Toda canção pode esconder uma história.
Primeiro, a história. Depois, a canção.
Amores e Despedidas

As Coisas que Ficaram

A história que poderia ter existido antes de uma canção

Na manhã em que decidiu vender a casa, Augusto começou pela gaveta dos talheres.

Não havia razão especial para começar por ali. Talvez porque fosse uma tarefa simples, dessas

que não exigem coragem. Separar garfos, facas e colheres parecia mais fácil do que decidir o

destino das fotografias, das roupas ou dos objetos que ainda carregavam alguma lembrança.

Colocou três caixas sobre a mesa da cozinha. Numa escreveu LEVAR. Na segunda, DOAR. Na

terceira, JOGAR FORA.

A ideia parecia perfeita.

O problema começou quando encontrou uma colher de cabo azul.

Era uma colher comum, barata, ligeiramente torta na ponta. Augusto ficou olhando para ela

durante alguns segundos antes de se lembrar.

— Não mexe o doce com colher de metal — Helena dizia. — Dá gosto.

— Isso não existe.

— Existe.

— Você inventou.

— Então compra uma colher de pau.

Na semana seguinte ele comprara uma.

Mesmo assim, Helena continuava usando aquela de cabo azul.

Augusto segurou a colher e percebeu que não sabia em qual caixa colocá-la.

Depois de algum tempo, colocou-a novamente na gaveta.

Foi a primeira derrota daquele dia.

Haveria muitas outras.

Augusto tinha cinquenta e quatro anos e estava separado havia onze meses. Durante quase trinta

anos fora casado com Helena. Tinham dois filhos, uma casa construída aos poucos e uma

coleção considerável de pequenas discussões que, vistas separadamente, não significavam nada,

mas que juntas haviam conseguido fazer aquilo que nenhuma grande tragédia fizera: afastá-los.

Não houve traição.

Não houve escândalo.

Não houve sequer uma briga definitiva.

Um dia apenas perceberam que já não conversavam.

Ou talvez conversassem demais sobre coisas que não importavam.

— Pagou a luz?

— O Pedro ligou?

— Tem café?

— Você vai demorar?

— Compra pão.

Durante anos, a vida dos dois foi sendo reduzida a perguntas que poderiam ter sido escritas num

pedaço de papel.

O amor, quando existia, ficava escondido nos intervalos.

Até que numa noite Helena perguntou:

— Augusto, você ainda é feliz comigo?

Ele estava assistindo televisão.

Demorou alguns segundos para responder.

— Que pergunta é essa?

— Uma pergunta.

— Agora?

— Agora.

Augusto abaixou o volume.

— Claro que sou.

Helena continuou olhando para ele.

— Você respondeu rápido demais.

— Você queria que eu demorasse?

— Queria que pensasse.

— Se eu precisasse pensar seria pior.

Ela não respondeu.

Na manhã seguinte, o assunto parecia encerrado.

Não estava.

Poucos meses depois, Helena saiu de casa.

Foi morar num apartamento pequeno no centro. Levou roupas, livros, alguns móveis e metade

das fotografias. Não houve advogado discutindo cada objeto nem filhos obrigados a escolher

lados.

A separação aconteceu com uma civilidade quase ofensiva.

No dia em que Helena saiu, Augusto ajudou a colocar as caixas no carro.

— Acho que acabou — ela disse.

Ele respondeu:

— Acho.

Nenhum dos dois chorou.

Pelo menos não enquanto o outro estava olhando.

Nos primeiros meses, Augusto descobriu uma espécie inesperada de liberdade. Podia deixar os

sapatos na sala. Assistir televisão até tarde. Comer quando quisesse. Não precisava avisar se

demorasse.

Contava isso aos amigos.

— Estou bem.

Era a frase que mais repetia.

No bar, dizia que estava bem.

No trabalho, dizia que estava bem.

Aos filhos, dizia que estava ótimo.

Quando alguém perguntava por Helena, respondia com naturalidade:

— Cada um seguiu sua vida.

E acreditava.

Quase sempre.

Helena também parecia ter seguido.

Começou a fazer aulas de pintura, algo que dizia querer havia anos. Mudou o cabelo. Viajou com

duas amigas. Comprou móveis novos para o apartamento.

A filha, Mariana, comentou com o pai:

— A mãe está diferente.

Augusto fingiu desinteresse.

— Diferente como?

— Mais animada.

— Que bom.

— Ela está pintando.

— Parede?

Mariana riu.

— Quadros, pai.

— Ah.

Naquela noite, Augusto procurou nas redes sociais uma fotografia de Helena.

Encontrou.

Ela aparecia diante de uma tela cheia de flores.

Ampliou a imagem.

Depois percebeu o que estava fazendo e fechou o telefone.

— Ridículo — disse sozinho.

Mas no dia seguinte olhou novamente.

O tempo passou.

Até que decidiram vender a casa.

Os filhos já moravam sozinhos e nenhum queria ficar com o imóvel. Para Augusto, a casa

parecia grande demais. Para Helena, mantê-la não fazia sentido.

Combinaram que ele separaria os objetos restantes.

Foi assim que chegou à gaveta dos talheres.

Depois da colher azul vieram outras coisas.

Uma caneca lascada que Helena usava para café.

Um pano de prato bordado pela mãe dela.

Um ímã de geladeira comprado numa viagem a Gramado.

Augusto começou a perceber que a casa estava cheia de objetos absolutamente inúteis que ele era

incapaz de jogar fora.

No quarto encontrou um casaco.

Cheirou.

Imediatamente sentiu vergonha de si mesmo.

Guardou no armário.

Naquela tarde Helena apareceu.

Tinha ido buscar alguns documentos.

Entrou na cozinha e viu as três caixas.

— Está conseguindo?

— Mais ou menos.

Ela abriu a caixa destinada à doação.

— Você vai doar isso?

Era uma travessa de vidro.

— Ia.

— Foi presente da minha mãe.

— Então leva.

Helena colocou a travessa sobre a mesa.

— Não tenho onde guardar.

— Então deixa.

— Mas você vai vender a casa.

— Helena, decide.

Ela olhou para ele.

— Você continua impaciente.

— E você continua sem decidir nada.

O silêncio chegou rápido.

Era impressionante como duas pessoas podiam reencontrar em poucos segundos os mesmos

lugares onde costumavam se ferir.

Helena pegou os documentos.

— Vou embora.

Augusto não tentou impedir.

Quando ela chegou à porta, perguntou:

— Você quer a colher azul?

Helena virou-se.

— Que colher?

Ele abriu a gaveta e mostrou.

Ela começou a rir.

— Meu Deus. Isso ainda existe?

Augusto sorriu.

— Você dizia que colher de metal mudava o gosto do doce.

— Muda.

— Não muda.

— Trinta anos e você ainda não aprendeu nada.

Riram.

Por alguns segundos, voltaram a ser eles.

Então Helena foi embora.

Naquela noite Augusto ficou pensando naquela risada.

Sentiu falta.

Não admitiu.

Alguns dias depois, Mariana telefonou.

— Pai, a mãe vai jantar lá em casa sábado. Você quer vir?

— Sua mãe vai estar?

— Acabei de dizer.

— Então não.

— Por quê?

— Para não ficar estranho.

Mariana suspirou.

— Vocês foram casados trinta anos. Acho que já passaram da fase de ficar estranhos na mesma

sala.

Augusto inventou um compromisso.

No sábado ficou em casa.

Às nove da noite, pegou o telefone.

Escreveu uma mensagem para Helena.

“Espero que o jantar esteja bom.”

Apagou.

Escreveu outra.

“Mariana disse que você estaria lá.”

Apagou também.

Colocou o telefone sobre a mesa.

Cinco minutos depois, chegou uma mensagem.

Era Helena.

“Mariana fez aquela massa que você gosta.”

Augusto ficou olhando para a tela.

Respondeu:

“Espero que tenha aprendido a fazer o molho.”

Helena respondeu quase imediatamente:

“Não aprendeu.”

Ele riu sozinho.

Foi uma conversa de duas frases.

Dormiu melhor naquela noite.

As semanas seguintes foram cheias dessas pequenas aproximações.

Nada importante.

Uma mensagem sobre os filhos.

Uma conta antiga.

Uma fotografia encontrada durante a mudança.

Certa vez Helena enviou uma foto de um vaso quebrado.

“Olha o que encontrei.”

Augusto reconheceu.

Tinham comprado o vaso na primeira viagem depois do casamento.

Respondeu:

“Pode jogar fora.”

Ela escreveu:

“Já joguei.”

Augusto ficou incomodado.

Não sabia por quê.

Dois dias depois perguntou:

“Jogou mesmo?”

Helena respondeu:

“Não.”

Ele sorriu.

Era absurdo.

Dois adultos separados, escondendo um vaso quebrado que nenhum dos dois queria.

Mas as coisas continuavam aparecendo.

Objetos.

Lugares.

Músicas.

Receitas.

Frases.

Cada vez que Augusto acreditava que finalmente havia colocado Helena no passado, alguma

coisa a trazia de volta.

E, pelo que percebia, acontecia o mesmo com ela.

Até que Helena lhe contou que havia conhecido alguém.

Foi por telefone.

— Estou saindo com uma pessoa.

Augusto permaneceu em silêncio.

— Augusto?

— Estou ouvindo.

— Achei melhor você saber por mim.

— Não precisava.

— Eu sei.

— Quem é?

Arrependeu-se imediatamente de perguntar.

— Roberto.

— Conheço?

— Não.

— O que ele faz?

Helena riu sem humor.

— Você disse que não precisava saber.

— Estou conversando.

Ela contou pouco.

Roberto era arquiteto, divorciado e frequentava o mesmo curso de pintura.

Augusto desejou boa sorte.

Depois desligou.

Naquela noite não dormiu.

Levantou às duas da manhã. Foi à cozinha, abriu a geladeira sem fome, bebeu água e caminhou

pela casa.

Parou diante das três caixas.

LEVAR.

DOAR.

JOGAR FORA.

Sentou-se.

Pela primeira vez desde a separação permitiu-se fazer a pergunta que vinha evitando havia quase

um ano.

E se ainda amasse Helena?

A resposta apareceu tão depressa que o assustou.

Claro que amava.

Então veio a segunda pergunta.

Por que nunca havia dito?

Essa demorou mais.

Talvez porque admitir significasse reconhecer que a separação não resolvera aquilo que

imaginavam.

Talvez porque fosse mais fácil dizer que o casamento acabara do que admitir que haviam

deixado de cuidar dele.

Talvez porque ambos fossem orgulhosos.

Ou talvez porque existam sentimentos que tentamos esconder justamente porque são os únicos

capazes de nos machucar de verdade.

No dia seguinte Augusto não fez nada.

Nem no outro.

Passaram-se duas semanas.

Helena não mencionou Roberto novamente.

Até que, numa tarde, apareceu para terminar de separar as coisas.

Trabalharam durante quase três horas.

Quando terminaram, a casa estava praticamente vazia.

Sentaram-se no chão da sala.

— Estranho — Helena disse.

— O quê?

— Ver tudo vazio.

Augusto olhou em volta.

— Parece maior.

— Parece outra casa.

Ficaram em silêncio.

Depois Helena perguntou:

— Você vai sentir falta daqui?

— Vou.

— Eu também.

Augusto respirou fundo.

— Você está feliz?

Ela virou o rosto.

— Por que está perguntando?

— Quero saber.

— Com o Roberto?

Ele assentiu.

Helena demorou.

— Ele é uma pessoa boa.

Augusto quase riu.

— Isso não respondeu.

— E desde quando você percebe quando alguém não responde?

A frase acertou exatamente onde deveria.

Ele baixou os olhos.

— Devia ter percebido antes.

Helena ficou quieta.

— Percebido o quê?

Augusto olhou para ela.

— Um monte de coisas.

Ela esperou.

— Eu dizia para todo mundo que estava bem — continuou ele. — Dizia que a separação tinha

sido melhor, que nós dois estávamos seguindo a vida.

Helena não interrompeu.

— E talvez eu estivesse tentando convencer a mim mesmo.

Ela desviou o olhar.

Augusto continuou:

— Toda vez que encontro alguma coisa sua nessa casa, guardo.

Helena sorriu discretamente.

— Até a colher azul?

— Principalmente a colher azul.

Ela riu.

Augusto não.

— Eu sinto sua falta.

A risada desapareceu.

Era a primeira vez que um deles dizia aquilo.

Helena permaneceu imóvel.

— Augusto…

— Não precisa responder.

— Preciso.

— Então responde.

Ela olhou para as caixas espalhadas pela sala.

— Eu também sinto.

Ele fechou os olhos por um instante.

Helena continuou:

— Mas sentir falta não significa que devemos voltar.

— Eu sei.

— Nós nos machucamos.

— Eu sei.

— E eu não quero voltar para o casamento que tínhamos.

Augusto assentiu.

— Nem eu.

Ela o encarou.

— Então o que você quer?

Ele pensou.

Talvez fosse a primeira vez em muitos anos que pensava antes de responder a uma pergunta

importante.

— Quero descobrir se ainda existe alguma coisa que valha a pena começar de novo.

Helena não respondeu naquele dia.

Algumas semanas depois, a casa foi vendida.

Augusto mudou-se para um apartamento. Helena continuou no dela.

Roberto desapareceu da história sem briga, sem vilão e sem grandes explicações. Algumas

pessoas simplesmente passam pela vida de outras no momento errado.

Augusto e Helena começaram a tomar café juntos.

Primeiro uma vez.

Depois outra.

Não chamavam aquilo de encontro.

Não falavam em voltar.

Conversavam.

Sobre os filhos.

Sobre os anos de casamento.

Sobre erros que durante muito tempo cada um atribuíra exclusivamente ao outro.

Certa manhã, Helena apareceu carregando uma sacola.

— Trouxe uma coisa.

Tirou de dentro o velho vaso quebrado.

Augusto começou a rir.

— Você guardou mesmo.

— Guardei.

— Por quê?

Ela colocou o vaso sobre a mesa.

— Não sei.

Augusto olhou para ela.

— Sabe, sim.

Helena sorriu.

Talvez soubesse.

Meses depois, os dois ainda não tinham decidido exatamente o nome daquilo que estavam

vivendo.

Mas já não precisavam decidir.

Algumas verdades não chegam numa grande declaração.

Elas aparecem aos poucos.

Numa colher que ninguém consegue jogar fora.

Num vaso quebrado guardado dentro de um armário.

Numa fotografia que alguém olha escondido.

Numa mensagem escrita e apagada.

Numa receita que ainda lembra outra pessoa.

Na vontade inexplicável de saber se o outro está feliz.

Augusto passou quase um ano procurando maneiras de provar que havia deixado Helena no

passado.

Helena fizera praticamente a mesma coisa.

No fim, foram derrotados pelas pequenas coisas.

Porque o amor, quando tenta se esconder, quase nunca consegue apagar todos os rastros.

Sempre deixa alguma coisa para trás.

Uma lembrança.

Um hábito.

Uma falta.

Uma esperança.

E, às vezes, são justamente essas pequenas evidências que acabam contando a verdade que duas

pessoas passaram tanto tempo tentando negar.