Quando Artur completou sessenta e cinco anos, ganhou dos filhos um relógio.
Era bonito, moderno e caro. Tinha tela digital, media os batimentos do coração, contava passos,
avisava quando ele estava sentado havia muito tempo e, segundo o vendedor, era capaz até de
analisar seu sono.
Artur colocou o presente no pulso, agradeceu e passou alguns minutos ouvindo o filho explicar
como funcionava.
— Aqui mostra quantos quilômetros o senhor andou. Aqui mede o coração. Aqui chegam as
mensagens.
Artur olhou para a tela.
— E as horas?
— Também.
— Então já ajuda.
Todos riram.
Naquela noite, depois que os filhos foram embora, ele retirou o relógio e colocou sobre a
cômoda.
Ao lado havia outro.
Pequeno, de ponteiros, pulseira de couro gasta e vidro riscado.
Estava parado havia muitos anos.
Pertencera ao pai.
Artur pegou o relógio antigo.
Virou-o.
No verso ainda era possível ler duas letras gravadas à mão:
J.A.
José Alves.
Seu pai.
Artur ficou algum tempo segurando os dois relógios.
Um sabia contar praticamente tudo.
O outro nem as horas marcava mais.
Ainda assim, foi o velho que colocou no pulso.
Na manhã seguinte decidiu voltar à fazenda onde havia crescido.
Não ia até lá havia quase vinte anos.
A propriedade já não pertencia à família. Depois da morte dos pais, Artur e os irmãos a
venderam. Na época pareceu a decisão mais sensata. Nenhum deles morava ali, ninguém queria
continuar trabalhando na terra e os custos só aumentavam.
Artur não sentira tristeza quando assinara os documentos.
Pelo menos foi o que pensou.
Agora, tantos anos depois, sentia vontade de ver aquele lugar mais uma vez.
Pegou o carro e partiu.
A estrada era diferente.
Onde antes havia trechos de terra, agora existia asfalto. Pequenos comércios haviam surgido.
Algumas casas desapareceram. A velha ponte de madeira fora substituída por concreto.
Mas as montanhas continuavam praticamente iguais.
Artur dirigia devagar.
Quando criança, achava aquela estrada interminável.
Seu pai fazia o mesmo percurso numa carroça.
Levava quase metade do dia.
— Como o senhor aguenta andar tão devagar? — Artur perguntara certa vez.
José segurava as rédeas.
— Devagar comparado com quê?
— Com carro.
— Não estou num carro.
O menino achou a resposta absurda.
— Quando eu crescer, vou comprar um.
— Compre.
— Vou chegar na cidade em uma hora.
— Então vai sobrar tempo.
— Para quê?
José sorriu.
— Quando chegar lá, você descobre.
Artur tinha oito anos.
Não entendeu.
Passaria boa parte da vida tentando fazer o tempo sobrar.
Chegou à antiga fazenda pouco antes do meio-dia.
Parou diante da porteira.
A casa continuava de pé, embora estivesse diferente. Tinha sido pintada. O curral fora
reformado. Havia um galpão novo.
Artur hesitou antes de entrar.
Um homem de aproximadamente quarenta anos apareceu.
— Posso ajudar?
— Meu nome é Artur. Eu cresci aqui.
O homem sorriu.
— O senhor é filho do seu José?
Artur se surpreendeu.
— Conheceu meu pai?
— Não. Meu pai conheceu. Sou Ricardo.
Era filho do homem que comprara a propriedade.
Ricardo abriu a porteira.
— Entre. Meu pai sempre falava da família de vocês.
Artur caminhou devagar.
Cada canto parecia despertar alguma coisa.
Ali ficava o galinheiro.
Mais adiante havia uma mangueira.
Perto do riacho ainda existia uma grande pedra onde ele e os irmãos pescavam.
— Posso andar um pouco? — perguntou.
— Fique à vontade.
Artur seguiu sozinho.
Parou diante da mangueira.
Era enorme.
Quando criança, subia nela escondido da mãe.
Uma vez caiu.
Quebrou o braço.
O pai o levou à cidade.
No caminho, Artur chorava.
— Vai doer para sempre?
— Não.
— Como sabe?
— Porque quase nada dói para sempre.
— E se doer?
José pensou.
— A gente aprende a carregar.
Artur lembrou da frase.
Na época parecera apenas uma tentativa de acalmar uma criança.
Agora sabia que o pai estava falando de muito mais coisas.
Continuou caminhando.
A cada lugar, uma lembrança.
A pequena represa.
O pasto.
A estrada atrás do morro.
A casa.
Sua infância não havia sido fácil.
Mas a memória, com o tempo, aprendera a guardar melhor os dias bons.
José acordava os filhos cedo.
Às cinco e meia, já estava de pé.
— O sol não espera ninguém.
Artur odiava aquela frase.
Aos quinze anos começou a questionar tudo.
— Não quero passar minha vida aqui.
José continuou consertando uma cerca.
— Então não passe.
Artur esperava discussão.
— O senhor não liga?
— Claro que ligo.
— Então por que não fala nada?
José colocou o alicate no bolso.
— Porque sua vida é sua.
— Quero estudar.
— Estude.
— Quero morar na cidade.
— More.
Artur ficou desconfiado.
— É só isso?
O pai olhou para ele.
— Você queria que eu proibisse?
— Não.
— Então pronto.
José voltou à cerca.
Depois acrescentou:
— Só não ache que cidade grande faz homem grande.
Artur revirou os olhos.
Era jovem demais para gostar de frases de pai.
Aos dezoito anos foi embora.
Estudou Engenharia.
Trabalhou.
Cresceu na empresa.
Casou-se com Teresa.
Vieram dois filhos.
Comprou apartamento.
Depois uma casa maior.
Depois outro carro.
Foi promovido.
Depois promovido novamente.
Durante quase quarenta anos, Artur viveu com a impressão de que estava atrasado para alguma
coisa.
Saía cedo.
Almoçava olhando o relógio.
Atendia telefone durante o jantar.
Levava trabalho para casa.
Quando os filhos eram pequenos, dizia:
— No fim de semana a gente faz.
No fim de semana surgia outro compromisso.
Quando Teresa reclamava, respondia:
— É só essa fase.
A fase durou vinte anos.
Seu pai observava de longe.
José e dona Margarida visitavam a família algumas vezes por ano.
Numa dessas visitas, encontrou Artur trabalhando num domingo.
— Você ainda está naquele emprego?
Artur riu.
— Estou.
— Achei que já tinha terminado.
— Terminado o quê?
— O trabalho.
— Trabalho não termina, pai.
José olhou para ele.
— Então você arrumou um serviço ruim.
Artur perdeu a paciência.
— O senhor não entende. Tenho responsabilidade.
José não discutiu.
Foi para o quintal brincar com os netos.
Anos depois, Artur se lembraria daquela cena.
O pai sentado no chão.
Os dois meninos ao redor.
E ele atrás de uma janela, falando ao telefone.
José morreu aos setenta e nove anos.
Foi rápido.
Um infarto enquanto cuidava da horta.
Artur chegou à fazenda naquela mesma noite.
Encontrou a mãe sentada na cozinha.
Abraçou-a.
— Ele falou alguma coisa?
Margarida pensou.
— De manhã?
— Antes de morrer.
— Não.
Artur não sabia por que aquilo o decepcionava.
Talvez esperasse alguma última frase.
Um conselho.
Uma despedida.
Mas José simplesmente saíra para cuidar da horta e não voltara.
No velório, muitas pessoas contaram histórias sobre ele.
Um vizinho disse:
— Seu pai me ajudou quando perdi minha plantação.
Outro:
— Foi ele quem me ensinou a trabalhar com gado.
Outro contou que José emprestara dinheiro e nunca cobrara juros.
Artur percebeu que havia partes do pai que desconhecia.
Depois do enterro, entrou no quarto dos pais.
Sobre a cômoda estava o relógio.
Pegou.
Margarida apareceu na porta.
— Pode levar.
— Era dele.
— Por isso mesmo.
Artur guardou.
Poucos meses depois voltou à rotina.
O relógio ficou numa gaveta.
Os anos continuaram passando.
Teresa foi quem primeiro percebeu.
— Você está ficando igual ao seu pai.
Artur quase se ofendeu.
— Em quê?
— Fica olhando as coisas em silêncio.
— Isso é ficar velho.
— Talvez.
Ela sorriu.
— Também está mais paciente.
— Não exagera.
Mas era verdade.
Quando os filhos cresceram, Artur começou a sentir falta de coisas que, enquanto aconteciam,
parecera não ter tempo para perceber.
O barulho deles chegando da escola.
Os brinquedos pela casa.
Os pedidos para brincar.
Até as discussões.
Certa vez perguntou ao filho mais velho:
— Você acha que trabalhei demais quando vocês eram pequenos?
O filho pensou.
— Trabalhou.
A resposta doeu.
— Eu fazia por vocês.
— Eu sei, pai.
— Nunca faltou nada.
— Eu sei.
Artur ficou em silêncio.
O filho tocou seu braço.
— Não estou reclamando.
Mas Artur estava.
De si mesmo.
A aposentadoria chegou aos sessenta e três anos.
Nos primeiros meses foi terrível.
Acordava cedo e não sabia o que fazer.
Tentou continuar prestando consultoria.
Teresa protestou.
— Você não se aposentou para continuar trabalhando.
— E vou fazer o quê?
— Descobrir.
Artur lembrou imediatamente do pai.
“Então vai sobrar tempo.”
“Para quê?”
“Quando chegar lá, você descobre.”
Demorara cinquenta anos.
Mas finalmente o tempo havia sobrado.
No começo não soube usá-lo.
Depois começou a caminhar.
Aprendeu a cozinhar algumas coisas.
Passou a buscar a neta na escola duas vezes por semana.
Plantou tomates no quintal.
Os primeiros morreram.
Artur ficou indignado.
Teresa achou graça.
— Engenheiro não consegue plantar tomate.
— O solo está errado.
— Claro. A culpa é do solo.
Tentou novamente.
Dessa vez funcionou.
E, sem perceber, começou a viver mais devagar.
Agora, caminhando pela antiga fazenda, entendia muitas coisas que antes lhe pareciam pequenas
demais.
Chegou ao riacho.
Sentou-se na mesma pedra da infância.
Ricardo apareceu algum tempo depois.
— Encontrei isso no galpão.
Carregava uma velha enxada.
— Meu pai dizia que era do seu José.
Artur reconheceu.
O cabo tinha uma pequena marca perto da ponta.
— Era dele.
— Quer levar?
Artur segurou a ferramenta.
Pensou.
Depois devolveu.
— Não.
Ricardo pareceu surpreso.
— Tem certeza?
— Tenho.
Olhou para o campo.
— As coisas não precisam ir comigo para eu lembrar.
Ricardo assentiu.
Antes de partir, Artur perguntou:
— Posso voltar algum dia?
— Quando quiser.
Artur dirigiu de volta sem pressa.
No caminho parou num pequeno restaurante de estrada.
Normalmente teria pedido alguma coisa rápida.
Naquele dia sentou-se numa mesa perto da janela.
Pediu almoço.
Comeu devagar.
Observou caminhões passando.
Depois tomou café.
Sem olhar o telefone.
Chegou em casa no começo da noite.
Teresa estava na varanda.
— Onde estava?
— Fui à fazenda.
Ela se surpreendeu.
— Sozinho?
— Fui.
— E como foi?
Artur sentou-se ao lado dela.
— Menor do que eu lembrava.
— A casa?
— Tudo.
Ficaram olhando o fim da tarde.
Depois Teresa percebeu o relógio antigo no pulso dele.
— Isso funciona?
— Não.
— Então por que está usando?
Artur olhou.
Os ponteiros estavam parados às quatro e dezessete.
— Talvez para lembrar que nem tudo precisa marcar o tempo.
Teresa sorriu.
— Agora ficou filósofo.
— É a idade.
Nos anos seguintes, Artur passou a fazer coisas que antes consideraria perda de tempo.
Levava a neta ao parque.
Conversava com vizinhos.
Sentava-se na varanda.
Visitava os irmãos.
Plantava.
Cozinhava.
Viajou com Teresa sem roteiro apertado.
Às vezes simplesmente pegavam uma estrada.
Certa tarde, sua neta Clara, de nove anos, perguntou:
— Vô, o senhor não fica entediado?
— Às vezes.
— E o que faz?
— Espero passar.
Ela pensou.
— Minha mãe fala que a gente tem que aproveitar cada minuto.
Artur sorriu.
— Sua mãe fala muita coisa.
— Não é verdade?
Ele olhou para a menina.
— Não precisa aproveitar cada minuto.
— Não?
— Alguns minutos a gente só vive.
Clara pareceu confusa.
— Qual a diferença?
Artur pensou no pai.
Pensou na carroça.
Na fazenda.
Nos filhos pequenos.
No trabalho.
Nos anos que correram.
Naqueles que ainda restavam.
— Um dia você descobre.
Clara revirou os olhos.
Artur começou a rir.
Era exatamente o que ele teria feito naquela idade.
Naquela noite, retirou o relógio moderno da cômoda.
Colocou-o no pulso.
A tela acendeu.
Mostrou a hora, os passos, o coração e uma série de informações que Artur não entendeu.
No outro pulso colocou o relógio do pai.
Teresa olhou.
— Vai usar dois?
— Um me diz que horas são.
— E o outro?
Artur passou o dedo pelo vidro riscado.
— Me lembra que elas passam.
Saíram para caminhar.
Não foram longe.
Também não tinham destino.
Artur percebeu que durante grande parte da vida acreditara que viver significava chegar a algum
lugar.
Formar-se.
Trabalhar.
Comprar.
Criar os filhos.
Ter segurança.
Aposentar-se.
Sempre havia alguma coisa depois.
Seu pai, que tivera muito menos oportunidades, parecia ter compreendido algo que ele demorara
décadas para aprender.
A vida não acontece depois que terminamos nossas obrigações.
Ela acontece enquanto estamos tentando terminá-las.
Acontece na estrada.
Na espera.
No medo.
Nos erros.
Nas despedidas.
Nas pessoas que encontramos.
Nas coisas que perdemos.
Nos dias bons e também naqueles que preferiríamos esquecer.
Algumas experiências nos fazem rir.
Outras nos fazem chorar.
E quase todas, se lhes dermos tempo suficiente, acabam nos ensinando alguma coisa.
Artur apertou a mão de Teresa.
Continuaram caminhando.
Devagar.
Sem preocupação em chegar.
Porque, depois de tantos anos correndo, ele finalmente havia aprendido aquilo que seu pai tentara
ensinar desde o começo:
há momentos em que é preciso seguir.
Há momentos em que é preciso parar.
Há coisas que só entendemos depois de perder.
E outras que só aprendemos vivendo.
No fim, talvez amadurecer seja simplesmente isso:
continuar caminhando, mesmo sabendo que não controlamos a estrada.
E compreender que não há vergonha nenhuma em ir mais devagar.