Toda canção pode esconder uma história.
Primeiro, a história. Depois, a canção.
Estradas e Viagens

A Estrada de Volta

A história que poderia ter existido antes de uma canção

Quando Daniel avistou a placa indicando Santa Rita — 12 km, diminuiu a velocidade.

Não havia necessidade.

A estrada estava vazia, o asfalto era bom e ainda faltava mais de uma hora para anoitecer.

Mesmo assim, tirou o pé do acelerador.

Fazia vinte e sete anos que não passava por ali.

Algumas coisas haviam mudado.

O antigo posto de gasolina desaparecera. Havia casas onde antes existiam pastagens. A ponte

sobre o rio agora era de concreto.

Mas as montanhas continuavam no mesmo lugar.

Daniel abriu a janela.

O vento entrou no carro trazendo cheiro de terra molhada.

Tinha chovido pouco antes.

Por alguns segundos, ele deixou de ser um homem de cinquenta e dois anos dirigindo um carro

caro.

Era novamente um rapaz de vinte e cinco, dentro de um ônibus, olhando aquela mesma estrada

desaparecer pela janela.

Naquele dia, acreditava estar indo embora para sempre.

Agora estava voltando.

E ainda não sabia exatamente por quê.

Daniel crescera numa casa pequena perto da saída da cidade.

Era filho único de Osvaldo e Irene.

O pai tinha uma oficina de bicicletas. A mãe era costureira.

Não eram pobres.

Também nunca tiveram sobra.

Daniel cresceu ouvindo a máquina de costura de um lado da casa e o barulho das ferramentas do

outro.

Osvaldo tinha um plano para o filho.

— Um dia isso aqui vai ser seu.

Daniel detestava aquela frase.

Não detestava o pai.

Detestava o destino já decidido.

Desde adolescente dizia que iria embora.

Queria conhecer o mundo.

Osvaldo respondia:

— O mundo também existe aqui.

— Não é a mesma coisa.

— Como sabe? Nunca viu o outro.

— Justamente.

Irene tentava impedir que as conversas se transformassem em discussão.

— Deixa o menino estudar, Osvaldo.

— Estou deixando.

— Então pare de escolher a vida dele.

— Não estou escolhendo. Estou oferecendo uma oficina pronta.

Daniel respondia:

— Eu não quero consertar bicicleta.

O pai se calava.

Era sempre naquele momento que a discussão terminava.

Daniel sabia que o machucava.

Mas, aos dezoito anos, não acreditava que permanecer pudesse ser uma escolha.

Parecia derrota.

Ele foi o primeiro da família a entrar numa universidade.

Mudou-se para Belo Horizonte para estudar Engenharia Civil.

Osvaldo não comemorou muito.

Irene comemorou pelos dois.

Na manhã da partida, o pai levou a mala até a rodoviária.

— Dinheiro está aí?

— Está.

— Documento?

— Também.

Osvaldo assentiu.

Não houve discurso.

Quando o ônibus chegou, Irene abraçou o filho.

— Ligue.

— Ligo.

Daniel olhou para o pai.

Osvaldo estendeu a mão.

O filho hesitou e depois apertou.

— Vai com cuidado.

— Pode deixar.

Daniel entrou no ônibus.

Enquanto a cidade desaparecia pela janela, sentiu uma mistura de medo e felicidade.

Era exatamente aquilo que desejava.

Uma estrada.

Um lugar desconhecido.

Uma vida ainda sem forma.

Nos primeiros anos voltou muitas vezes.

Férias.

Natal.

Aniversário da mãe.

Depois conseguiu estágio.

As visitas diminuíram.

Quando terminou a faculdade, recebeu uma proposta para trabalhar em São Paulo.

Telefonou para contar.

Irene ficou feliz.

Osvaldo perguntou:

— E aqui?

Daniel sabia o que ele queria dizer.

— Pai, não vou voltar.

Silêncio.

— Nem tentou.

— Tentar o quê?

— Viver aqui.

— Não é a vida que quero.

Osvaldo respirou fundo.

— Então vá atrás da sua.

Daniel percebeu a irritação.

— Não precisa falar assim.

— Assim como?

A discussão cresceu.

No final, Daniel disse uma frase da qual se arrependeria muitas vezes:

— Eu não quero passar a vida inteira preso numa cidade que não leva a lugar nenhum.

Osvaldo desligou.

Durante quase três meses não conversaram.

Irene telefonava para os dois.

— Seu pai sente sua falta.

— Então ele pode ligar.

Depois dizia ao marido:

— Daniel perguntou de você.

Mesmo quando Daniel não perguntava.

Foi assim que Irene manteve os dois ligados por muitos anos.

São Paulo deu a Daniel praticamente tudo que ele imaginara querer.

Começou numa construtora.

Trabalhou muito.

Foi promovido.

Aprendeu inglês.

Viajou.

Conheceu Mariana, uma arquiteta da mesma empresa.

Casaram-se.

Compraram apartamento.

Depois um maior.

Vieram Lucas e Beatriz.

Daniel estava sempre avançando.

Era assim que enxergava a vida.

Como uma estrada em que parar significava ficar para trás.

Osvaldo envelhecia.

A oficina continuava aberta.

Quando Daniel visitava os pais, dizia:

— O senhor devia vender isso.

— Para quê?

— Descansar.

— Descanso de quê?

— O senhor tem quase setenta anos.

— A bicicleta sabe?

Daniel ria.

Os dois haviam aprendido a não discutir sobre certas coisas.

Mas também haviam aprendido a não conversar sobre muitas outras.

Quando Irene morreu, Daniel tinha quarenta e um anos.

Um câncer descoberto tarde.

Foram meses difíceis.

Daniel viajava sempre que podia.

No último mês, conseguiu trabalhar à distância e ficou na cidade.

Uma noite, sentado ao lado da cama da mãe, ouviu:

— Quando eu for, não abandone seu pai.

— Mãe…

— Estou falando sério.

— O pai sabe se cuidar.

— Não estou falando de comida.

Daniel entendeu.

— Ele também precisa querer.

Irene sorriu.

— Seu pai passou a vida inteira esperando você voltar.

Daniel ficou incomodado.

— Eu tenho minha vida.

— Eu sei.

— Ele nunca aceitou isso.

— Aceitou.

— Não parece.

Irene segurou a mão do filho.

— Aceitar não é a mesma coisa que não sentir falta.

Ela morreu duas semanas depois.

Após o enterro, Daniel tentou convencer Osvaldo a ir morar em São Paulo.

— Não.

— Pai, o senhor vai ficar sozinho.

— Já estou.

— Então vem comigo.

— Para fazer o quê?

— Ficar perto dos netos.

— Eles vêm me visitar.

Daniel não insistiu.

Lucas e Beatriz realmente visitavam o avô.

Gostavam da oficina.

Osvaldo ensinou Lucas a andar de bicicleta.

Depois ensinou Beatriz.

Para os netos, aquele homem calado era completamente diferente.

Tinha paciência.

Contava histórias.

Deixava que desmontassem coisas.

Certa vez Daniel observou os três na oficina.

— Comigo o senhor não tinha essa paciência.

Osvaldo continuou apertando um parafuso.

— Tinha.

— Não lembro.

— Você não parava quieto o suficiente para perceber.

Daniel sorriu.

Talvez fosse verdade.

Com o passar dos anos, as visitas voltaram a diminuir.

Não por briga.

Pela vida.

Lucas entrou na faculdade.

Beatriz começou a namorar.

Mariana abriu um escritório.

Daniel tornou-se diretor.

Sempre havia uma reunião.

Uma viagem.

Um problema.

Quando Osvaldo telefonava, a conversa era curta.

— Tudo bem?

— Tudo.

— E os meninos?

— Bem.

— Quando vêm?

— Vamos ver.

— Tá.

Era quase sempre assim.

Até que um dia Osvaldo não telefonou.

Daniel também não.

Passaram duas semanas.

Depois três.

Na quarta, uma vizinha ligou.

— Daniel, seu pai caiu.

Ele sentiu o estômago apertar.

— Está no hospital?

— Não. Já voltou para casa.

— Por que ninguém me avisou?

A mulher ficou em silêncio.

— Ele pediu.

Daniel telefonou imediatamente.

— Pai, o senhor caiu?

— Caí.

— E não ia me contar?

— Para quê?

— Porque sou seu filho!

— Você está longe.

A frase o irritou.

— E isso muda o quê?

Osvaldo respondeu calmamente:

— Muda a distância.

Daniel marcou uma passagem.

Foi vê-lo.

Encontrou o pai menor do que lembrava.

Osvaldo caminhava com dificuldade.

Mesmo assim, continuava indo até a oficina.

— Isso precisa fechar — disse Daniel.

— Precisa nada.

— O senhor não consegue mais trabalhar.

— Consigo sentar.

— Pai…

— Enquanto a porta estiver aberta, alguém entra.

Daniel desistiu.

Ficou três dias.

Antes de ir embora, perguntou:

— Quer que eu volte no mês que vem?

Osvaldo respondeu:

— Faça o que tiver que fazer.

Daniel ouviu aquilo como indiferença.

Foi embora magoado.

Dois meses depois, Osvaldo morreu.

Foi encontrado pela vizinha sentado numa cadeira dentro da oficina.

Um infarto.

Daniel chegou naquela noite.

Depois do enterro, precisou cuidar da casa e da oficina.

A princípio decidiu vender tudo rapidamente.

Não havia razão para manter.

Na manhã seguinte entrou na oficina.

O cheiro era exatamente o mesmo da infância.

Borracha.

Graxa.

Metal.

Madeira.

Sobre a bancada estavam as ferramentas do pai.

Daniel começou a abrir gavetas.

Encontrou parafusos.

Correntes.

Peças antigas.

Recibos.

Então encontrou um caderno.

Na capa estava escrito:

Serviços.

Folheou.

Datas.

Nomes.

Consertos.

Até chegar às últimas páginas.

Ali já não havia serviços.

Havia anotações.

“Lucas ligou. Faculdade indo bem.”

“Beatriz passou no vestibular.”

“Daniel viajou para o Chile.”

“Daniel foi promovido.”

Daniel parou.

Continuou.

“Hoje faz seis meses que Irene se foi.”

Mais adiante:

“Daniel veio passar três dias.”

Depois:

“Daniel disse que volta mês que vem.”

A última anotação tinha pouco mais de uma semana.

“Talvez ele venha no Natal.”

Daniel fechou o caderno.

Sentou-se na cadeira do pai.

Ficou ali durante muito tempo.

Pela primeira vez percebeu algo doloroso.

Enquanto ele construía sua vida contando tudo aquilo que conquistava, o pai contava as vezes em

que ele voltava.

Daniel não vendeu a oficina.

Também não soube explicar por quê.

Fechou a porta e retornou a São Paulo.

Durante meses continuou vivendo normalmente.

Até que a empresa anunciou uma grande reestruturação.

Daniel seria transferido para outro país.

Era uma oportunidade importante.

Anos antes, teria aceitado antes mesmo de ouvir o salário.

Naquela noite contou a Mariana.

— O que você quer fazer? — ela perguntou.

— Não sei.

— Desde quando você não sabe?

Daniel sorriu.

— Acho que estou aprendendo.

Os filhos já tinham a própria vida.

Mariana podia trabalhar de qualquer lugar.

Pela primeira vez, Daniel percebeu que não precisava continuar avançando apenas porque existia

estrada pela frente.

Recusou a transferência.

Meses depois deixou a empresa.

Os colegas ficaram surpresos.

— Vai fazer o quê?

Daniel respondia:

— Ainda não sei.

E, estranhamente, aquilo já não o assustava.

Quase um ano após a morte do pai, decidiu voltar à cidade.

Não para morar definitivamente.

Pelo menos não era o plano.

Queria apenas organizar a oficina.

Foi assim que acabou dirigindo naquela tarde, vinte e sete anos depois da primeira grande

partida, pela estrada que conhecia desde criança.

Ao chegar, abriu a porta da oficina.

Havia poeira.

Daniel passou o dia limpando.

No dia seguinte também.

No terceiro, um menino apareceu empurrando uma bicicleta.

Devia ter uns doze anos.

— Está aberto?

Daniel olhou para a porta.

Nem percebera que havia deixado a placa virada para a rua.

ABERTO.

— Mais ou menos.

— A corrente caiu.

Daniel quase respondeu que não sabia consertar.

Mas sabia.

O pai ensinara quando ele tinha dez anos.

Colocou a bicicleta sobre o suporte.

As mãos lembraram antes da cabeça.

Poucos minutos depois, estava pronta.

— Quanto é?

Daniel pensou.

— Nada.

O menino saiu pedalando.

No dia seguinte apareceu outra pessoa.

Depois outra.

A notícia correu de que a antiga oficina estava aberta novamente.

Daniel não corrigiu ninguém.

Ficou uma semana.

Depois duas.

Mariana foi visitá-lo.

Encontrou o marido sentado diante da oficina, tomando café.

— Então é isso?

— Isso o quê?

— Você voltou.

Daniel olhou para a rua.

— Acho que ainda estou chegando.

Ela sentou-se ao lado.

Meses depois, transformaram a antiga oficina.

Mantiveram a bancada de Osvaldo e as ferramentas.

Mas ampliaram o espaço.

Passaram a restaurar bicicletas antigas e oferecer oficinas gratuitas para crianças.

Lucas ajudou a criar o site.

Beatriz cuidou das redes sociais.

Na parede, Daniel pendurou uma fotografia dos pais.

Não escreveu homenagem.

Não precisava.

Certa tarde, um garoto perguntou:

— Seu Daniel, o senhor sempre morou aqui?

Ele sorriu.

— Não.

— Onde morava?

— Em muitos lugares.

— E por que voltou?

Daniel olhou para a estrada diante da oficina.

Durante anos imaginara que aquela estrada servia para levá-lo embora.

Demorou quase três décadas para descobrir que estradas têm dois sentidos.

— Porque eu precisava ir longe.

O menino não entendeu.

— Para quê?

Daniel sorriu.

— Para descobrir onde queria voltar.

Naquela noite fechou a oficina.

O céu estava ficando vermelho atrás das montanhas.

Caminhou até a antiga casa dos pais.

Sentou-se na varanda.

Pensou em Irene.

Pensou em Osvaldo.

Pensou no rapaz que um dia saíra dali convencido de que o mundo começava depois daquela

cidade.

Não se arrependia de ter partido.

A estrada lhe dera uma profissão.

Uma mulher que amava.

Dois filhos.

Amigos.

Viagens.

Erros.

Conquistas.

Perdas.

Tudo aquilo também era sua vida.

O erro nunca fora ir embora.

O erro havia sido acreditar que seguir em frente significava não olhar para trás.

Daniel finalmente compreendia que existem caminhos que percorremos para chegar a lugares

novos.

E existem outros que precisamos percorrer para compreender os lugares antigos.

Às vezes são a mesma estrada.

Só muda a direção.

Levantou-se.

Ao longe, as primeiras luzes da cidade começaram a acender.

Daniel caminhou de volta para a oficina sem pressa.

Passara boa parte da vida procurando o próximo destino.

Agora sabia que algumas das viagens mais importantes não terminam quando chegamos a um

lugar desconhecido.

Terminam quando, depois de atravessar o mundo, encontramos novamente o caminho de casa.

CAMINHONEIRO