Toda canção pode esconder uma história.
Primeiro, a história. Depois, a canção.
Pelo Mundo

Quando Paris Voltou a Ter Cor

A história que poderia ter existido antes de uma canção

Paris, 1946.
Madeleine havia esquecido quando começara a enxergar a cidade em tons de cinza.
Talvez tivesse sido durante a guerra. Talvez antes.
Durante anos, Paris parecera viver com medo. As pessoas aprenderam a falar baixo, a fechar as cortinas cedo e a desconfiar dos passos que ecoavam nas calçadas depois do anoitecer.
Agora a guerra havia terminado.
As bandeiras tinham voltado às janelas. Os cafés estavam novamente cheios. Casais caminhavam junto ao Sena e músicos reapareciam nas esquinas.
Paris queria viver.
Madeleine ainda não sabia se queria viver com Paris.
Todos os dias, às sete da manhã, ela levantava a porta de madeira da pequena floricultura que pertencera à sua mãe.
Fleurs Madeleine.
O nome fora ideia do pai.
— Um dia esta loja será sua — ele dizia. — Então já podemos colocar seu nome nela.
Ele não vivera para ver a previsão se cumprir.
Morrera antes da guerra, deixando Madeleine e a mãe cuidando das flores. Depois viera a ocupação. Depois as privações. Depois a doença da mãe.
E, finalmente, o silêncio.
Aos trinta e quatro anos, Madeleine possuía uma floricultura, dois vestidos bons, um pequeno apartamento sobre a loja e poucas razões para acreditar que a vida ainda pudesse surpreendê-la.
Mesmo assim, todas as manhãs colocava flores na calçada.
Rosas, quando havia.
Tulipas.

Margaridas.
Às vezes apenas pequenos ramos que conseguia comprar dos fornecedores que voltavam lentamente a abastecer Paris.
As flores eram sua maneira de resistir.
Naquela manhã de março, chovia.
Madeleine organizava algumas rosas quando um homem parou diante da loja.
Devia ter pouco mais de quarenta anos. Vestia um sobretudo escuro bastante usado e carregava uma pequena caixa de madeira.
— Madame?
— Sim?
— Quanto custa uma rosa?
Ela respondeu.
O homem colocou a mão no bolso, contou algumas moedas e franziu a testa.
— Tenho dinheiro para uma só.
— Então leve uma só.
Ele escolheu demoradamente.
— Esta.
Madeleine embrulhou a rosa.
— É para sua esposa?
O homem sorriu.
— Não.
— Namorada?
— Também não.
Pegou a flor e disse:

— É para minha filha.
Madeleine olhou para ele.
— Quantos anos?
— Nove.
— Ela gosta de rosas?
O homem demorou alguns segundos para responder.
— Não sei.
E saiu.
No dia seguinte ele voltou.
Não comprou nada.
Ficou olhando as flores pela vitrine até que Madeleine perguntou:
— Hoje não levará uma rosa?
— Hoje vim agradecer.
— Sua filha gostou?
Ele baixou os olhos.
— Ainda não entreguei.
Madeleine não perguntou mais nada.
Ele se apresentou.
— Meu nome é Julien.
— Madeleine.
— Eu sei. Está escrito na porta.
Foi a primeira vez, em muitos meses, que ela riu espontaneamente.

Julien também riu.
E foi embora.
Passaram-se três dias.
Na sexta-feira, ele voltou.
Desta vez comprou duas rosas.
— Duas filhas? — perguntou Madeleine.
— Uma filha. Estou ficando mais corajoso.
Ela sorriu.
Julien passou a aparecer quase todas as semanas.
Às vezes comprava uma flor. Às vezes apenas conversava.
Madeleine descobriu aos poucos sua história.
Antes da guerra, Julien trabalhava como marceneiro. Era casado com uma mulher chamada Claire e tinha uma filha, Sophie.
Quando a guerra chegou, tudo se desfez.
Ele passou anos longe de casa.
Quando finalmente retornou a Paris, descobriu que Claire havia morrido durante sua ausência e
Sophie estava vivendo com uma tia.
A menina tinha nove anos e praticamente não conhecia o próprio pai.
— Por isso as rosas? — perguntou Madeleine.
— Por isso as rosas.
— E você ainda não entregou nenhuma?
Julien sorriu, constrangido.
— Tenho sete em casa.

— Sete rosas mortas?
— Provavelmente.
Madeleine balançou a cabeça.
— O senhor é um homem muito estranho, monsieur Julien.
— Sobrevivi a uma guerra. Não prometi sair dela normal.
Dessa vez os dois riram.
Algumas semanas depois, Madeleine decidiu fechar a loja mais cedo.
— Venha comigo.
— Para onde?
— Buscar sua filha.
Julien parou.
— Não.
— Por quê?
— Porque ela talvez não queira me ver.
— Talvez.
— Isso não ajuda.
— Mas talvez queira.
Ele ficou em silêncio.
Madeleine escolheu a rosa mais bonita da loja.
Entregou a ele.
— Esta é por minha conta. Mas existe uma condição.
— Qual?

— Esta precisa chegar viva.
Sophie morava do outro lado da cidade.
Madeleine esperou na calçada enquanto Julien subia.
Cinco minutos.
Dez.
Vinte.
Ela começava a sentir frio quando a porta se abriu.
Julien apareceu.
Ao lado dele estava uma menina.
Cabelos escuros, casaco azul e uma rosa nas mãos.
Julien chorava.
Sophie não.
A menina apenas segurava a mão do pai.
Quando chegaram à calçada, Julien apresentou:
— Sophie, esta é Madeleine.
A menina olhou para ela.
— Foi você quem deu a rosa?
— Foi.
Sophie aproximou a flor do rosto.
— É bonita.
Madeleine respondeu:
— Algumas coisas precisam de tempo para a gente perceber que são bonitas.

Julien entendeu que ela não estava falando apenas da rosa.
A partir daquele dia, alguma coisa mudou.
Primeiro na vida de Julien.
Depois na de Madeleine.
Sophie começou a passar algumas tardes na floricultura.
Gostava de desenhar.
Sentava-se perto da janela com lápis e papel enquanto Madeleine trabalhava.
Desenhava flores enormes, árvores azuis, casas amarelas e pessoas com braços compridos.
— Por que suas árvores são azuis? — perguntou Madeleine.
— Porque no desenho elas podem ser.
A resposta ficou em sua cabeça.
Talvez houvesse coisas que não precisassem ter sempre a cor que o mundo lhes havia dado.
Na primavera, Julien começou a ajudar na loja.
Consertou uma prateleira.
Depois uma janela.
Depois construiu um pequeno balcão.
— Você está reformando minha floricultura sem autorização.
— Estou cobrando barato.
— Quanto?
— Café.
Madeleine começou a preparar duas xícaras todas as tardes.

Depois três, porque Sophie reclamou.
Certa noite, caminharam até o Sena.
Paris parecia diferente.
Havia luzes refletidas na água.
Um acordeão tocava em algum lugar.
Pessoas conversavam nas calçadas.
Um casal dançava perto de um café.
Madeleine parou.
— O que foi? — perguntou Julien.
— Nada.
Mas não era nada.
Ela conhecia aquela rua havia anos.
Conhecia aquela ponte.
Conhecia o rio.
Mesmo assim, naquela noite tudo parecia diferente.
As luzes eram mais bonitas.
A música parecia mais próxima.
Até o céu de Paris lhe pareceu mais azul.
Julien percebeu que ela estava sorrindo.
— Você está feliz?
Madeleine demorou a responder.
— Acho que estou reaprendendo.

Ele segurou sua mão.
Não houve declaração.
Não houve promessa.
Apenas duas pessoas que haviam perdido muito e que, por alguma razão, tinham se encontrado quando já não esperavam encontrar ninguém.
Meses depois, a floricultura ganhou uma nova placa.
Julien havia feito a madeira.
Sophie pintara pequenas rosas nos cantos.
Madeleine reclamou que estavam tortas.
Sophie respondeu:
— Flores de verdade também são.
E ficaram.
A vida não se tornou perfeita.
Ainda havia lembranças ruins.
Julien algumas vezes acordava no meio da noite.
Madeleine ainda sentia falta da mãe.
Sophie fazia perguntas sobre Claire que ninguém sabia responder sem tristeza.
Mas descobriram que felicidade não significava apagar aquilo que havia acontecido.
Significava permitir que outras coisas também acontecessem.
Em uma tarde de outubro, Madeleine fechava a loja quando começou a chover.
Julien estava do outro lado da rua.
Sophie corria pela calçada.

— Vocês vão se molhar! — gritou Madeleine.
A menina abriu os braços.
— Então venha se molhar também!
Madeleine hesitou.
Depois atravessou.
Os três caminharam pela chuva.
Paris estava cinzenta.
As pedras estavam molhadas.
O céu estava coberto.
Nada objetivamente havia mudado.
E, no entanto, Madeleine percebeu algo que não conseguia explicar.
Durante anos acreditara que a guerra havia roubado as cores do mundo.
Agora compreendia que talvez as cores nunca tivessem desaparecido.
Ela é que havia deixado de enxergá-las.
Olhou para Julien.
Depois para Sophie.
E sorriu.
Naquele instante, Paris voltou a ter cor.