Durante trinta e oito anos, Sebastião voltou para casa guiado por uma luz.
Não importava se chegasse às seis da tarde ou às três da madrugada. Quando dobrava a última
curva da estrada e avistava sua casa, havia sempre uma lâmpada acesa na varanda.
Era uma lâmpada pequena, amarelada.
Para qualquer pessoa, não significava nada.
Para Sebastião, significava que alguém estava esperando.
Aos sessenta e quatro anos, naquela que deveria ser sua última viagem como caminhoneiro, ele
saiu de Curitiba levando uma carga de peças agrícolas para Goiânia.
Depois disso, aposentadoria.
Pelo menos era o que prometera à mulher.
— Desta vez é verdade? — perguntou Laura enquanto colocava roupas na pequena mala.
— Verdade.
— Você falou isso no ano passado.
— Ano passado eu estava ensaiando.
Ela riu.
Estavam casados havia quarenta anos.
Laura conhecia o marido o suficiente para saber que a estrada não seria fácil de abandonar.
Sebastião também sabia.
Só não admitia.
Na manhã da partida, conferiu os pneus, o óleo, os documentos e a carga.
Laura apareceu carregando uma sacola.
— O que tem aí?
— Comida.
— Vou passar três dias fora, não três meses.
— Você reclama, mas leva.
Ele pegou a sacola.
— Tem bolo?
— Tem.
— Então pode colocar.
Laura sorriu.
Sebastião subiu na cabine.
Antes de ligar o motor, olhou para ela.
— Domingo estou de volta.
— Não corra.
— Nunca corro.
Laura levantou uma sobrancelha.
— Sebastião.
— Está bem. Vou devagar.
— E liga.
— Ligo.
Ela fechou a porta do caminhão.
Sebastião deu partida.
O motor pesado ganhou vida.
Era um som que conhecia melhor do que muitas vozes.
Saiu.
Laura ficou diante da casa até o caminhão desaparecer.
Sebastião não sonhara em ser caminhoneiro.
Quando criança, queria ser mecânico.
Depois quis ter uma loja.
Por algum tempo, pensou em trabalhar com o pai na pequena propriedade da família.
A vida decidiu antes.
Aos vinte e dois anos, conseguiu emprego como ajudante de motorista.
A primeira viagem foi de Ponta Grossa até São Paulo.
Voltou fascinado.
Contou à mãe sobre as cidades, os restaurantes de estrada, os caminhões enormes e as serras.
— Parece que conheceu outro país — ela disse.
Para ele, quase tinha.
Dois anos depois comprou, financiado, seu primeiro caminhão.
Velho.
Barulhento.
Dava mais problema do que lucro.
Foi nesse período que conheceu Laura.
Ela trabalhava numa farmácia.
Sebastião aparecia sempre que estava na cidade.
Comprava qualquer coisa.
Pasta de dente.
Sabonete.
Algodão.
Uma vez comprou três termômetros em duas semanas.
Laura percebeu.
— Você está muito doente ou muito interessado em alguém daqui.
Sebastião ficou vermelho.
— Termômetro é bom ter.
— Três?
Começaram a namorar.
Quando pediu Laura em casamento, foi sincero:
— Vou passar muito tempo fora.
Ela respondeu:
— Desde que saiba onde é sua casa.
Sebastião achou bonita a frase.
Só muitos anos depois entenderia o tamanho dela.
Casaram-se numa manhã de sábado.
Na segunda-feira, Sebastião viajou.
Laura ficou furiosa.
— Você não podia recusar uma carga?
— Estamos devendo o caminhão.
— Casamos anteontem.
— Eu volto quinta.
Voltou sexta.
Com flores compradas num posto de gasolina.
— Isso resolve?
— Não.
— Posso entrar?
Laura tentou continuar séria.
Não conseguiu.
Foi a primeira de milhares de chegadas.
Vieram os filhos.
Primeiro André.
Depois Juliana.
Sebastião conheceu os dois com alguns dias de atraso.
Quando André nasceu, ele estava no interior de São Paulo.
Não havia telefone celular.
Laura deixou recado num posto onde sabia que o marido costumava parar.
O frentista avisou.
— Sua mulher teve o menino.
Sebastião quase abandonou a carga.
Chegou dois dias depois.
Entrou em casa ainda com cheiro de diesel e estrada.
Laura estava na cama.
— Quer conhecer seu filho?
Sebastião lavou as mãos três vezes antes de pegar o bebê.
— Ele é pequeno.
— Normalmente nascem assim.
Sebastião segurou André como se carregasse algo feito de vidro.
Chorou.
Negou durante anos.
— Entrou alguma coisa no meu olho.
— Dentro do quarto? — Laura perguntava.
— Poeira de estrada.
Quando Juliana nasceu, aconteceu novamente.
Sebastião estava longe.
Dessa vez chegou no dia seguinte.
Durante muito tempo, carregou a culpa de sempre estar chegando depois.
A estrada sustentou a família.
Pagou a casa.
A escola dos filhos.
A faculdade.
Os médicos.
As férias que Sebastião raramente conseguia acompanhar.
Mas a estrada também cobrou.
Ele perdeu apresentações da escola.
Aniversários.
Um Natal.
O primeiro gol de André num campeonato.
A formatura de Juliana no ensino médio.
Sempre havia uma explicação.
Carga atrasada.
Caminhão quebrado.
Rodovia interditada.
Cliente esperando.
— Na próxima eu estou — prometia.
Às vezes estava.
Muitas vezes não.
Laura nunca pediu que abandonasse o trabalho.
Mas, certa noite, perguntou:
— Você sabe qual é a matéria preferida da Juliana?
Sebastião tentou lembrar.
— Matemática?
— História.
— Eu sabia.
— Não sabia.
— Ela mudou.
Laura não discutiu.
Aquilo foi pior.
Na viagem seguinte, Sebastião passou horas pensando na pergunta.
Quando voltou, trouxe um livro de história para a filha.
Juliana agradeceu.
— Por que me deu isso?
— Porque você gosta.
Ela sorriu.
— Gosto.
Para Sebastião, aquilo pareceu uma pequena vitória.
Os filhos cresceram.
André tornou-se veterinário e mudou-se para Londrina.
Juliana estudou enfermagem e permaneceu perto dos pais.
A casa ficou silenciosa.
Sebastião continuou viajando.
Agora havia celular.
Laura acompanhava tudo.
— Onde está?
— Registro.
— Chovendo?
— Muito.
— Então para.
— Vou andar mais um pouco.
— Sebastião.
— Está bem.
Quase nunca estava bem.
Continuava.
Havia algo na estrada que o empurrava.
Talvez hábito.
Talvez orgulho.
Talvez a sensação de que, enquanto dirigisse, ainda era necessário.
Com cinquenta e oito anos começou a falar em aposentadoria.
Aos sessenta também.
Aos sessenta e dois.
Laura já não acreditava.
Até que aconteceu o acidente.
Não foi grave.
Sebastião trafegava de madrugada quando um carro entrou repentinamente na pista.
Desviou.
O caminhão saiu para o acostamento.
Conseguiu controlar.
Nada tombou.
Ninguém se feriu.
Mas, quando finalmente parou, suas mãos tremiam.
Ficou sentado na cabine durante quase meia hora.
Pensou em Laura.
Pensou nos filhos.
Pensou em quantas vezes ouvira:
“Não corra.”
“Pare se estiver cansado.”
“Não precisa chegar hoje.”
Naquela madrugada, pela primeira vez, percebeu que talvez não houvesse sempre uma próxima
viagem.
Quando chegou em casa, Laura estranhou.
— O que aconteceu?
— Nada.
Ela olhou para ele.
— Sebastião.
Ele sentou-se.
Contou.
Laura ouviu em silêncio.
Depois perguntou:
— Você está bem?
— Estou.
Ela o abraçou.
Não brigou.
Sebastião preferia que tivesse brigado.
Foi então que decidiu.
Mais dois anos.
Organizaria as contas.
Terminaria de pagar algumas coisas.
Depois pararia.
Laura não acreditou.
Mas marcou mentalmente a data.
E agora, aos sessenta e quatro, aquela viagem para Goiânia seria realmente a última.
Sebastião percorreu os primeiros quilômetros sentindo uma estranha alegria.
Cumprimentou caminhoneiros.
Parou no restaurante onde comia havia décadas.
O proprietário, seu conhecido, perguntou:
— Voltando quando?
— Domingo.
— Depois pega qual rota?
— Nenhuma.
O homem riu.
— Conta outra.
— Estou aposentando.
— Você?
— Eu.
— Em um mês está de volta.
Sebastião apontou.
— Quer apostar?
Apostaram um almoço.
Sebastião seguiu.
Na segunda noite, parou num posto.
Ligou para Laura.
— Onde está?
— Perto de Uberlândia.
— Tudo certo?
— Tudo.
— Comeu?
— Comi.
— O quê?
— Comida.
— Muito esclarecedor.
Sebastião riu.
— E aí?
— Tudo tranquilo.
— A luz está acesa?
Laura ficou em silêncio por um instante.
— Da varanda?
— É.
— Está.
— Por quê? Ainda são nove horas.
— Costume.
Sebastião sorriu.
Desde o início do casamento, Laura deixava a luz acesa quando ele estava viajando.
No começo dizia que era para enxergar a fechadura quando chegasse.
Depois vieram luminárias melhores.
Iluminação da rua.
Controle remoto do portão.
A lâmpada deixou de ser necessária.
Mas continuou acesa.
— Um dia essa lâmpada vai queimar de tanto esperar — Sebastião brincava.
Laura respondia:
— Então você volta antes.
Na manhã seguinte, enquanto seguia pela BR, encontrou um caminhão parado no acostamento.
Um rapaz fazia sinal.
Sebastião parou.
— Problema?
— Mangueira estourou.
O motorista não devia ter mais de vinte e cinco anos.
Chamava-se Mateus.
Estava na profissão havia poucos meses.
Sebastião ajudou.
Improvisaram um reparo suficiente para chegar a uma oficina.
Enquanto trabalhavam, conversaram.
— Primeira viagem longa sozinho — contou Mateus.
— Está gostando?
— Demais.
Sebastião sorriu.
Reconheceu aquele entusiasmo.
Era o mesmo que sentira quarenta anos antes.
— Casado?
— Vou casar ano que vem.
— Ela gosta da profissão?
Mateus riu.
— Não muito.
Sebastião apertou a conexão da mangueira.
— Então aprenda uma coisa.
— O quê?
Ele pensou.
— Chegar também faz parte do trabalho.
Mateus pareceu não entender.
— Como assim?
— Você vai descobrir.
Sebastião entregou a carga em Goiânia.
Assinou os documentos.
Olhou para o caminhão vazio.
Durante décadas, aquele momento significava apenas procurar a próxima carga.
Dessa vez não havia próxima.
Sentiu um aperto.
Ligou para Laura.
— Terminei.
— Que horas volta?
— Talvez amanhã à noite.
— Não tenha pressa.
Sebastião ficou em silêncio.
— Laura.
— Oi.
— Obrigado.
— Pelo quê?
Ele não sabia explicar.
— Depois falo.
Desligou.
Na viagem de volta, fez algo que raramente fazia.
Parou sem necessidade.
Viu uma placa indicando um mirante.
Entrou.
Desceu do caminhão.
Ficou olhando a paisagem.
Durante quase quarenta anos atravessara milhares de quilômetros preocupado em chegar.
Naquele momento percebeu quantas coisas havia apenas atravessado.
Cidades.
Rios.
Montanhas.
Manhãs.
Entardeceres.
A vida inteira parecia feita de lugares vistos através de um para-brisa.
Sentou-se numa pedra.
Tomou café da garrafa térmica.
Não havia cliente esperando.
Não havia horário de descarga.
Não havia próxima carga.
Pela primeira vez, a estrada não era uma obrigação.
Era apenas uma estrada.
Naquela noite dormiu cedo.
Na manhã seguinte ligou para o filho.
— André?
— Pai? Aconteceu alguma coisa?
— Por que sempre acham que aconteceu alguma coisa quando eu ligo?
— Porque o senhor nunca liga.
Sebastião riu.
— Estou voltando da última viagem.
— Última mesmo?
— Última.
— A mãe sabe?
— Foi ela quem mandou.
Conversaram por quase vinte minutos.
Depois telefonou para Juliana.
Falou com os netos.
Dirigiu devagar.
Não ultrapassou quando não precisava.
Parou para almoçar.
Dormiu quando sentiu sono.
Chegaria um dia mais tarde.
Pela primeira vez, não se importava.
Já era noite quando entrou na estrada de casa.
Sebastião reconheceu cada curva.
Seu coração começou a bater diferente.
Dobrou a última.
Ao longe, viu a casa.
E a luz.
Pequena.
Amarelada.
Acesa na varanda.
Sebastião diminuiu ainda mais a velocidade.
Não queria que aquele instante passasse depressa.
Estacionou o caminhão.
Desligou o motor.
O silêncio pareceu enorme.
Laura abriu a porta.
Ficou na varanda.
— Demorou.
Sebastião desceu.
— Vim devagar.
— Ainda bem.
Ela percebeu que ele olhava para a lâmpada.
— Que foi?
— Nada.
Subiu os degraus.
Abraçou a mulher.
Ficaram assim durante algum tempo.
— Agora acabou? — Laura perguntou.
— Acabou.
— Promete?
Sebastião olhou para o caminhão.
Depois para a casa.
— Prometo.
Laura sorriu.
— Então entra. A comida está esquentando.
Ele deu dois passos.
Parou.
— Laura.
— O quê?
— Pode apagar a luz.
Ela olhou para a lâmpada.
Entendeu.
Apagou.
Os primeiros meses da aposentadoria foram difíceis.
Sebastião acordava antes das cinco.
Às vezes entrava na garagem apenas para olhar o caminhão.
Sentia falta do rádio.
Dos postos.
Das conversas.
Até do barulho do motor.
Mas começou a descobrir outras coisas.
Levava o neto à escola.
Fazia compras com Laura.
Visitava André sem precisar consultar calendário de cargas.
Aprendeu a almoçar sem olhar o relógio.
Aos domingos, sentava-se na varanda.
De vez em quando algum caminhão passava na rodovia distante.
Sebastião acompanhava o som até desaparecer.
Laura perguntava:
— Saudade?
— Um pouco.
— Quer voltar?
Ele pensava.
— Não.
Era verdade.
Sentia saudade da estrada.
Mas não precisava voltar para ela.
Um ano depois, Mateus apareceu.
O jovem caminhoneiro que Sebastião ajudara no acostamento.
Estava passando pela região e encontrou seu endereço por conhecidos.
Trouxe a esposa.
— Casei.
— Parabéns.
Tomaram café na varanda.
Mateus contou sobre viagens.
Reclamou dos prazos.
Das noites mal dormidas.
Sebastião escutou.
Antes de partir, o rapaz disse:
— Lembra do que falou naquele dia?
— Falo muita bobagem.
— Que chegar também fazia parte do trabalho.
Sebastião sorriu.
— Lembro.
Mateus olhou para a esposa.
— Acho que estou começando a entender.
Depois foram embora.
Sebastião permaneceu na varanda.
Laura sentou-se ao lado.
O sol desaparecia atrás das árvores.
Nenhuma luz estava acesa.
Ainda não precisava.
Sebastião pensou em todas as estradas que percorrera.
Nos quilômetros.
Nas noites sozinho.
Nos filhos crescendo enquanto estava longe.
Nos aniversários perdidos.
Nas contas pagas.
Nas cargas entregues.
Nos lugares conhecidos.
Nas pessoas encontradas.
Não se arrependia.
A estrada lhe dera muito.
Mas também lhe ensinara algo que só conseguiu compreender quando finalmente parou.
Viajar nunca tinha sido apenas sair.
O sentido de cada partida estava também na possibilidade de voltar.
Talvez por isso, durante quase quarenta anos, aquela pequena luz tivesse sido tão importante.
Ela não iluminava a estrada.
Não indicava curvas.
Não mostrava atalhos.
Apenas dizia que, depois de tantos quilômetros, existia um lugar onde sua ausência era
percebida.
Uma casa.
Uma mulher.
Uma família.
Alguém esperando.
Sebastião segurou a mão de Laura.
E compreendeu que passara a vida acreditando que conhecia todas as estradas.
Mas a mais importante de todas era justamente aquela que, viagem após viagem, sempre o
levava de volta para casa.
E NCONTROS E DESPEDIDAS