Durante quase seis anos, todas as quintas-feiras, pouco depois das oito da noite, Henrique
entrava no Bar Avenida, cumprimentava o homem do caixa e seguia diretamente para a última
mesa do salão. Era uma mesa pequena, encostada à parede, de onde se podia ver a porta, o balcão
e praticamente todo o movimento do lugar.
Ninguém precisava perguntar o que ele queria. Maurício, o garçom mais antigo da casa, apenas
levantava a mão em cumprimento e, alguns minutos depois, levava até a mesa sua bebida e um
copo.
Henrique quase sempre estava sozinho.
— Hoje também? — Maurício perguntou certa noite.
— Hoje também.
— Qualquer dia vou começar a cobrar aluguel dessa mesa.
Henrique sorriu.
— Já devo ter pago metade do bar.
Maurício riu e voltou ao balcão. Conhecia o cliente havia tempo suficiente para saber quando
conversar e quando deixá-lo em paz. Naquela noite, decidiu deixá-lo.
O que Maurício não sabia era que Henrique não escolhera aquela mesa por acaso.
Foi ali que conheceu Elisa.
Aconteceu numa sexta-feira de dezembro, muitos anos antes, quando o Bar Avenida ainda tinha
outras cadeiras, outras paredes e um aparelho de som que precisava de um tapa para voltar a
funcionar. Henrique tinha trinta e dois anos e trabalhava como vendedor de máquinas agrícolas.
Passava boa parte da semana viajando e, quando voltava para casa, costumava encontrar os
amigos naquele bar.
Elisa apareceu acompanhada de duas colegas. Era professora de História numa escola particular
e tinha acabado de chegar à cidade.
Naquela noite o salão estava lotado. Quando as três mulheres entraram, não havia mesa
disponível. Um dos amigos de Henrique ofereceu espaço na deles.
Elisa sentou-se justamente ao lado dele.
— Henrique — apresentou-se.
— Elisa.
Conversaram pouco no começo. Depois bastante. Quando perceberam, os amigos já estavam
indo embora.
— Acho que fomos abandonados — disse Elisa.
Henrique olhou em volta.
— Acho que fizeram de propósito.
— Seus amigos ou minhas amigas?
— Provavelmente os dois lados conspiraram.
Ela riu.
Na semana seguinte voltaram ao mesmo bar.
Dessa vez sozinhos.
Escolheram a mesa do fundo porque era mais silenciosa.
Foi ali que começaram.
Durante dois anos, o Bar Avenida fez parte do namoro. Comemoraram aniversários, promoções
no trabalho, pequenas vitórias e até algumas reconciliações naquela mesma mesa.
Quando Henrique pediu Elisa em casamento, não escolheu restaurante elegante nem preparou
surpresa.
Colocou uma pequena caixa sobre a mesa.
Ela abriu.
— É sério?
— Espero que sim. Foi caro.
Elisa começou a rir.
— Henrique!
— O quê?
— Você está me pedindo em casamento ou reclamando do preço da aliança?
— Os dois.
Ela disse sim.
Casaram-se seis meses depois.
Os primeiros anos foram bons. Compraram um apartamento, trocaram de carro e começaram a
fazer planos para ter filhos. O filho não veio. Tentaram durante algum tempo, fizeram exames,
procuraram médicos e ouviram explicações que mudavam a cada consulta.
Elisa sofreu mais do que deixava transparecer.
Henrique também, mas sua maneira de lidar com aquilo era diferente. Trabalhava mais. Viajava
mais. Evitava conversar.
Quando Elisa chorava, ele tentava encontrar soluções.
— Podemos procurar outro médico.
— Não quero outro médico.
— Então podemos pensar em adoção.
— Eu não quero pensar em nada hoje.
Henrique ficava perdido.
Nunca aprendera que algumas dores não pedem solução. Pedem companhia.
Aos poucos, os dois começaram a se afastar.
Não de forma dramática. Não houve uma manhã em que acordaram sem se amar. Apenas
passaram a viver tristezas diferentes dentro da mesma casa.
Elisa queria falar.
Henrique queria esquecer.
Ela interpretava o silêncio dele como indiferença.
Ele interpretava a tristeza dela como uma acusação que não sabia como responder.
O assunto dos filhos desapareceu das conversas, mas permaneceu entre eles.
Depois vieram outros problemas.
Henrique recebeu uma promoção que exigia ainda mais viagens. Aceitou sem consultar Elisa.
Quando contou, esperava que ela ficasse feliz.
— Vou ganhar quase quarenta por cento a mais.
— E vai ficar quanto tempo fora?
— Depende. Duas, talvez três noites por semana.
Elisa ficou em silêncio.
— É uma oportunidade importante.
— Para você.
— Para nós.
Ela o encarou.
— Você ainda sabe o que significa “nós”?
Henrique se irritou.
— Tudo vira problema.
— Não. Tudo vira trabalho para você.
A discussão foi longa.
Nenhum dos dois venceu.
Nos meses seguintes, Henrique viajou mais do que nunca.
Elisa começou a construir uma vida que não dependia da presença dele. Fez novos amigos,
voltou a estudar e passou a dar aulas também numa faculdade.
Quando Henrique estava em casa, parecia visitante.
Ainda assim, havia momentos bons.
Domingos preguiçosos.
Viagens curtas.
Jantares.
O Bar Avenida.
De vez em quando voltavam à mesa do fundo e, durante algumas horas, pareciam novamente os
dois jovens que haviam se conhecido ali.
Talvez por isso tenham demorado tanto para admitir que alguma coisa estava terminando.
Foi Elisa quem falou primeiro.
— Acho que quero me separar.
Henrique estava tirando os sapatos.
Parou.
— O quê?
— Você ouviu.
— Tem outra pessoa?
A pergunta saiu antes que pudesse pensar.
Elisa fechou os olhos.
— É impressionante.
— O quê?
— Depois de tudo que vivemos, essa é sua primeira pergunta.
— Então existe?
— Não.
— Tem certeza?
Ela levantou-se.
— É exatamente por isso que eu não consigo mais.
— Por quê?
— Porque você só entende um casamento terminar se alguém tiver traído alguém. Não consegue
aceitar que duas pessoas possam simplesmente ter parado de se encontrar.
Henrique ficou em silêncio.
Elisa continuou:
— Eu me sinto sozinha há anos.
— E acha que eu não?
A frase surpreendeu os dois.
Ela sentou-se novamente.
— Então por que nunca falou?
Henrique não tinha resposta.
Separaram-se quatro meses depois.
Elisa saiu do apartamento.
Henrique permaneceu.
Durante algum tempo acreditou que ela voltaria. Não porque tivesse dito isso, mas porque quinze
anos de vida pareciam tempo demais para desaparecer.
Ela não voltou.
Henrique começou então a frequentar novamente o Bar Avenida.
Primeiro aos sábados.
Depois às quintas.
Sempre na mesa do fundo.
Maurício percebeu.
— Fazia tempo que não aparecia sozinho.
— Agora tenho mais tempo.
O garçom não perguntou.
Meses se passaram.
Henrique soube por amigos que Elisa estava bem. Continuava dando aulas. Mudara de
apartamento. Viajara para Buenos Aires.
Depois veio a notícia que ele temia sem saber que temia.
Ela estava namorando.
Chamava-se Eduardo.
Henrique ouviu o nome numa conversa com um amigo.
— Quem?
O amigo percebeu o erro.
— Ninguém.
— Você acabou de falar.
— Henrique…
— Quem é Eduardo?
Soube.
Era professor universitário. Conhecera Elisa num congresso. Morava na mesma cidade.
Henrique fingiu indiferença.
Naquela quinta-feira chegou ao Bar Avenida mais cedo.
Maurício levou a bebida.
— Dia ruim?
— Normal.
O garçom conhecia homens o suficiente para saber que “normal” podia significar muitas coisas.
Henrique bebeu mais depressa que de costume.
— Maurício.
— Fala.
— Você já foi casado?
— Duas vezes.
— Duas?
— Sou otimista.
Henrique riu.
— E esqueceu?
Maurício limpava a mesa ao lado.
— Quem?
— As duas.
O garçom pensou.
— Esquecer mesmo?
— É.
— Não.
Henrique olhou para ele.
— Nenhuma?
— Esquecer é uma palavra grande demais.
— E como faz?
Maurício deu de ombros.
— Vai vivendo.
A resposta irritou Henrique.
— Grande conselho.
— Se eu soubesse mais, não tinha casado duas vezes.
Henrique riu novamente.
Foi assim que começaram a conversar.
Nas semanas seguintes, Maurício tornou-se uma espécie improvável de confidente. Não porque
Henrique contasse tudo. Contava pedaços.
Falava de Elisa.
Das viagens.
Da separação.
De Eduardo.
Às vezes repetia histórias.
Maurício ouvia como se fosse a primeira vez.
Uma noite Henrique perguntou:
— Você acha que ela ainda pensa em mim?
— Não faço ideia.
— Quinze anos não desaparecem.
— Não desaparecem.
— Então deve pensar.
Maurício colocou o copo sobre a mesa.
— Pensar não é a mesma coisa que querer voltar.
Henrique não gostou.
Mas sabia que era verdade.
O tempo continuou.
Elisa casou-se com Eduardo.
Henrique recebeu a notícia pela filha de um amigo em comum. Dessa vez não foi ao bar.
Ficou em casa.
Abriu uma garrafa e bebeu sozinho.
No dia seguinte sentiu vergonha.
Não porque ainda amasse Elisa.
Já não sabia exatamente o nome do que sentia.
Era uma mistura de saudade, arrependimento, orgulho ferido e a estranha sensação de que outra
pessoa estava vivendo uma vida que poderia ter sido sua.
Na quinta-feira seguinte voltou ao bar.
Maurício não perguntou nada.
Levou o copo.
Henrique bebeu em silêncio durante algum tempo.
— Ela casou.
— Eu imaginei.
— Como?
— Você faltou semana passada.
Henrique sorriu.
— Sou tão previsível assim?
— Bastante.
Ficaram em silêncio.
— Espero que ela seja feliz — disse Henrique.
Maurício olhou para ele.
— Espera mesmo?
Henrique pensou.
— Hoje não. Talvez amanhã.
O garçom assentiu.
— Já é alguma coisa.
Dois anos se passaram.
Henrique começou a mudar.
Não de uma vez.
Primeiro diminuiu as noites no bar. Depois começou a correr pela manhã. Viajou sozinho. Fez
amizades novas.
Conheceu algumas mulheres.
Nenhuma relação durou muito.
Não porque comparasse todas com Elisa, como os amigos imaginavam. Era porque aprendera,
tarde demais, a ter medo de repetir os mesmos erros.
Certa quinta-feira, entrou no Bar Avenida e encontrou alguém sentado na mesa do fundo.
Era um casal jovem.
Henrique parou.
Maurício percebeu.
— Posso pedir para mudarem.
— Não.
— Tem outra mesa ali.
Henrique ficou olhando os dois.
A mulher ria de alguma coisa. O rapaz falava com as mãos.
Por alguns segundos viu a si mesmo e Elisa muitos anos antes.
— Deixa.
Sentou-se em outra mesa.
Foi a primeira vez.
Naquela noite bebeu apenas um copo.
Antes de sair, Maurício perguntou:
— Já vai?
— Vou.
— Está doente?
Henrique riu.
— Acho que estou melhorando.
Mais alguns meses passaram.
Até que, numa tarde, aconteceu o encontro que ele imaginara centenas de vezes.
Henrique saía de uma farmácia quando viu Elisa do outro lado da rua.
Ela estava sozinha.
Os dois se reconheceram.
Atravessaram.
— Oi.
— Oi.
Abraçaram-se.
Não houve choque.
Nem vontade de fugir.
Apenas familiaridade.
Conversaram durante alguns minutos.
Elisa perguntou sobre o trabalho. Henrique perguntou sobre a mãe dela. Falaram de amigos.
— E você está bem? — ele perguntou.
— Estou.
Dessa vez Henrique acreditou.
— Que bom.
Ela sorriu.
— E você?
Ele pensou antes de responder.
— Também.
Elisa olhou para ele como quem procurava alguma coisa.
— Você mudou.
— Envelheci.
— Não foi isso.
Henrique sorriu.
— Espero que tenha mudado mesmo.
Antes de se despedirem, Elisa tocou no braço dele.
— Henrique, eu queria que você soubesse uma coisa.
— O quê?
— Eu não me arrependo de nós.
Ele sentiu um aperto no peito.
— Nem eu.
— Durante muito tempo achei que tinha perdido quinze anos.
— Eu também.
— Depois percebi que não perdi.
Henrique ficou em silêncio.
Elisa continuou:
— Apenas terminou.
Era uma frase simples.
Mas ele precisava ouvi-la.
Despediram-se.
Henrique ficou alguns segundos na calçada observando-a se afastar.
Não correu atrás.
Não sentiu vontade.
Naquela quinta-feira foi ao Bar Avenida.
Maurício levou a bebida de sempre.
Henrique olhou.
— Traz só metade.
— Metade?
— É.
— Agora fiquei preocupado.
Henrique contou que encontrara Elisa.
— E?
— E nada.
Maurício esperou.
— Ela está bem.
— E você?
Henrique olhou para a mesa do fundo. Estava vazia naquela noite.
— Acho que também.
Bebeu devagar.
Depois perguntou:
— Maurício, sabe quantas vezes eu vim aqui depois que me separei?
— Muitas.
— Você nunca pensou em me mandar para casa?
O garçom riu.
— Várias vezes.
— Por que não mandou?
Maurício puxou uma cadeira e sentou-se por alguns segundos.
— Porque algumas pessoas vêm ao bar para beber. Outras vêm porque não querem ficar
sozinhas.
Henrique ficou quieto.
— E eu?
— Você vinha conversar com alguém que não estava aqui.
Henrique olhou para a cadeira vazia diante dele.
Era verdade.
Durante anos falara com Elisa naquela mesa sem que ela estivesse presente.
Contara coisas que deveria ter dito durante o casamento.
Pedira desculpas que ela nunca ouvira.
Reclamara.
Sentira raiva.
Sentira saudade.
Talvez Maurício tivesse sido apenas a testemunha silenciosa de uma conversa que demorara anos
para terminar.
Henrique levantou o copo.
— Obrigado.
— Pelo quê?
— Por ouvir.
Maurício sorriu.
— Faz parte do serviço.
— Isso não estava na conta.
— Ainda.
Os dois riram.
Henrique terminou a bebida e levantou-se.
Deixou dinheiro sobre a mesa.
— Quinta que vem? — perguntou Maurício.
Henrique pensou.
— Talvez.
Na quinta-feira seguinte não apareceu.
Nem na outra.
Voltou quase dois meses depois, acompanhado de amigos.
Sentaram-se numa mesa grande perto da entrada.
Maurício aproximou-se.
— A mesa do fundo está livre.
Henrique olhou para ela.
Sorriu.
— Pode deixar para alguém que precise mais.
Naquela noite falou alto, contou histórias e riu como não fazia havia muito tempo.
Quando saiu, passou pela velha mesa.
Encostou a mão por alguns segundos no encosto da cadeira.
Ali começara uma história de amor.
Ali fizera um pedido de casamento.
Ali passara anos tentando entender por que aquele amor terminara.
Durante muito tempo acreditara que voltava ao bar porque sentia falta de Elisa.
Agora percebia que não era apenas isso.
Sentia falta também do homem que havia sido quando estava com ela.
E talvez fosse essa uma das partes mais difíceis de uma despedida: quando alguém vai embora,
leva consigo uma versão de nós mesmos que nunca mais volta exatamente igual.
Henrique saiu do bar e caminhou até o carro.
Não precisava esquecer Elisa.
Não precisava apagar quinze anos.
Não precisava fingir que nunca doera.
Precisava apenas deixar aquela história ocupar o lugar correto.
O passado.
Atrás do balcão, Maurício recolheu os copos e olhou para a mesa do fundo.
Estava vazia novamente.
Logo alguém se sentaria ali.
Talvez um casal começando uma história.
Talvez alguém terminando outra.
Talvez apenas uma pessoa procurando companhia para atravessar uma noite difícil.
Porque alguns bares guardam muito mais do que garrafas e copos.
Guardam encontros.
Promessas.
Despedidas.
Confissões que nunca chegaram à pessoa certa.
E histórias de gente que, por não saber com quem falar, acaba contando ao garçom aquilo que o
coração já não consegue guardar.