Durante trinta e sete anos, Otávio abriu a janela da cozinha todas as manhãs antes de fazer café.
Era sempre a mesma janela.
A mesma vista.
O mesmo mar.
Algumas manhãs azul.
Outras cinza.
Às vezes tranquilo.
Às vezes tão agitado que o vento carregava sal até dentro de casa.
Otávio gostava de dizer que conhecia aquele mar.
Clara, sua mulher, ria.
— Ninguém conhece o mar.
— Moro na frente dele há quase quarenta anos.
— Justamente. Já devia ter aprendido.
— Aprendido o quê?
— Que amanhã ele pode estar completamente diferente.
Otávio nunca gostou muito daquela resposta.
Preferia as coisas que permaneciam.
Talvez por isso tivesse escolhido passar quase toda a vida no mesmo lugar.
A casa ficava numa pequena cidade do litoral de Santa Catarina.
Quando Otávio e Clara a compraram, havia poucas construções naquela parte da praia.
Era uma casa simples.
Dois quartos.
Sala pequena.
Cozinha.
Um terreno de areia onde quase nada crescia direito.
Otávio tinha trinta anos.
Clara, vinte e oito.
Ele trabalhava numa agência bancária.
Ela era professora.
Não tinham dinheiro para aquela casa.
Compraram mesmo assim.
Financiamento longo.
Prestações apertadas.
Móveis usados.
Durante os primeiros anos, quase tudo precisava esperar.
Menos a felicidade.
Essa parecia ter chegado antes dos móveis.
Foi ali que nasceram os filhos.
Primeiro Eduardo.
Depois Marina.
A casa mudou com eles.
Um quarto virou dois.
Construíram uma pequena varanda.
Depois uma garagem.
Clara plantou flores que o vento insistia em destruir.
Plantava novamente.
— Por que não escolhe uma planta mais resistente? — perguntava Otávio.
— Porque gosto dessas.
— Mas morrem.
— Planto outras.
Otávio achava desperdício.
Clara chamava de jardim.
Ele gostava de rotina.
Acordar no mesmo horário.
Trabalhar.
Voltar.
Jantar.
Ler jornal.
Dormir.
Aos sábados, mercado.
Aos domingos, almoço em família.
Durante as férias, às vezes viajavam.
Mas Otávio sempre voltava satisfeito.
— Lugar nenhum é melhor que nossa casa.
Clara provocava:
— Você fala isso porque não gosta de fazer mala.
Talvez houvesse alguma verdade.
Os filhos cresceram.
Eduardo foi o primeiro a ameaçar a ordem das coisas.
Aos dezenove anos, anunciou:
— Vou estudar em Florianópolis.
Otávio levantou os olhos do jornal.
— Tem faculdade aqui perto.
— Não o curso que quero.
— Pode escolher outro.
Eduardo riu.
— Pai, eu quero o curso, não uma faculdade qualquer.
Otávio não gostou.
— E vai morar onde?
— República.
— Com quem?
— Ainda não sei.
— Então não tem plano nenhum.
Clara interrompeu:
— Tem dezenove anos.
— Justamente.
— Você tinha trinta quando comprou uma casa que não conseguia pagar.
Otávio olhou para a mulher.
— Isso é diferente.
— Sempre é quando é a gente.
Eduardo foi.
Nos primeiros meses, Otávio telefonava frequentemente.
Perguntava se estava comendo.
Se estudava.
Se tinha dinheiro.
Se os colegas eram responsáveis.
Eduardo começou a atender menos.
Clara dizia:
— Solta.
— Soltar o quê?
— O menino.
— Não estou segurando.
Ela apenas olhava.
Otávio entendia.
Mas fingia que não.
Marina foi embora três anos depois.
Para Curitiba.
Trabalho.
Otávio reagiu pior.
— Todo mundo resolveu ir embora?
— Pai…
— Para que tivemos essa casa grande?
Marina riu.
— Ela não é grande.
— Agora é.
Naquela noite, Otávio entrou nos quartos vazios.
Pela primeira vez percebeu que uma casa pode mudar sem que nenhuma parede seja derrubada.
Os domingos ficaram diferentes.
A mesa tinha lugares demais.
Clara começou a servir menos comida.
No começo errava.
Fazia arroz para quatro.
Depois guardava.
— Ainda não aprendi — dizia.
Otávio respondia:
— Eles vêm no próximo domingo.
Nem sempre vinham.
Trabalho.
Namorados.
Amigos.
Viagens.
Vida.
Otávio se ressentia.
— Quando eram pequenos, não podíamos fazer nada sem eles.
Clara respondeu:
— Esse era o trabalho.
— Qual?
— Criar gente que consiga viver sem nós.
Ele não gostou daquela definição de sucesso.
Depois vieram os casamentos.
Eduardo mudou-se para São Paulo.
Marina ficou em Curitiba.
Vieram os netos.
A casa enchia no verão.
Colchões pelo chão.
Brinquedos.
Toalhas molhadas.
Barulho.
Durante alguns dias, Otávio reclamava.
— Ninguém fecha essa porta?
— Quem deixou areia na sala?
— Essa casa virou hotel?
Quando todos iam embora, passava dois dias andando em silêncio pelos cômodos.
Clara percebia.
— Está sentindo falta do hotel?
— Estou aproveitando o sossego.
— Sei.
Aos sessenta e quatro anos, Otávio aposentou-se.
Imaginara aquele momento durante décadas.
Pensava que seria maravilhoso.
Não foi.
Nos primeiros meses, sentiu-se inútil.
Arrumava coisas que não precisavam.
Organizou ferramentas.
Pintou portão.
Consertou torneira.
Depois não havia mais o que consertar.
Clara continuava dando algumas aulas particulares.
Tinha amigas.
Fazia caminhadas.
Participava de um grupo de leitura.
Otávio começou a implicar.
— Você nunca fica em casa.
Clara olhou para ele.
— Passei quarenta anos ouvindo você dizer que trabalhava e eu precisava arrumar alguma coisa
para fazer.
— Não falei assim.
— Falou de maneiras mais educadas.
Ele ficou ofendido.
Depois começou a rir.
Foi Clara quem propôs vender a casa.
Otávio achou que tinha ouvido errado.
— O quê?
— Vender.
— Esta casa?
— Temos outra?
— Você enlouqueceu?
— Um pouco.
Ela queria um apartamento menor.
Mais perto do centro.
Sem quintal.
Sem telhado para consertar.
Sem tantos quartos vazios.
Otávio recusou imediatamente.
— Não.
— Nem vai pensar?
— Não há o que pensar.
— Otávio, a casa está grande para nós.
— Sempre teve o mesmo tamanho.
— Nós é que mudamos.
A frase o irritou.
— Eu não mudei.
Clara ficou olhando.
— Esse talvez seja o problema.
Não venderam.
Durante alguns anos, o assunto desapareceu.
Até Clara adoecer.
Começou com cansaço.
Depois exames.
Tratamento.
Hospital.
Durante quase dois anos, a casa deixou de ser centro da vida.
A vida passou a acontecer entre consultórios e corredores.
Otávio, que sempre precisara controlar tudo, descobriu um território onde controle nenhum
servia.
Perguntava aos médicos:
— E depois?
As respostas vinham cheias de talvez.
Talvez responda.
Talvez melhore.
Talvez seja necessário outro tratamento.
Talvez.
Otávio odiava aquela palavra.
Uma tarde, Clara estava sentada na varanda olhando o mar.
Estava muito magra.
Otávio levou café.
— Fraco — ela pediu.
— Sempre tomou forte.
— Agora não.
Ele preparou outro.
Sentou-se.
Clara perguntou:
— Ainda acha que conhece o mar?
Otávio sorriu.
— Depois de tantos anos, um pouco.
Ela apontou.
— Ontem estava completamente diferente.
— Ontem ventou.
— Não estou falando do tempo.
Ele percebeu.
Clara continuou:
— Você passou a vida querendo que as coisas continuassem como estavam.
— Isso é ruim?
— Não.
Ela segurou a mão dele.
— Só é impossível.
Otávio não respondeu.
— Os filhos foram embora.
— Eu sei.
— Nós envelhecemos.
— Sei.
— E um dia essa casa vai ter outras pessoas.
— Não quero falar disso.
— Eu sei.
Ficaram em silêncio.
Depois Clara disse:
— Não transforme lembrança em corrente.
Otávio olhou para ela.
— O que quer dizer?
— Você vai descobrir.
Clara morreu no inverno seguinte.
Depois de quarenta e quatro anos de casamento.
Otávio permaneceu na casa.
Sozinho.
Durante o primeiro ano, recusou qualquer conversa sobre mudança.
Marina sugeriu:
— Pai, venha para Curitiba.
— Minha casa é aqui.
Eduardo ofereceu:
— Pode ficar um tempo conosco.
— Estou bem.
Não estava.
Mas ficar parecia uma maneira de impedir que mais alguma coisa mudasse.
Manteve as roupas de Clara.
A escova no banheiro.
Os livros ao lado da cama.
A caneca preferida.
As plantas.
Até os chinelos permaneceram durante meses no mesmo lugar.
Como se Clara tivesse saído e pudesse voltar.
Um temporal mudou tudo.
Veio numa madrugada.
Vento forte.
Chuva.
O mar avançou mais do que de costume.
Parte do telhado foi danificada.
Água entrou.
Uma janela quebrou.
Otávio acordou assustado.
Passou horas tentando conter a água com panos e baldes.
Pela manhã, estava exausto.
Olhou para a sala molhada.
Uma fotografia de família caíra da parede.
O vidro quebrara.
Sentou-se.
E chorou.
Não pelo telhado.
Nem pela janela.
Chorou porque finalmente percebeu que não conseguia conservar tudo.
Nem a casa.
Nem os filhos pequenos.
Nem Clara.
Nem ele mesmo.
Marina chegou naquela tarde.
Encontrou o pai sentado na cozinha.
— Você não pode continuar cuidando disso sozinho.
Dessa vez Otávio não discutiu.
Perguntou:
— O que faço?
Era a primeira vez que admitia não saber.
Meses depois colocou a casa à venda.
No dia em que a placa foi instalada, quase mandou retirar.
Não mandou.
Uma família apareceu.
Casal jovem.
Duas crianças.
A menina correu para a varanda.
— Dá para ver o mar!
A mãe pediu:
— Não corre.
O menino perguntou se podia colocar uma rede entre duas árvores.
Otávio acompanhou a visita em silêncio.
Depois a mulher perguntou:
— O senhor mora aqui há muito tempo?
— Quase quarenta anos.
— Deve ser difícil vender.
— É.
Ela ficou constrangida.
— Vamos cuidar bem.
Otávio percebeu que aquela frase era desnecessária.
A casa não precisava que alguém preservasse a vida que ele tivera.
Precisava receber outra.
— Espero que vocês sejam felizes aqui — disse.
E, pela primeira vez, falou sinceramente.
Mudou-se para um apartamento pequeno.
Nos primeiros dias odiou.
O elevador.
Os vizinhos.
A falta do quintal.
A vista não dava diretamente para o mar.
Precisava caminhar duas quadras.
Começou a fazer isso todas as manhãs.
Chegava à praia.
Sentava-se num banco.
Observava.
Um dia tranquilo.
Outro agitado.
Maré alta.
Maré baixa.
Verão.
Inverno.
Sempre o mesmo mar.
Nunca exatamente igual.
Começou a entender Clara.
Certa manhã recebeu uma fotografia.
A família que comprara a casa havia encontrado uma marca na parede do antigo quarto das
crianças.
Riscos com datas.
Altura de Eduardo.
Altura de Marina.
Perguntavam se Otávio queria que preservassem antes de pintar.
Ele ficou olhando para a imagem.
Lembrou-se das crianças encostadas na parede.
Clara segurando uma régua.
Eduardo tentando ficar na ponta dos pés.
Marina reclamando que o irmão trapaceava.
Otávio respondeu:
“Podem pintar.”
Ficou alguns segundos olhando para a mensagem antes de enviar.
Depois acrescentou:
“Façam as marcas dos seus filhos.”
Enviou.
Chorou um pouco.
Mas sorriu também.
Aos setenta e quatro anos, Otávio fez sua primeira viagem sozinho.
Visitou Eduardo.
Depois Marina.
Começou a aceitar convites.
Fez amigos no prédio.
Aprendeu a cozinhar duas receitas que Clara fazia.
Nenhuma ficava igual.
Parou de tentar.
Também começou a cuidar de uma pequena planta na varanda.
Quando Marina viu, perguntou:
— Desde quando gosta de plantas?
— Não gosto.
— Então por que tem uma?
Otávio respondeu:
— Sua mãe gostava.
A filha sorriu.
— Essa planta vai morrer com esse vento.
Otávio olhou para ela.
Lembrou-se imediatamente de Clara.
— Se morrer, planto outra.
Marina ficou em silêncio.
Depois beijou o pai na testa.
Anos mais tarde, um dos netos perguntou:
— Vô, você sente falta da casa da praia?
Otávio respondeu:
— Sinto.
— Queria voltar a morar lá?
Pensou.
— Não.
O menino estranhou.
— Então não sente falta?
Otávio sorriu.
— Sentir saudade não significa querer tudo de volta.
O neto pareceu guardar a frase.
Otávio também.
Talvez tivesse acabado de compreendê-la.
Naquela tarde caminhou até a praia.
O mar estava agitado.
Ficou observando as ondas.
Vinham.
Quebravam.
Recuavam.
Depois vinham outras.
Nenhuma permanecia.
E justamente por isso o mar continuava existindo.
Otávio passara boa parte da vida acreditando que amar alguma coisa significava conservá-la.
A casa.
Os hábitos.
Os filhos perto.
A mulher ao seu lado.
O tempo.
Mas talvez amar também exigisse aprender a permitir que as coisas mudassem.
Os filhos precisavam partir para construir suas próprias vidas.
Uma casa podia receber outra família sem apagar quem vivera nela antes.
Uma pessoa podia morrer e continuar presente de maneiras que não dependiam de roupas
guardadas num armário.
E ele próprio podia deixar de ser o homem que fora sem deixar de ser Otávio.
Não havia nada de errado em desejar permanência.
Era humano.
Construímos casas porque queremos proteção.
Fazemos fotografias porque queremos guardar momentos.
Criamos hábitos porque eles nos dão a impressão de que amanhã será parecido com hoje.
Mas a vida não faz esse acordo.
Ela muda.
Mesmo quando pedimos que espere.
Talvez o sofrimento não estivesse apenas nas mudanças.
Às vezes estava na tentativa impossível de impedir que acontecessem.
Otávio finalmente compreendeu por que Clara plantava novamente as flores que o vento
destruía.
Ela nunca esperara que durassem para sempre.
Isso não diminuía a beleza enquanto estavam ali.
Uma onda avançou mais do que as outras.
A água chegou perto de seus pés.
Otávio recuou.
Sorriu.
No dia seguinte aquele mar estaria diferente.
Ele também.
Talvez pouco.
Talvez muito.
E estava tudo bem.
Porque viver não era permanecer intacto.
Era atravessar aquilo que chegava, aquilo que partia e aquilo que se transformava.
Guardar o que merecia ser lembrado.
Soltar aquilo que já cumprira seu tempo.
E continuar.
Otávio levantou-se do banco.
Antes de voltar para casa, olhou uma última vez para o mar.
Durante quase quarenta anos acreditara que o conhecia porque o via todos os dias.
Agora sabia que Clara tinha razão.
Ninguém conhece completamente o mar.
Nem a vida.
Quando pensamos ter entendido seu movimento, alguma coisa muda.
Uma onda termina.
Outra começa.
E talvez a beleza esteja justamente nisso:
nada volta exatamente como era, mas alguma coisa sempre continua.
A LISTA
Agora vamos para a 4ª história de Reflexões sobre a Vida, inspirada em “A Lista” —
Oswaldo Montenegro.
Como já usamos uma lista de desejos na história anterior, aqui vou seguir por um caminho
diferente para não repetirmos a ideia. Esta será uma história sobre as pessoas que atravessam
nossa vida — aquelas que permanecem, aquelas que se afastam e aquelas que só descobrimos
muito tarde o quanto foram importantes.