Toda canção pode esconder uma história.
Primeiro, a história. Depois, a canção.
Reflexões sobre a Vida

A Lista de Augusto

A história que poderia ter existido antes de uma canção

Augusto encontrou a lista por acaso.

Estava procurando a garantia de uma televisão quando abriu uma caixa de documentos antigos.

Contas pagas.

Escrituras.

Manuais.

Fotografias.

No fundo havia uma folha dobrada quatro vezes.

Reconheceu a letra imediatamente.

Era dele.

No alto estava escrito:

“Coisas que vou fazer antes dos 50.”

Augusto sentou-se.

Tinha sessenta e sete.

Abriu o papel.

Havia doze itens.

Conhecer o mar do Nordeste.

Aprender a cozinhar.

Comprar uma motocicleta.

Levar o pai para pescar.

Dançar com Helena.

Plantar uma árvore.

Fazer uma viagem sozinho.

Voltar a jogar futebol.

Aprender espanhol.

Ver o nascer do sol numa montanha.

Dizer mais vezes o que sinto.

Trabalhar menos.

Augusto leu novamente.

Depois pegou uma caneta.

Começou a marcar.

Plantar uma árvore.

Feito.

Havia plantado uma jabuticabeira quando nasceu a primeira neta.

Parou.

Era o único.

Dos doze sonhos que escrevera aos quarenta e dois anos, havia realizado um.

Augusto olhou para o papel.

— Que beleza.

Dobrou novamente.

Pensou em guardar.

Mas alguma coisa o impediu.

Colocou a lista sobre a mesa.

Naquela noite, ela continuava ali.

Como se estivesse esperando uma explicação.

Augusto passara a vida inteira sendo considerado um homem responsável.

E era.

Começou a trabalhar aos dezessete anos.

Casou-se aos vinte e quatro.

Aos vinte e seis nasceu Ricardo.

Aos vinte e nove, Paula.

Comprou casa.

Pagou prestações.

Trabalhou numa empresa de equipamentos industriais por trinta e nove anos.

Nunca foi demitido.

Nunca ficou endividado.

Nunca deixou faltar comida.

Nunca fez grandes loucuras.

Quando alguém dizia:

— Augusto é um homem sério.

Ele gostava.

Levou décadas para perceber que talvez tivesse levado a palavra sério longe demais.

Helena, sua mulher, era diferente.

Gostava de música.

Dançava enquanto arrumava a casa.

Inventava viagens.

Mudava móveis de lugar.

Comprava flores sem motivo.

Quando eram jovens, dizia:

— Vamos sair?

Augusto perguntava:

— Para onde?

— Não sei.

— Então como vamos sair?

— Descobrimos.

Ele achava aquilo absurdo.

Precisava saber onde.

Quanto custaria.

Que horas voltariam.

Com quem.

Helena ria.

— Um dia ainda vou ensinar você a fazer alguma coisa sem planejar.

Não conseguiu.

Ou talvez não tivesse tido tempo.

A lista fora escrita depois de uma festa de aniversário.

Augusto completara quarenta e dois anos.

Um amigo perguntou:

— Se pudesse fazer qualquer coisa, o que faria?

A conversa virou brincadeira.

Todos começaram a falar.

Um queria saltar de paraquedas.

Outro conhecer a Itália.

Helena disse:

— Eu queria dançar com meu marido sem precisar arrastá-lo.

Todos riram.

Augusto também.

Mais tarde, em casa, escreveu a lista.

Helena encontrou.

— “Dançar com Helena”?

— Você reclamou.

— Não quero que dance comigo porque está numa lista.

— Então para que reclamou?

Ela riu.

— Você é impossível.

Guardaram o papel.

E a vida continuou.

Aos quarenta e seis anos, Augusto foi promovido.

Aos quarenta e nove, compraram uma casa maior.

Aos cinquenta, Ricardo se casou.

Aos cinquenta e dois, nasceu a primeira neta.

Aos cinquenta e quatro, Helena sugeriu:

— Vamos conhecer o Nordeste?

— Agora?

— Sim.

— Estou numa fase complicada na empresa.

— Nas férias.

— Talvez no ano que vem.

— Você sempre tem um ano que vem.

Foram para outro lugar, mais perto.

Augusto esqueceu a conversa.

Helena provavelmente não.

Aos cinquenta e nove, o pai de Augusto morreu.

Seu Antônio tinha oitenta e três.

Morreu enquanto dormia.

No velório, Augusto ouviu um primo dizer:

— Seu pai sempre falava que queria pescar com você de novo.

A frase atingiu-o.

Quando menino, Augusto pescava com o pai quase todos os domingos.

Depois começou a trabalhar.

Casou.

Vieram os filhos.

As pescarias ficaram raras.

Certa vez, Antônio telefonou:

— Vamos pescar sábado?

— Este sábado não dá.

— Próximo?

— Eu vejo.

Nunca viram.

Augusto lembrou-se da lista.

“Levar o pai para pescar.”

Mas não sabia onde estava o papel.

Pensou nisso durante alguns dias.

Depois a rotina voltou.

Helena morreu cinco anos mais tarde.

Câncer.

Dessa vez houve tempo para saber que o fim se aproximava.

E talvez isso tenha sido ainda mais difícil.

Durante os últimos meses, Augusto tornou-se o homem que sempre deveria ter permitido existir.

Cancelava compromissos.

Cozinhava mal.

Dormia numa cadeira ao lado dela.

Segurava sua mão.

Dizia que a amava.

Falava.

Finalmente falava.

Uma tarde, Helena perguntou:

— Por que demorou tanto?

— Para quê?

— Para ficar assim.

Augusto tentou brincar.

— Assim como?

— Presente.

A palavra ficou entre eles.

Ele abaixou os olhos.

— Desculpe.

Helena apertou sua mão.

— Não estou cobrando.

— Parece.

— Estou dizendo para você não esquecer depois.

— Esquecer o quê?

— De viver.

Augusto sentiu raiva.

Não dela.

Da conversa.

— Não fala assim.

— Augusto.

— Você vai melhorar.

Helena olhou para ele com uma ternura que quase doía.

— Nós dois sabemos que não.

Ele chorou.

Ela também.

Depois Helena perguntou:

— Dança comigo?

Augusto olhou para ela.

Estava fraca.

— Agora?

— Agora.

— Você mal consegue ficar em pé.

— Então dança devagar.

Colocou uma música.

Ajudou Helena a levantar.

Ficaram abraçados no meio do quarto.

Quase não se moviam.

Foi a primeira vez que Augusto realmente dançou com a mulher depois de quarenta anos de

casamento.

Também foi a última.

Helena morreu dezessete dias depois.

Augusto passou os três anos seguintes existindo.

Não vivendo.

Existindo.

Acordava.

Comia.

Assistia televisão.

Visitava os filhos.

Voltava.

Dormia.

Recusava convites.

— Não tenho vontade.

As pessoas entendiam.

No primeiro ano.

No segundo.

Depois começaram a insistir.

Paula dizia:

— Mãe ficaria brava.

— Sua mãe não está aqui.

— Justamente.

Ele encerrava o assunto.

Até encontrar a lista.

Agora ela estava sobre a mesa.

Augusto pegou a caneta.

Ao lado de “Dançar com Helena”, fez um pequeno risco.

Não colocou um visto.

Escreveu:

“Uma vez.”

Ficou olhando.

Depois, ao lado de “Levar o pai para pescar”, escreveu:

“Não dá mais.”

Sentiu os olhos molharem.

Havia coisas que o tempo ainda permitia.

E coisas que não.

Essa talvez fosse a diferença que nunca entendera.

Na manhã seguinte, telefonou para Ricardo.

— Filho, você sabe cozinhar?

— Sei alguma coisa.

— Sua mãe ensinou?

— Algumas receitas.

— Quero aprender.

Ricardo ficou em silêncio.

— Pai?

— O quê?

— Está tudo bem?

— Está.

— Tem certeza?

— Só quero aprender a cozinhar.

No sábado, fizeram macarrão.

Augusto cortou cebola errado.

Queimou o molho.

Reclamou.

Ricardo começou a rir.

— Qual a graça?

— O senhor parece a mãe quando eu tentava ajudar.

Augusto parou.

— Ela fazia isso com você?

— Direto.

Continuaram cozinhando.

O molho ficou ruim.

Comeram mesmo assim.

Augusto marcou o segundo item.

Aprender a cozinhar.

Não colocou visto.

Escreveu:

“Comecei.”

Gostou mais.

Duas semanas depois, Paula telefonou.

— Vamos para Bahia em julho.

— Quem?

— Eu, as meninas e o Marcos.

Augusto quase respondeu que não gostava de viajar em grupo.

Depois olhou para a lista.

— Tem lugar para mais um?

Paula demorou alguns segundos.

— Pai?

— Você vai perguntar toda vez se estou bem?

Ela começou a rir.

— Vai conosco?

— Vou.

Na Bahia, Augusto viu o mar de uma cor que nunca imaginara.

Entrou na água.

Ficou parado.

A neta perguntou:

— Vô, está chorando?

— Água do mar.

— O senhor está de costas para o mar.

— Vento.

Ela riu.

Augusto também.

Naquela noite marcou:

Conhecer o mar do Nordeste.

Dessa vez colocou um visto.

A lista começou a mudar.

“Voltar a jogar futebol” tornou-se impossível para seus joelhos.

Augusto substituiu por:

“Assistir a um jogo com meus antigos amigos.”

Fez.

“Aprender espanhol.”

Matriculou-se num curso.

Era o aluno mais velho da turma.

“Fazer uma viagem sozinho.”

Pegou o carro e foi até Minas Gerais.

Não foi longe.

Mas foi.

“Ver o nascer do sol numa montanha.”

Fez com Paula.

Ela reclamou durante toda a subida.

— Isso estava na sua lista, não na minha.

Quando o sol apareceu, ficou em silêncio.

Augusto perguntou:

— Valeu?

— Não se acostume.

A motocicleta virou discussão familiar.

— Nem pensar — disse Ricardo.

— Tenho sessenta e oito anos.

— Exatamente.

— A lista é minha.

— E o enterro vai ser nosso.

Augusto riu tanto que desistiu da motocicleta.

No papel escreveu:

“Algumas ideias envelhecem pior que a gente.”

Restavam dois itens.

“Dizer mais vezes o que sinto.”

“Trabalhar menos.”

O segundo parecia estranho.

Já estava aposentado.

Então percebeu que aquele item nunca fora apenas sobre emprego.

Passara a vida transformando tudo em tarefa.

Até a aposentadoria.

Começou a permitir dias sem objetivo.

No início, sentia culpa.

Depois descobriu o prazer de não produzir nada.

O primeiro era mais difícil.

Dizer o que sentia.

Ligou para Ricardo.

— Tenho orgulho de você.

Silêncio.

— Pai, aconteceu alguma coisa?

— Não.

— Está doente?

— Não.

— Então por que está falando isso?

Augusto quase desistiu.

— Porque devia ter falado antes.

Ricardo ficou quieto.

Depois respondeu:

— Obrigado.

Augusto ouviu a voz do filho mudar.

— Também tenho orgulho do senhor.

Desligaram.

Augusto permaneceu sentado por alguns minutos.

Uma frase.

Quase nada.

Por que passara tantos anos economizando palavras como se fossem dinheiro?

Fez o mesmo com Paula.

Com o irmão.

Com amigos.

Nem sempre dizia “eu amo você”.

Às vezes era:

“Você foi importante para mim.”

“Obrigado por ter ficado.”

“Eu estava errado.”

“Desculpe.”

“Estou com saudade.”

Descobriu que sentimentos falados não diminuíam ninguém.

Ao contrário.

Algumas conversas pareciam retirar pesos que as pessoas carregavam havia décadas.

Aos setenta anos, reuniu os filhos e netos para um almoço.

Depois da sobremesa, Sofia, a neta mais velha, encontrou a lista presa na geladeira.

— O que é isso?

— Minha lista.

Ela leu.

— O senhor fez tudo?

— Não.

— Então ainda falta.

Augusto sorriu.

— Sempre vai faltar alguma coisa.

— Então a lista não acaba?

Ele pensou.

— Espero que não.

Pegou uma folha nova.

— Vamos fazer outra.

— Para antes dos oitenta?

Augusto balançou a cabeça.

— Não.

Escreveu no alto:

“Coisas que ainda quero viver.”

Sofia sentou-se ao lado.

— Coloca conhecer Japão.

— Muito longe.

— Você foi até a Bahia.

— Não é a mesma coisa.

— Está com medo?

Augusto olhou para ela.

A provocação funcionou.

Escreveu:

“Conhecer o Japão.”

A neta comemorou.

— Agora coloca aprender a fazer sushi.

— Uma coisa de cada vez.

Naquela noite, depois que todos foram embora, Augusto ficou sozinho.

Pegou a primeira lista.

A velha.

Algumas coisas tinham vistos.

Outras comentários.

Duas jamais poderiam ser realizadas.

O pai não voltaria para pescar.

Helena não voltaria para dançar.

Esses espaços permaneceriam.

E Augusto finalmente aceitava isso.

Viver não significava conseguir corrigir tudo.

Algumas oportunidades realmente passam.

Algumas portas fecham.

Algumas pessoas partem antes que consigamos dizer tudo.

Não havia lição bonita capaz de mudar essa realidade.

O que havia era o tempo que restava.

Augusto foi até o quintal.

A jabuticabeira que plantara anos antes estava grande.

Sentou-se perto dela.

Pensou em Helena.

Naquela última dança.

Por muito tempo lembrara daquele momento com arrependimento.

Por que não dançaram mais?

Por que precisaram esperar tanto?

Naquela noite percebeu outra coisa.

Tinham dançado.

Uma vez.

Pouco.

Tarde.

Mas dançaram.

Nem toda lembrança precisava ser transformada numa acusação contra o passado.

Algumas podiam simplesmente ser guardadas.

A vida de Augusto não se tornou extraordinária.

Não largou tudo.

Não atravessou o mundo numa aventura.

Não descobriu uma fórmula para felicidade.

Continuou tendo dias ruins.

Sentia dores.

Perdia pessoas.

Preocupava-se.

Às vezes ainda recusava convites porque preferia ficar em casa.

A diferença era outra.

Agora perguntava a si mesmo:

Estou dizendo não porque realmente não quero ou porque estou novamente deixando a

vida para depois?

Essa pergunta mudou muita coisa.

Durante décadas, Augusto acreditara que arrependimento era olhar para trás e desejar ter feito

escolhas diferentes.

Descobriu que havia uma forma mais útil de arrependimento.

Aquela que olha para trás apenas o suficiente para mudar a direção do próximo passo.

O passado não precisava ser reescrito.

Não podia.

Mas ainda podia ensinar.

Augusto pegou a lista nova.

No final havia um espaço em branco.

Pensou em escrever alguma coisa.

Desistiu.

Deixou vazio de propósito.

Porque finalmente aprendera que uma vida inteira não cabe numa lista.

Algumas das melhores coisas talvez ainda acontecessem sem planejamento algum.

Dobrou o papel.

Depois mudou de ideia.

Não guardou numa caixa.

Colocou novamente na geladeira.

Onde pudesse vê-lo todos os dias.

Não como cobrança.

Nem como contagem regressiva.

Mas como lembrete.

Ainda havia gente para abraçar.

Lugares para conhecer.

Conversas para ter.

Erros para cometer.

Talvez novos amores.

Certamente novas despedidas.

Enquanto houvesse amanhã, haveria possibilidades.

Mas Augusto já não queria depender demais dele.

Levantou-se.

Pegou o telefone.

Havia um amigo para quem prometera ligar fazia algumas semanas.

Procurou o número.

Dessa vez não pensou:

“Depois eu ligo.”

Ligou.

COMO UMA ONDE

Agora vamos para a 3ª história de Reflexões sobre a Vida, inspirada em “Como Uma Onda”

— Lulu Santos.

Nesta história, o centro será a mudança. Um homem passa a vida tentando manter tudo

exatamente como conhece — a casa, o trabalho, os filhos, os hábitos — até descobrir que

algumas coisas não acabam quando mudam. Apenas encontram outra forma de continuar.