A cadeira permaneceu vazia durante oito meses.
Ninguém havia combinado que seria assim. Simplesmente aconteceu.
Era uma cadeira comum, de madeira escura, com o assento de palha já um pouco afundado e
uma pequena marca num dos braços. Ficava na cabeceira da mesa da cozinha, de costas para a
janela.
Durante quarenta e três anos, aquele fora o lugar de Anselmo.
Depois que ele morreu, ninguém mais conseguiu sentar ali.
No primeiro domingo após o enterro, dona Lídia colocou a mesa para o almoço como fazia desde
que os filhos eram pequenos. Pratos, copos, arroz, feijão, frango assado e a travessa de macarrão
no centro.
Quando terminou, percebeu que havia colocado também o prato do marido.
Ficou olhando para ele.
A filha mais velha, Teresa, aproximou-se.
— Mãe…
Lídia retirou o prato.
— Força do costume.
Foi tudo o que disse.
Mas ninguém ocupou a cadeira.
Nos domingos seguintes aconteceu a mesma coisa. Os filhos chegavam, os netos corriam pela
casa e alguém acrescentava cadeiras nas laterais da mesa.
A da cabeceira continuava vazia.
Seu Anselmo não fora um homem importante para o mundo.
Nunca ocupara cargo público, nunca aparecera em jornal e nunca tivera muito dinheiro. Durante
trinta e sete anos trabalhou numa oficina mecânica. Primeiro como empregado. Depois
conseguiu comprar metade do negócio. Mais tarde tornou-se dono.
Criou três filhos: Teresa, Marcelo e Eduardo.
Era um homem de poucas demonstrações.
Não dizia “eu te amo” com facilidade.
Na verdade, os filhos não se lembravam de ouvi-lo dizer essas palavras muitas vezes.
Anselmo demonstrava de outras maneiras.
Quando chovia e Teresa precisava sair cedo, o guarda-chuva aparecia encostado na porta.
Quando Marcelo comprou o primeiro carro, o pai passou a manhã inteira verificando freios, óleo,
pneus e correias.
Quando Eduardo foi estudar fora, Anselmo reclamou durante semanas do preço da passagem.
No dia da viagem, colocou discretamente dinheiro dentro da mochila do filho.
Era assim.
O amor de Anselmo quase sempre precisava ser descoberto.
Talvez por isso sua ausência tenha levado algum tempo para mostrar o verdadeiro tamanho.
Nos primeiros dias havia muita gente na casa.
Parentes.
Vizinhos.
Amigos da oficina.
Telefonemas.
Comida chegando em travessas que depois ninguém sabia a quem devolver.
Depois as pessoas voltaram às próprias vidas.
A casa ficou silenciosa.
Foi então que Lídia começou a encontrá-lo por toda parte.
Nos óculos esquecidos sobre a cômoda.
Na camisa xadrez que ainda estava atrás da porta.
Na caixa de ferramentas.
No rádio pequeno da cozinha.
E, principalmente, na cadeira.
Anselmo tinha o hábito de permanecer ali depois das refeições.
Enquanto todos saíam da mesa, ele continuava sentado.
— Vai criar raiz aí? — Lídia perguntava.
— Estou descansando a comida.
— Faz quarenta anos que você descansa a comida.
— Ainda não terminei.
Pegava o café e ficava.
Às vezes sozinho.
Outras vezes alguém se sentava ao lado.
Foi naquela mesa que os filhos aprenderam boa parte do que sabiam sobre o pai.
Teresa se lembrava de uma noite em que tinha dezessete anos.
Chegou chorando.
O primeiro namorado havia terminado com ela.
Tentou passar direto para o quarto, mas Anselmo estava na cozinha.
— O que aconteceu?
— Nada.
— Então por que está chorando?
— Não estou.
Anselmo olhou para ela.
— Seu rosto está com defeito?
Apesar da tristeza, Teresa riu.
Sentou-se.
Contou.
O pai ouviu até o fim.
— Ele disse que não gosta mais de mim.
Anselmo tomou um gole de café.
— E você gosta dele?
— Gosto.
— Então hoje vai doer.
Teresa esperou algum conselho melhor.
— Só isso?
— Só.
— Não vai dizer que ele não me merece?
— Não conheço o rapaz direito.
— Pai!
Ele sorriu.
Depois ficou sério.
— Filha, algumas dores não melhoram porque alguém fala bonito. Melhoram porque os dias
passam.
Teresa nunca esqueceu.
Marcelo também tinha sua história naquela mesa.
Aos vinte e três anos decidiu abandonar a faculdade de Administração.
Tinha medo de contar.
Esperou todos dormirem e encontrou o pai na cozinha.
— Preciso falar uma coisa.
Anselmo puxou a cadeira ao lado.
— Senta.
Marcelo contou.
Esperava uma explosão.
O pai perguntou:
— E vai fazer o quê?
— Quero trabalhar com fotografia.
— Dá dinheiro?
— Não sei.
— Péssimo começo.
Marcelo abaixou a cabeça.
Anselmo permaneceu em silêncio por alguns segundos.
— Você está me perguntando ou avisando?
— Acho que avisando.
— Então faça direito.
Foi tudo.
Anos depois, quando Marcelo abriu seu primeiro estúdio, Anselmo apareceu carregando uma
placa que mandara fazer.
O nome do filho estava escrito grande.
Ele reclamou do preço durante quase um mês.
Eduardo, o caçula, talvez tivesse sido quem mais discutira com o pai.
Eram parecidos demais.
Os dois teimosos.
Os dois incapazes de encerrar uma discussão antes de ter a última palavra.
Quando Eduardo decidiu aceitar um emprego em São Paulo, Anselmo foi contra.
— Sua vida está aqui.
— Minha vida está onde eu estiver.
— Cidade grande não é lugar para criar família.
— Nem tenho família ainda.
— Um dia vai ter.
Discutiram.
Eduardo foi embora.
Passaram quase dois meses sem conversar.
Então, numa terça-feira à noite, o telefone tocou.
— Alô?
— Está comendo direito?
Era Anselmo.
Eduardo sorriu.
— Estou.
— Sua mãe disse que você está trabalhando até tarde.
— Às vezes.
— Não faça isso.
— O senhor trabalhou a vida inteira.
— Justamente por isso estou falando.
A briga terminou sem que nenhum dos dois pedisse desculpas.
Na família de Anselmo, muitas reconciliações aconteciam assim.
O tempo passou.
Vieram noras, genros e netos.
A mesa precisou ser aumentada.
Anselmo mandou um marceneiro fazer duas extensões.
— Um dia essa mesa não vai caber na cozinha — reclamou Lídia.
— Melhor trocar de cozinha do que diminuir a família.
Os domingos tornaram-se tradição.
Não todos.
Mas muitos.
Macarronada, carne assada, crianças correndo e conversas acontecendo ao mesmo tempo.
Anselmo reclamava do barulho.
Quando algum filho faltava, perguntava:
— Fulano não vem?
Lídia respondia:
— Você reclama quando vêm.
— Não reclamei.
— Reclamou domingo passado.
— Eu só disse que estava barulhento.
— É a mesma coisa.
— Não é.
Era.
Aos setenta e dois anos, Anselmo começou a ficar cansado.
Primeiro atribuiu à idade.
Depois veio a falta de ar.
Os exames mostraram um problema cardíaco.
O médico recomendou cirurgia.
— Quando? — perguntou Lídia.
— O quanto antes.
Anselmo tentou transformar tudo em assunto pequeno.
— Trocam umas peças e pronto.
Marcelo riu.
— O senhor acha que coração é carburador?
— Se fosse, eu mesmo consertava.
A cirurgia foi marcada.
Na noite anterior, os três filhos apareceram para jantar.
Ninguém havia combinado.
Simplesmente foram.
Sentaram-se à mesa.
Anselmo percebeu o medo deles.
— Parece velório.
— Pai! — Teresa repreendeu.
— Estou falando sério. Amanhã volto.
Lídia colocou comida no prato dele.
— Então coma e pare de falar bobagem.
Jantaram.
Depois, como sempre, todos saíram da mesa.
Anselmo ficou.
Eduardo também.
— Está com medo? — o filho perguntou.
O pai olhou para ele.
— Estou.
Eduardo ficou surpreso.
Não esperava aquela resposta.
— Vai dar tudo certo.
Anselmo sorriu.
— Espero.
Depois apontou para a mesa.
— Cuide da sua mãe.
— Pai…
— Estou falando por precaução.
— Não precisa.
— Precisa.
Eduardo não queria ouvir.
Anselmo continuou:
— E mantenham isso aqui.
— Isso o quê?
— Vocês.
Olhou para a mesa.
— Família precisa de lugar para se encontrar.
Eduardo assentiu.
Foi a última conversa longa que teve com o pai.
A cirurgia correu bem.
Durante dois dias, tudo parecia caminhar para a recuperação.
Na terceira madrugada houve uma complicação.
Anselmo morreu antes do amanhecer.
Lídia recebeu a notícia no corredor do hospital.
Os filhos chegaram pouco depois.
Nenhum deles se lembraria exatamente do que foi dito naquele dia.
A memória guarda coisas estranhas.
Teresa não se lembrava do rosto do médico, mas lembrava que havia uma máquina de café
fazendo barulho.
Marcelo não se lembrava de quem telefonou para os parentes, mas lembrava do sapato
desamarrado do irmão.
Eduardo lembrava apenas da mesa.
“E mantenham isso aqui.”
No primeiro mês, todos cumpriram.
Almoço de domingo.
Depois começaram as dificuldades.
Teresa tinha compromissos.
Marcelo trabalhava alguns fins de semana.
Eduardo morava longe.
Um domingo virou dois.
Depois três.
Lídia dizia que estava tudo bem.
— Vocês têm a vida de vocês.
Mas fazia comida demais mesmo quando ninguém vinha.
Oito meses depois da morte de Anselmo, Eduardo chegou sem avisar.
Era sábado à tarde.
Encontrou a mãe limpando a cozinha.
— O que está fazendo aqui?
— Vim visitar.
— Aconteceu alguma coisa?
— Precisa acontecer?
Lídia sorriu.
Na manhã seguinte, Eduardo acordou cedo.
Foi à padaria.
Comprou pão.
Depois telefonou para os irmãos.
— Almoço aqui hoje.
Teresa respondeu:
— Hoje não consigo.
— Consegue.
— Tenho compromisso.
— Desmarca.
— Eduardo…
— O pai pediu uma coisa antes de morrer.
Silêncio.
— Que coisa?
— Que a gente mantivesse isso.
Teresa entendeu.
Marcelo chegou primeiro.
Depois Teresa, acompanhada do marido e dos filhos.
A casa voltou a ficar barulhenta.
Lídia preparou macarrão.
Marcelo trouxe carne.
As crianças correram.
Por algumas horas, parecia um domingo antigo.
Até chegar a hora de sentar.
Todos encontraram seus lugares.
A cadeira da cabeceira permaneceu vazia.
Eduardo percebeu.
Olhou para a mãe.
— Alguém precisa sentar ali.
Ninguém respondeu.
— Não — disse Teresa.
— Por quê?
— Porque é a cadeira do pai.
Eduardo ficou olhando.
— O pai não está mais aqui.
A frase doeu.
Lídia pousou a travessa.
— Eu sei.
Foi até a cadeira.
Passou a mão sobre o encosto.
Depois puxou-a.
Todos ficaram em silêncio.
Lídia sentou-se.
Teresa começou a chorar.
— Mãe…
Lídia também estava emocionada.
— Seu pai ia ficar bravo se soubesse que deixamos uma cadeira vazia durante oito meses.
Marcelo riu entre lágrimas.
— Ia dizer que cadeira foi feita para sentar.
— Exatamente.
O almoço começou.
No início, havia um constrangimento estranho.
Depois alguém contou uma história.
Outra pessoa lembrou de outra.
Em pouco tempo estavam falando de Anselmo.
Não com tristeza.
Com riso.
Marcelo contou sobre o dia em que o pai tentou consertar uma televisão e conseguiu deixá-la
pior.
Teresa lembrou das reclamações sobre o barulho dos netos.
Eduardo imitou o jeito dele dizer que ninguém sabia escolher carne no açougue.
Lídia ria mais do que todos.
Quando o almoço terminou, ninguém levantou imediatamente.
Ficaram à mesa.
Como Anselmo fazia.
Foi naquele domingo que entenderam.
Durante meses haviam evitado ocupar a cadeira porque acreditavam que, deixando-a vazia,
preservavam o lugar dele.
Mas o lugar de Anselmo nunca estivera naquela cadeira.
Estava nas histórias.
Nos gestos.
Nas frases que os filhos repetiam sem perceber.
Na maneira como Marcelo educava os próprios filhos.
No cuidado de Teresa.
Na teimosia de Eduardo.
No macarrão de Lídia.
No barulho da família reunida.
A cadeira podia ser ocupada.
O lugar dele, não.
Os almoços de domingo voltaram.
Nem sempre todos conseguiam comparecer.
Mas tentavam.
Com os anos, a família aumentou ainda mais.
Vieram outros netos.
Depois bisnetos.
A velha mesa precisou novamente das extensões.
Um dia, muitos anos depois, um dos bisnetos perguntou:
— Vó Lídia, quem sentava aqui antes da senhora?
Ela já tinha mais de oitenta anos.
Passou a mão sobre o braço marcado da cadeira.
— Seu bisavô.
— Ele era bravo?
Todos começaram a rir.
— Um pouco — respondeu ela.
— Eu queria ter conhecido ele.
Lídia olhou em volta.
Viu filhos, netos e bisnetos.
A mesa cheia.
— Você conhece.
O menino franziu a testa.
— Como?
Ela sorriu.
— Escuta as histórias.
Naquele domingo falaram novamente de Anselmo.
Cada pessoa lembrava de uma versão diferente dele.
Para uns, era pai.
Para outros, avô.
Para os menores, era apenas um homem das fotografias.
Mas, de alguma forma, continuava participando daqueles almoços.
Não porque sua cadeira permanecesse vazia.
Mas porque sua história continuava passando de uma pessoa para outra.
Talvez seja isso que aconteça quando alguém verdadeiramente faz parte de uma família.
Um dia sua voz deixa de ser ouvida.
Os passos desaparecem do corredor.
Os objetos mudam de lugar.
Outra pessoa ocupa a cadeira.
Mas certas ausências nunca se tornam completamente vazias.
Elas se transformam em lembranças.
E as lembranças passam a sentar conosco à mesa.
Todos os domingos.