Toda canção pode esconder uma história.
Primeiro, a história. Depois, a canção.
Histórias do Brasil

A Casa que Não Tinha Escritura

A história que poderia ter existido antes de uma canção

Quando Antero voltou àquela rua, quase sessenta anos depois, não reconheceu nada.

Onde antes havia casas baixas, terrenos baldios e pequenas oficinas, agora existiam prédios.

A rua estava asfaltada.

Havia farmácia, mercado, agência bancária e uma cafeteria com mesas na calçada.

Antero caminhou devagar.

Tinha oitenta e quatro anos e usava uma bengala que detestava.

Parou diante de um edifício de quinze andares.

Olhou para cima.

Depois para os lados.

Conferiu novamente o endereço escrito num pedaço de papel.

Era ali.

Tinha certeza.

Uma mulher saiu do prédio carregando um cachorro pequeno.

Antero perguntou:

— A senhora sabe o que tinha aqui antes?

Ela pensou.

— Antes do prédio?

— Muito antes.

— Não faço ideia.

A mulher sorriu e continuou caminhando.

Antero ficou sozinho diante do edifício.

Apoiou as duas mãos na bengala.

Naquele lugar existira uma casa.

Talvez fosse exagero chamar aquilo de casa.

Não tinha porta direito.

Duas janelas estavam quebradas.

O telhado deixava entrar chuva.

Nenhum deles era proprietário.

Nenhum pagava aluguel.

Nenhum tinha escritura.

Mesmo assim, durante alguns anos, aquele havia sido o melhor endereço que Antero tivera na

vida.

Ele chegou a São Paulo em 1958.

Tinha dezesseis anos.

Veio do interior de Minas Gerais num caminhão que transportava sacos de café.

Trazia uma mala pequena, duas camisas e o endereço de um primo.

Quando chegou ao endereço, descobriu que o primo havia se mudado.

Ninguém sabia para onde.

Antero passou a primeira noite numa pensão.

Na segunda também.

Na terceira percebeu que seu dinheiro acabaria antes de encontrar trabalho.

Dormiu numa estação.

Depois conseguiu emprego como ajudante numa pequena metalúrgica.

O salário permitia comer.

Não permitia muita coisa além disso.

Foi na fábrica que conheceu Geraldo.

— Está morando onde? — perguntou Geraldo.

— Por aí.

— Por aí onde?

— Onde dá.

Geraldo compreendeu.

— Tem um lugar.

— Pensão?

— Melhor.

Não era.

A construção ficava no final de uma rua ainda sem calçamento.

Provavelmente começara a ser erguida anos antes e fora abandonada.

Tinha dois cômodos, uma cozinha improvisada e um pequeno quintal.

Parte do reboco nunca fora feita.

No fundo crescia um pé de mamão.

— É aqui? — perguntou Antero.

— É.

— De quem?

Geraldo deu de ombros.

— De ninguém.

— Alguma coisa sempre é de alguém.

— Então é de alguém que não aparece.

Dentro estava Joaquim.

Magro, cabelo comprido, sentado numa caixa de madeira.

— Trouxe visita? — perguntou.

— Novo morador.

Joaquim olhou para Antero.

— Sabe cozinhar?

— Mais ou menos.

— Então já serve.

Foi assim que Antero se mudou.

Sem contrato.

Sem chave.

Sem endereço escrito em documento algum.

Os três transformaram o lugar.

Geraldo trabalhava numa marcenaria e conseguiu algumas tábuas.

Fez uma porta.

Joaquim trabalhava em obras e trouxe sobras de material.

Taparam os buracos maiores.

Antero encontrou duas janelas usadas.

Colocaram cortinas feitas com tecido comprado barato numa feira.

Cada um tinha um colchão.

A mesa era uma porta velha apoiada sobre duas caixas.

As cadeiras não combinavam.

Nenhuma havia sido comprada.

— Isso aqui está ficando chique — dizia Joaquim.

— Daqui a pouco aparece dono — respondia Geraldo.

Riam.

À noite, cozinhavam juntos.

Feijão quase sempre.

Arroz.

O que houvesse.

Aos domingos, quando sobrava dinheiro, compravam carne.

Geraldo tinha um rádio.

Era o objeto mais valioso da casa.

Ficava sobre uma prateleira.

À noite ouviam música.

Algumas vezes dançavam.

Principalmente Joaquim, que dizia saber todos os passos conhecidos.

Não sabia.

Antero começou a chamar o lugar de casa sem perceber.

Na fábrica, alguém perguntava:

— Vai para onde?

— Para casa.

Na primeira vez que falou, estranhou.

Depois deixou de estranhar.

Ali recebeu a primeira carta da mãe.

Leu sentado no quintal.

Ela perguntava se estava se alimentando.

Se tinha onde dormir.

Se havia encontrado pessoas boas.

Antero respondeu:

“Estou bem. Moro com dois amigos.”

Não descreveu a casa.

Mãe não precisava saber tudo.

Geraldo era o mais velho.

Tinha vinte e nove anos.

Viera do Paraná.

Joaquim tinha vinte e quatro e era baiano.

Nenhum dos três planejara morar em São Paulo para sempre.

Era curioso.

Todo mundo parecia ter vindo apenas por algum tempo.

Juntar dinheiro.

Conseguir emprego.

Ajudar a família.

Depois voltar.

Mas os meses passavam.

E a cidade tinha uma maneira de transformar planos temporários em vida definitiva.

Foi naquela casa que Antero conheceu Lurdes.

Ela trabalhava numa padaria.

Ele passava todas as manhãs.

Comprava um pão e café.

Mesmo quando podia tomar café em casa.

Geraldo percebeu.

— Está gastando dinheiro demais naquela padaria.

— Gosto do café.

— Gosta é da moça.

Antero negou.

Duas semanas depois convidou Lurdes para passear.

No terceiro encontro, contou onde morava.

Ficou envergonhado.

— É uma casa abandonada.

Lurdes perguntou:

— Tem rato?

— Não.

Antero pensou.

— Pelo menos não muitos.

Ela começou a rir.

— Então quero conhecer.

No domingo seguinte apareceu.

Levou um bolo.

Joaquim recebeu como se estivesse numa mansão.

— Seja bem-vinda à nossa residência.

Lurdes olhou ao redor.

— Bonita.

Antero percebeu que ela não estava ironizando.

Depois do almoço, ajudou a lavar os pratos.

Quando foi embora, disse:

— Vocês podiam plantar alguma coisa nesse quintal.

Na semana seguinte trouxe mudas de manjericão.

Depois tomate.

A casa começou a ter jardim.

Os melhores anos da juventude de Antero aconteceram ali.

Não porque fossem fáceis.

Trabalhavam muito.

Dinheiro quase nunca sobrava.

Algumas vezes faltava comida.

Quando chovia forte, colocavam panelas sob as goteiras.

No inverno, fazia frio.

Mas ninguém chegava sozinho.

Se um estava desempregado, os outros dividiam.

Quando Joaquim ficou doente, Geraldo comprou remédio.

Quando Antero perdeu o emprego na metalúrgica, os amigos sustentaram a casa durante dois

meses.

Quando a mãe de Geraldo morreu, os três juntaram dinheiro para sua passagem.

Geraldo voltou uma semana depois.

Entrou sem falar.

Sentou-se.

Joaquim colocou café diante dele.

Antero sentou do outro lado.

Nenhum perguntou nada.

Ficaram os três em silêncio.

Anos depois, Geraldo diria que aquele fora um dos momentos em que mais se sentira amparado

na vida.

Um domingo, Joaquim chegou com uma lata de tinta.

Azul.

— Onde conseguiu?

— Sobrou de uma obra.

— Vamos pintar o quê?

Joaquim abriu os braços.

— Nossa propriedade.

Passaram o dia pintando a parede da frente.

A tinta não foi suficiente.

Metade da casa ficou azul.

A outra metade continuou cinza.

Geraldo observou.

— Ficou horrível.

Joaquim respondeu:

— Ficou moderna.

Nunca terminaram.

A casa permaneceu metade azul.

Virou referência.

— Onde vocês moram?

— Na casa azul.

— Aquela pela metade?

— Essa mesmo.

Até que, numa terça-feira, apareceu um homem de terno.

Trazia uma pasta.

Perguntou:

— Quem mora aqui?

Geraldo respondeu:

— Nós.

— São proprietários?

Os três se olharam.

— Não — disse Antero.

O homem explicou que o terreno havia sido vendido.

Uma empresa construiria um galpão.

Precisavam sair.

— Quando? — perguntou Joaquim.

— Trinta dias.

Geraldo ficou nervoso.

— Estamos aqui há anos.

— Eu entendo.

— Então temos direito.

O homem abriu a pasta.

Falou de documentos.

Registro.

Propriedade.

Coisas que nenhum deles tinha.

No final, deixou um papel.

— Sinto muito.

Foi embora.

Naquela noite, ninguém ligou o rádio.

Joaquim segurava o documento.

— E se a gente não sair?

Geraldo respondeu:

— Eles tiram.

— Como sabe?

— Porque o papel diz que podem.

Antero olhou ao redor.

A porta feita por Geraldo.

As paredes reparadas por Joaquim.

As cortinas.

A mesa.

As plantas de Lurdes.

O mamoeiro.

— A gente podia procurar alguém — disse.

Procuraram.

Descobriram que a situação era complicada.

Não tinham contrato.

Não pagavam aluguel.

Não eram donos.

A casa, juridicamente, nunca fora deles.

Aquilo intrigava Antero.

Como podia um lugar ser tão profundamente seu e, ao mesmo tempo, não lhe pertencer?

Lurdes foi a primeira a oferecer solução.

— Minha tia tem um quarto para alugar.

— Para três?

— Para você.

Antero olhou para os amigos.

— Não vou deixar eles.

Geraldo ouviu.

— Vai, sim.

— Não.

— Você vai casar com essa moça.

Antero ficou vermelho.

Lurdes também.

Ainda nem tinham falado em casamento.

Joaquim sorriu.

— Eu posso ser padrinho.

— Ninguém está casando — respondeu Antero.

Mas estava começando.

A perda da casa obrigava cada um a escolher o próximo caminho.

Geraldo encontrou um quarto perto da marcenaria.

Joaquim iria dividir uma pensão com colegas da obra.

Antero aceitou o quarto da tia de Lurdes.

A família improvisada começaria a se separar.

No último domingo, fizeram almoço.

Carne.

Arroz.

Feijão.

Farofa.

Lurdes levou bolo.

Geraldo comprou uma garrafa de bebida.

Joaquim colocou o rádio na janela.

— Hoje é festa.

— Festa de quê? — perguntou Antero.

— De despedida.

— Isso não é motivo para festa.

Joaquim respondeu:

— Então festa pelo tempo que a gente ficou.

Aquilo fez sentido.

Comeram.

Contaram histórias.

Riram de coisas que já tinham esquecido.

Quando escureceu, Lurdes foi embora.

Os três ficaram no quintal.

Geraldo olhou para o mamoeiro.

— Quem vai ficar com ele?

Joaquim respondeu:

— Ele fica com a casa.

Silêncio.

Antero perguntou:

— Vocês acham que vão derrubar tudo?

Ninguém respondeu.

Sabiam.

Na manhã da mudança, carregaram poucas coisas.

A mesa não valia a pena.

As cadeiras também não.

Cada um levou o colchão.

Geraldo levou algumas ferramentas.

Joaquim, roupas.

Antero, uma caixa com cartas e fotografias.

O rádio ficou por último.

— De quem é? — perguntou Antero.

Geraldo respondeu:

— Meu.

Joaquim protestou:

— Depois de tanto tempo é nosso.

— Então fazemos o quê?

Decidiram jogar uma moeda.

Geraldo ganhou.

Joaquim ficou indignado.

— Isso foi roubado.

— Quer conferir a moeda?

Riram.

Era melhor rir.

Antes de sair, Antero arrancou um pequeno pedaço da tinta azul que já descascava.

Colocou no bolso.

Não contou aos outros.

Fecharam a porta.

Embora não houvesse chave para entregar a ninguém.

Algumas semanas depois, Antero passou pela rua.

A casa já não existia.

Havia apenas entulho.

Parou diante do terreno.

Reconheceu pedaços de madeira.

Um pedaço da parede azul ainda estava de pé.

O mamoeiro tinha sido derrubado.

Sentiu raiva.

Depois tristeza.

Queria entrar.

Não havia onde.

Foi embora.

A vida continuou.

Antero casou-se com Lurdes.

Tiveram três filhos.

Ele conseguiu emprego numa indústria e trabalhou lá durante trinta e cinco anos.

Compraram uma casa.

Dessa vez com escritura.

Guardou o documento durante décadas numa pasta de plástico.

Geraldo também casou.

Mudou-se para o interior.

Joaquim foi para o Rio de Janeiro trabalhar numa grande obra.

Durante algum tempo escreveram.

Depois menos.

Até perderem contato.

Acontece.

Existem amizades que parecem impossíveis de terminar.

E mesmo assim a vida consegue colocar distância suficiente entre as pessoas.

Quarenta anos depois, Antero recebeu um telefonema.

— É o Antero?

— Sim.

— Aqui é Geraldo.

Ele reconheceu a voz antes mesmo de compreender.

— Geraldo?

— O próprio.

Conversaram por quase uma hora.

Joaquim também havia sido encontrado.

Marcaram um encontro.

Os três se viram num restaurante.

Já eram velhos.

Ficaram alguns segundos apenas olhando uns para os outros.

Joaquim quebrou o silêncio:

— Vocês estão acabados.

Começaram a rir.

Em poucos minutos, tinham novamente vinte anos.

Falaram da casa.

Das goteiras.

Do rádio.

Do bolo de Lurdes.

Do mamoeiro.

Da parede pela metade.

Geraldo perguntou:

— Lembra do dia em que pintamos aquilo?

Joaquim respondeu:

— Ficou bonito.

— Ficou horrível.

— Você não entendia de arte.

Antero ouviu os dois discutindo.

Sentiu uma felicidade difícil de explicar.

A casa já não existia havia décadas.

Mesmo assim, continuava inteira na memória dos três.

Geraldo morreu alguns anos depois.

Joaquim também.

Lurdes morreu quando Antero tinha oitenta e um.

E foi talvez por isso que, aos oitenta e quatro, ele decidiu procurar novamente aquela rua.

Queria ver onde tudo começara.

Agora estava diante do prédio.

Quinze andares.

Portaria.

Garagem subterrânea.

Vidros nas sacadas.

Nada da velha casa permanecera.

Ou quase nada.

Antero sentou-se num banco próximo.

Tirou do bolso um pequeno envelope.

Dentro havia um fragmento de tinta azul.

Guardara durante quase sessenta anos.

Nunca soubera por quê.

Passou o dedo sobre a superfície.

Uma jovem que saía do prédio percebeu.

— O senhor está bem?

— Estou.

— Mora aqui?

Antero sorriu.

— Já morei.

Ela olhou para o edifício.

— Aqui?

— Mais ou menos.

A moça não entendeu.

— Era diferente?

Antero olhou para cima.

— Bastante.

— Melhor?

Ele pensou.

Não queria transformar pobreza em poesia.

A casa era ruim.

Entrava água.

Não havia banheiro adequado no começo.

Passaram dificuldades.

Não havia nada bonito em não ter onde morar.

Mas havia algo naquela época que merecia ser lembrado.

— Não era melhor — respondeu. — Mas tinha gente que eu amava.

A jovem sorriu.

Despediu-se.

Antero permaneceu ali.

Pouco depois começou a chover.

Ele abriu o guarda-chuva.

Por alguns segundos lembrou-se das panelas espalhadas pelo chão da velha casa.

Conseguiu ouvir Joaquim reclamando:

— Essa goteira é minha. Arruma outra.

Geraldo respondendo:

— Você quer ser dono até da água?

Antero riu sozinho.

Algumas pessoas olharam.

Não se importou.

Guardou novamente o pedaço de tinta.

Levantou-se.

Antes de ir embora, olhou uma última vez para o prédio.

Durante a vida, Antero tivera casas muito melhores.

Com piso.

Banheiro.

Telhado bom.

Quartos para os filhos.

Uma delas fora realmente sua, registrada em cartório.

Mas aprendera que propriedade e pertencimento são coisas diferentes.

Um documento pode dizer quem é dono de uma parede.

Não consegue registrar tudo o que aconteceu dentro dela.

Não registra as noites em que três rapazes dividiram o último pedaço de pão.

Nem o café oferecido a um amigo que voltara do enterro da mãe.

Não registra o primeiro bolo levado por uma namorada.

As músicas de um rádio velho.

As conversas de madrugada.

Os sonhos.

O medo.

A juventude.

Talvez por isso algumas casas continuem existindo muito depois de serem derrubadas.

Elas permanecem nas pessoas que um dia chamaram aquele lugar de lar.

Antero começou a caminhar.

Atrás dele, centenas de pessoas viviam nos apartamentos construídos onde antes existira sua

velha casa.

Ali também haveria aniversários.

Brigas.

Crianças crescendo.

Amores começando.

Despedidas.

Novas lembranças ocupariam aquele pedaço de chão.

Era assim que uma cidade crescia.

Construindo umas histórias sobre as outras.

Antero não sentia mais raiva.

Apenas saudade.

E compreendeu que aquela casa nunca precisara de escritura para ter pertencido aos três.

Porque algumas propriedades são registradas em cartório.

Outras, ninguém consegue tomar.

Ficam registradas apenas na memória.

CARINHOSO

Seguimos para a 3ª história de Histórias do Brasil, inspirada em “Carinhoso” — Pixinguinha

e João de Barro.

Aqui vamos para o Rio de Janeiro das primeiras décadas do século XX, em um ambiente de

música, pequenos bailes e rodas de choro. A história será sobre um homem que consegue colocar

sentimentos em sua música, mas passa boa parte da vida sem conseguir dizê-los à mulher que

ama.