme a morte dele em mais uma desculpa para continuar.”

Thomas leu várias vezes.

Depois colocou a carta no bolso.

Naquela noite, não foi à casa.

Na noite seguinte, também não.

Na terceira, ficou parado diante da porta durante quase uma hora.

Entrou.

Não apostou.

Procurou o homem a quem devia mais dinheiro.

Entregou o pouco que tinha.

— Falta muito — disse o homem.

— Eu sei.

— Vai pagar como?

Thomas respondeu:

— Trabalhando.

O homem riu.

Thomas não.

Levou dois anos.

Voltou para os cais.

Carregou peso.

Trabalhou em armazéns.

Fez turnos noturnos.

Morou em quartos baratos.

Pagou dívidas lentamente.

Não tocou em cartas.

Não bebeu durante quase um ano.

Depois aprendeu a beber sem se destruir.

Alguns vícios não desaparecem.

Precisam ser vigiados.

Aos vinte e seis anos, deixou Nova Orleans.

Não porque estivesse fugindo da dívida.

Já havia pago.

Fugia das ruas.

Dos rostos.

Dos lugares onde cada esquina lembrava alguma coisa.

Foi para o Texas.

Depois para o Novo México.

Trabalhou em estradas de ferro.

Mais tarde tornou-se mecânico.

Casou-se.

Teve uma filha.

Chamou-a Margaret.

A esposa, Eleanor, sabia parte da história.

Não toda.

Thomas tinha vergonha.

Não do homem que havia sido.

Do medo de que esse homem ainda existisse.

Durante quinze anos não voltou a Nova Orleans.

A mãe escrevia.

As cartas diminuíram com o tempo.

A letra começou a tremer.

Margaret nunca cobrou.

Perguntava pela neta.

Contava notícias da cidade.

Às vezes mencionava Samuel.

Thomas guardava todas.

Respondia quase sempre.

Mas não voltava.

Até receber um telegrama.

Sua mãe estava doente.

Dessa vez não adiou.

Pegou o trem.

Durante a viagem, quase decidiu descer antes.

Mas seguiu.

Margaret estava menor.

Era essa a primeira coisa que percebeu.

A mulher que durante sua infância parecia ocupar toda a cozinha agora desaparecia dentro da cama.

Thomas ajoelhou-se ao lado.

Ela abriu os olhos.

— Demorou.

Ele começou a chorar.

— Eu sei.

Margaret tocou seu rosto.

— Você está velho.

Thomas riu entre lágrimas.

— A senhora também.

— Eu tenho direito.

Ficaram alguns minutos em silêncio.

Depois ela perguntou pela neta.

Thomas mostrou uma fotografia.

Margaret sorriu.

— Parece com você.

— Espero que não muito.

A mãe olhou seriamente.

— Não diga isso.

Thomas baixou os olhos.

Ela continuou:

— Você passou tempo demais achando que a pior coisa que fez é tudo que você é.

Ele não respondeu.

— Samuel também fez coisas ruins.

Thomas sentiu o peito apertar.

— Ele morreu por minha causa.

Margaret ficou em silêncio.

— Não.

— Mãe…

— Você foi cruel com ele. Ele sofreu por você. Mas a vida dele também era responsabilidade dele.

Thomas não esperava ouvir aquilo.

Durante quinze anos carregara uma sentença que ninguém lhe dera.

— Eu devia ter ido ao enterro.

— Devia.

— Eu devia ter voltado.

— Devia.

Margaret não suavizava.

— Então como…

Ela apertou sua mão.

— Arrependimento serve para mudar o que vem depois. Não para matar o resto da vida.

Thomas chorou.

Naquela tarde, contou à mãe tudo.

Coisas que ela sabia.

Coisas que não.

Margaret ouviu.

Quando terminou, perguntou:

— Quer que eu diga que está perdoado?

Thomas assentiu.

— Não posso falar por Samuel.

Ele sentiu o coração afundar.

Margaret continuou:

— Mas por mim, está.

Ela morreu quatro dias depois.

Thomas permaneceu na cidade para o enterro.

Depois, antes de partir, fez algo que adiara desde que chegara.

Foi procurar a Casa do Sol Nascente.

Caminhou pela antiga rua.

Muita coisa mudara.

Algumas casas haviam sido demolidas.

Outras estavam em ruínas.

O endereço ainda existia.

Mas o lugar estava fechado.

As venezianas vermelhas estavam descascadas.

Uma placa informava que o prédio seria vendido.

Thomas ficou do outro lado da rua.

Por alguns segundos teve dezessete anos novamente.

Conseguiu ouvir o piano.

Samuel rindo.

Moedas sobre a mesa.

A voz da mãe.

Depois atravessou.

Uma das janelas estava quebrada.

Olhou para dentro.

Poeira.

Cadeiras empilhadas.

Paredes vazias.

Nada parecia poderoso.

Nada parecia perigoso.

Era apenas uma casa.

Thomas percebeu uma coisa simples e quase decepcionante.

O lugar nunca tivera poder sozinho.

As pessoas é que levavam para dentro seus desejos, suas fraquezas, sua esperança de ganhar alguma coisa depressa, sua necessidade de esquecer outras.

A casa apenas oferecia espaço.

Um homem apareceu.

Era o corretor responsável pelo imóvel.

— Interessado em comprar?

Thomas quase riu.

— Não.

— Conheceu o lugar?

— Conheci.

O homem contou que pretendiam transformá-lo em pensão ou demolir.

Thomas não se importou.

Durante anos imaginara que precisaria ver aquela casa destruída para sentir paz.

Não precisava.

Se continuasse de pé, já não mandava em sua vida.

Antes de partir, retirou do bolso a carta da mãe.

A última.

Levara consigo.

Releu.

“Arrependimento serve para mudar o que vem depois.”

Dobrou.

Guardou novamente.

Na estação comprou passagem de volta.

E, pela primeira vez, Nova Orleans pareceu apenas uma cidade.

Não uma condenação.

Anos depois, Thomas contou toda a história à filha.

Margaret tinha dezessete anos.

A mesma idade que ele quando entrara pela primeira vez naquela casa.

Contou sobre Samuel.

Sobre o jogo.

Sobre dinheiro roubado.

Sobre a expulsão.

Sobre culpa.

A filha ouviu em silêncio.

Quando terminou, perguntou:

— Por que está me contando?

Thomas pensou.

— Porque meu irmão tentou me proteger escondendo algumas coisas.

— E não funcionou.

— Não.

— Então o senhor acha que contar vai funcionar?

Ele sorriu.

— Também não sei.

Margaret riu.

Thomas ficou sério.

— Mas quero que você saiba uma coisa.

— O quê?

— Pessoas podem fazer coisas muito ruins sem se tornarem para sempre apenas aquilo que fizeram.

A filha ficou quieta.

— E também podem se perder achando que estão só se divertindo.

Margaret assentiu.

Thomas não precisava dizer mais.

Naquela noite, depois que a filha dormiu, ele ficou sentado na varanda.

Pensou em Samuel.

Durante muitos anos, lembrara do irmão apenas pelo fim.

A dívida.

A briga.

A morte.

Agora permitia-se lembrar de outras coisas.

Samuel ensinando-o a nadar.

Defendendo-o numa briga de escola.

Trazendo pão quando não havia comida suficiente.

Pagando parte de suas dívidas.

Tentando salvá-lo mesmo sem saber salvar a si próprio.

Samuel não era apenas o homem que morrera.

Assim como Thomas não era apenas o rapaz que quase destruíra a própria vida.

Talvez algumas casas guardem histórias ruins.

Mas nenhuma casa escreve sozinha o destino de quem entra.

Thomas levara muito tempo para compreender isso.

Havia portas que nunca deveria ter atravessado.

Havia escolhas que desejaria desfazer.

Pessoas que machucara.

Coisas que jamais conseguiria reparar completamente.

Mas também havia uma filha dormindo dentro de casa.

Uma esposa que conhecia seu passado e ainda assim o amava.

Uma vida construída depois do erro.

E a lembrança de uma mãe que o ensinara, já no fim, que arrependimento não foi feito para ser uma prisão.

Thomas olhou para o céu.

O sol começava a nascer.

Uma faixa clara surgia no horizonte.

Durante anos, evitara qualquer coisa que lhe lembrasse o nome daquela velha casa de Nova Orleans.

Agora sorriu diante da ironia.

O sol nascia todos os dias.

Sobre casas boas.

Sobre casas ruins.

Sobre homens que acertaram.

Sobre homens que erraram.

Sobre gente começando.

Sobre gente recomeçando.

Talvez nenhuma manhã apagasse completamente a noite anterior.

Mas cada uma oferecia alguma coisa que a noite já não podia impedir:

a possibilidade de escolher o que fazer depois.

E Thomas finalmente sabia que, algumas vezes, essa possibilidade era tudo de que uma pessoa precisava.