Toda canção pode esconder uma história.
Primeiro, a história. Depois, a canção.
Família e Saudade

O Casaco de Couro

A história que poderia ter existido antes de uma canção

Quando Antônio decidiu vender a casa onde havia vivido durante cinquenta e quatro anos, os

filhos acreditaram que o mais difícil seria convencê-lo a se mudar.

Estavam enganados.

O mais difícil foi decidir o que fazer com as coisas.

Aos oitenta e dois anos, Antônio já não conseguia cuidar sozinho do pequeno sítio. A visão

estava pior, as pernas haviam perdido força e, depois de uma queda no terreiro, os três filhos

chegaram à conclusão de que ele precisava morar mais perto de alguém.

— Não vou para asilo — avisou Antônio.

— Ninguém falou em asilo, pai — respondeu Geraldo.

— Mas pensaram.

— O senhor vai morar comigo.

Antônio olhou para a nora.

— Ela sabe?

Marta começou a rir.

— Sei, seu Antônio.

— E concordou?

— Fui eu quem sugeriu.

Ele pensou alguns segundos.

— Então talvez dê certo.

A decisão estava tomada.

Faltava esvaziar a casa.

Era uma construção simples, levantada pelo próprio Antônio quando ainda era jovem. Tinha três

quartos, cozinha grande, varanda na frente e um depósito nos fundos onde se acumulavam

ferramentas que ninguém usava havia décadas.

Foi ali que os filhos encontraram o casaco.

Geraldo puxou uma caixa de cima de um armário.

— Pai, isso aqui vai fora?

Antônio aproximou-se.

Dentro havia arreios antigos, pedaços de corda, uma espora enferrujada e um casaco de couro

grosso, já ressecado pelo tempo.

Quando viu o casaco, Antônio mudou de expressão.

— Isso não.

Geraldo levantou a peça.

— O senhor ainda usa?

— Não.

— Então para que guardar?

Antônio pegou o casaco das mãos do filho.

— Era do meu pai.

Foi suficiente.

Geraldo colocou a caixa de lado.

Antônio levou o casaco para o quarto.

Naquela noite, ficou muito tempo olhando para ele.

O pai se chamava Joaquim.

Havia morrido havia mais de cinquenta anos.

Antônio percebeu que já era mais velho do que Joaquim jamais chegara a ser.

A lembrança o levou de volta à infância.

Naquele tempo, a família vivia numa propriedade pequena, muito mais distante da cidade do que

o sítio atual. Joaquim criava algumas cabeças de gado e plantava milho, feijão e mandioca.

Não havia dinheiro sobrando.

Às vezes também não havia dinheiro suficiente.

Antônio era o mais velho de cinco irmãos.

Desde menino acompanhava o pai na roça.

Joaquim falava pouco.

Era homem criado num tempo em que carinho parecia coisa que precisava ser escondida.

Nunca abraçava os filhos sem motivo.

Nunca dizia que sentia orgulho.

Nunca falava sobre sentimentos.

Mas acordava de madrugada para cobrir as crianças quando fazia frio.

Quando faltava comida, dizia que não estava com fome.

Quando algum filho adoecia, passava a noite acordado.

Antônio só entenderia essas coisas muitos anos depois.

Na infância, achava o pai severo.

Aos treze anos, aconteceu uma seca que a família jamais esqueceria.

O milho morreu.

O pasto desapareceu.

Algumas cabeças de gado precisaram ser vendidas por quase nada.

Joaquim começou a viajar para fazendas distantes em busca de trabalho.

Voltava aos sábados.

Certa noite chegou usando um casaco de couro.

Antônio ficou impressionado.

— É seu?

— Agora é.

— Comprou?

— Troquei por serviço.

O couro era pesado e tinha cheiro forte.

Para o menino, parecia uma peça de homem rico.

— Posso usar?

Joaquim riu.

— Vai carregar você.

Mesmo assim deixou o filho experimentar.

O casaco quase chegava aos pés.

Todos riram.

Anos depois, Antônio descobriria que Joaquim não recebera o casaco como pagamento.

Um fazendeiro o havia dado porque o vira trabalhando sob chuva e frio sem nenhuma proteção.

Joaquim nunca contou.

Aquele casaco acompanhou o pai durante anos.

Nas madrugadas frias.

Nas viagens a cavalo.

Na lida com o gado.

Nas noites em que precisava procurar algum animal perdido.

Até que o tempo melhorou.

Antônio cresceu.

Aos vinte anos decidiu sair de casa.

Queria trabalhar na cidade.

Quando contou ao pai, esperava resistência.

Joaquim apenas perguntou:

— Quando vai?

— Semana que vem.

— Já tem serviço?

— Um conhecido conseguiu numa oficina.

— E lugar para dormir?

— Tenho.

O pai assentiu.

— Então vá.

Antônio ficou decepcionado.

Esperava que Joaquim pedisse que ficasse.

Não pediu.

Na manhã da viagem, a mãe chorou.

Os irmãos abraçaram.

Joaquim ajudou a colocar a mala na carroceria do caminhão.

— Escreva para sua mãe.

— Escrevo.

— E não gaste tudo que ganhar.

— Tá.

O caminhão começou a andar.

Antônio olhou para trás.

O pai continuava parado na estrada.

Usava o velho casaco de couro.

Antônio levantou a mão.

Joaquim fez o mesmo.

Foi a despedida.

A vida na cidade não aconteceu como Antônio imaginava.

O trabalho era pesado.

O salário, pequeno.

Dormia num quarto dividido com outros três rapazes.

Nos primeiros meses pensou em voltar diversas vezes.

Não voltou por orgulho.

Mandava cartas para a mãe.

Quase nunca escrevia diretamente ao pai.

Até que, numa tarde, recebeu uma correspondência.

Reconheceu a letra da irmã.

A mãe estava doente.

Antônio conseguiu dois dias de folga e voltou.

Encontrou a casa ainda mais pobre do que lembrava.

A mãe se recuperava.

O pai parecia mais velho.

Naquela noite, os dois ficaram sozinhos na varanda.

— Está gostando da cidade? — Joaquim perguntou.

— Estou.

Era mentira.

— Está ganhando bem?

— Dá para viver.

Outra mentira.

Joaquim percebeu.

— Se quiser voltar, volte.

Antônio sentiu o orgulho ferido.

— Não quero.

— Então fique.

— O senhor quer que eu volte ou não?

Joaquim olhou para o filho.

— Quero que você tenha escolha.

Antônio nunca esqueceu aquela frase.

Voltou para a cidade.

Ficou.

Com o tempo, as coisas melhoraram.

Aprendeu o ofício de mecânico.

Começou a ganhar mais.

Conheceu Rosa.

Casou-se.

Quando o primeiro filho nasceu, Joaquim viajou para conhecê-lo.

Foi a primeira vez que Antônio viu o pai segurar um bebê com medo.

— Vai quebrar — disse Joaquim.

— Não vai.

— É muito pequeno.

— Eu também fui.

O pai olhou para ele.

— Você era mais feio.

Antônio riu.

Durante alguns anos, pai e filho se aproximaram.

Não através de grandes conversas.

Aproximaram-se trabalhando.

Joaquim ajudou Antônio a comprar o pequeno sítio.

Não com dinheiro, porque não tinha.

Ajudou levantando cerca.

Construindo curral.

Carregando madeira.

Foi também quem ajudou a construir a casa.

Certa tarde, enquanto assentavam tijolos, Antônio perguntou:

— O senhor acha que vai ficar boa?

Joaquim olhou para a construção.

— Casa fica boa quando tem gente dentro.

Antônio não entendeu completamente.

Entenderia depois.

Poucos anos mais tarde, Joaquim adoeceu.

Primeiro começou a perder peso.

Depois veio a fraqueza.

O diagnóstico demorou.

Quando finalmente descobriram a doença, havia pouco a fazer.

Antônio passou a visitá-lo quase todos os dias.

Numa dessas visitas, encontrou o pai sentado na varanda.

O casaco de couro estava dobrado ao lado.

— Leva isso — disse Joaquim.

— O quê?

— O casaco.

— Para quê?

— Para usar.

Antônio sorriu.

— O senhor sabe que não uso essas coisas.

— Então guarda.

— O senhor ainda vai usar.

Joaquim olhou para ele.

— Leva.

Antônio levou.

O pai morreu três meses depois.

Durante anos, o casaco ficou pendurado no depósito.

Antônio quase nunca o usou.

Mas jamais conseguiu se desfazer dele.

Agora, mais de meio século depois, estava novamente segurando a peça.

Na manhã seguinte, Geraldo encontrou o pai sentado na varanda com o casaco sobre as pernas.

— Dormiu bem?

— Mais ou menos.

O filho sentou-se.

— Está preocupado com a mudança?

Antônio passou a mão pelo couro envelhecido.

— Seu avô me deu isso pouco antes de morrer.

— Eu sei.

— Já contei?

— Umas cinquenta vezes.

Antônio sorriu.

— Velho repete história.

— O senhor ainda nem começou.

Ficaram em silêncio.

Depois Antônio perguntou:

— Tem certeza que sua casa tem espaço?

— Tem.

— Não quero atrapalhar.

— Não vai.

— Eu acordo cedo.

— Eu também.

— Vejo televisão alto.

— Compraremos fone.

Antônio riu.

Depois ficou sério.

— Não quero dar trabalho.

Geraldo percebeu algo que até então não havia percebido.

O pai estava com medo.

Não da mudança.

De depender dos outros.

— Pai, o senhor cuidou da gente a vida inteira.

— Era minha obrigação.

— E agora?

Antônio não respondeu.

— Agora deixa a gente cuidar um pouco.

O velho olhou para o filho.

— Não é a mesma coisa.

— Por quê?

— Filho não deve ter que cuidar do pai.

Geraldo ficou alguns segundos em silêncio.

— Quem decidiu isso?

— A vida.

— Então a vida decidiu errado.

Antônio sorriu discretamente.

Naquela tarde, continuaram separando as coisas.

Alguns móveis foram vendidos.

Outros, doados.

As ferramentas foram divididas entre filhos e netos.

Quando chegou a vez do casaco, Geraldo perguntou:

— Vai levar?

Antônio hesitou.

— Não sei.

— Se quiser, leva.

— Vai ocupar espaço.

— Pai, é um casaco.

Antônio passou a mão sobre o couro.

— Para você é um casaco.

Geraldo compreendeu.

Colocou-o cuidadosamente numa caixa.

Na semana seguinte, Antônio mudou-se.

Os primeiros dias foram difíceis.

A casa do filho tinha outros horários.

Outros ruídos.

Outras regras.

Antônio sentia que precisava pedir permissão para coisas que antes simplesmente fazia.

— Posso pegar café?

Marta olhou espantada.

— Seu Antônio, o senhor mora aqui.

— Eu sei.

— Então não precisa perguntar.

Mas ele perguntava.

Também tentava ajudar.

Lavava louça escondido.

Varria o quintal.

Consertava qualquer coisa que encontrasse.

Até objetos que não estavam quebrados.

Certa manhã, Geraldo encontrou o pai tentando arrumar a torneira.

— O que aconteceu?

— Está pingando.

— Não estava.

— Estava pensando em começar.

Aos poucos, encontraram um jeito de viver juntos.

Antônio ganhou uma poltrona perto da janela.

Marta descobriu que ele gostava de mamão no café da manhã.

Os netos começaram a aparecer com mais frequência.

O bisneto Pedro, de oito anos, tornou-se seu companheiro.

Queria ouvir histórias.

Principalmente as antigas.

— Conta do seu pai.

— De novo?

— De novo.

Antônio contava.

Falava da seca.

Dos cavalos.

Da roça.

Do caminhão que o levou para a cidade.

E do casaco.

Certa tarde, Pedro pediu para vestir.

Antônio abriu o armário.

O couro estava ainda mais duro.

Colocou sobre os ombros do menino.

O casaco quase o cobriu inteiro.

Antônio começou a rir.

De repente, lembrou-se.

Ele também tivera treze anos.

Também ficara pequeno dentro daquele casaco.

Por alguns segundos, não viu o bisneto.

Viu a si mesmo.

E atrás dele, Joaquim.

— Por que está chorando, vô?

Antônio passou a mão no rosto.

— Não estou.

— Está sim.

— Poeira.

Pedro olhou ao redor.

— Aqui não tem poeira.

— Criança pergunta demais.

O menino riu.

Depois quis saber:

— Quando você morrer, esse casaco vai ficar comigo?

Antônio ficou surpreso.

— Por que quer?

Pedro pensou.

— Porque era do seu pai. Depois foi seu. Aí pode ser meu.

Antônio sentou-se.

— Antes vai ser do seu avô.

— Por quê?

— Porque algumas coisas precisam seguir a ordem.

Naquela noite chamou Geraldo.

Entregou-lhe o casaco.

— Guarda.

— Por quê?

— Agora é seu.

Geraldo tentou recusar.

— Pai, fica com o senhor.

— Já fiquei tempo suficiente.

— Mas…

— Seu avô me deu quando percebeu que estava chegando a hora.

Geraldo ficou sério.

— Não fala assim.

Antônio sorriu.

— Engraçado.

— O quê?

— Falei a mesma coisa para ele.

Os dois permaneceram em silêncio.

— Não estou morrendo hoje — continuou Antônio. — Só quero entregar enquanto posso

explicar.

Geraldo segurou o casaco.

— Explicar o quê?

Antônio pensou um pouco.

— Que isso não vale dinheiro nenhum.

— Eu sei.

— Então vale muito.

Geraldo sorriu.

O pai continuou:

— Um dia você entrega para o Pedro. Mas conte primeiro de onde veio.

— Vou contar.

— História que ninguém conta morre junto com as coisas.

Geraldo guardou o casaco.

Antônio viveu ainda quatro anos.

Morreu numa madrugada de inverno, aos oitenta e seis, enquanto dormia.

Naquela manhã, Geraldo entrou no quarto.

A cama estava arrumada.

Os chinelos estavam ao lado.

Sobre a mesa havia os óculos e um copo pela metade.

Pequenas coisas.

Foi então que entendeu por que o pai guardara durante tantos anos um casaco que nunca usava.

Não era o couro.

Era Joaquim.

Era a infância.

Era a estrada.

Era a despedida.

Era tudo aquilo que já não existia, mas que aquele objeto ainda conseguia trazer de volta.

Anos depois, Pedro completou dezoito anos.

Geraldo chamou o rapaz.

Abriu o armário.

Retirou o velho casaco.

— Seu bisavô Joaquim ganhou isso quando trabalhava numa fazenda…

Pedro sorriu.

— Eu conheço a história.

— Conhece?

— O bisavô Antônio contou umas cinquenta vezes.

Geraldo riu.

— Velho repete história.

— Foi exatamente o que ele dizia.

Geraldo entregou o casaco.

Pedro vestiu.

Dessa vez serviu.

Ficou um pouco grande nos ombros, mas serviu.

Ele passou a mão pelo couro marcado pelo tempo.

— Eu não vou usar isso, vô.

— Eu sei.

— Então por que guardar?

Geraldo sorriu.

Já ouvira aquela pergunta.

— Um dia você vai entender.

O casaco atravessara quatro gerações.

Não porque fosse bonito.

Não porque tivesse valor.

Não porque ainda protegesse alguém do frio.

Continuava existindo porque algumas famílias guardam sua história em fotografias.

Outras, em cartas.

Algumas, em casas.

Aquela família guardava parte da sua num velho pedaço de couro.

E talvez os objetos mais preciosos sejam justamente aqueles que ninguém compraria.

Porque seu valor não está naquilo de que são feitos.

Está nas mãos que os tocaram.

Nas pessoas que partiram.

E nas histórias que ainda conseguem trazer de volta.