Durante quarenta e dois anos, Augusto trabalhou numa estação ferroviária.
Nesse tempo, viu milhares de pessoas chegarem e partirem.
Aprendeu que quem chega olha primeiro para os rostos.
Quem parte olha para trás.
E que uma estação de trem talvez seja um dos poucos lugares do mundo onde a felicidade e a
tristeza conseguem ocupar a mesma plataforma ao mesmo tempo.
Augusto tinha vinte e três anos quando começou.
A Estação de Santa Amélia era pequena, mas movimentada. Três plataformas, uma bilheteria,
sala de espera, lanchonete e um grande relógio redondo pendurado acima da entrada.
O primeiro trem passava às seis e vinte da manhã.
O último, pouco depois das dez da noite.
Augusto começou vendendo bilhetes.
Depois passou a trabalhar nas plataformas.
Gostava mais.
— Por quê? — perguntou certa vez seu chefe.
Augusto pensou.
— Aqui acontece mais coisa.
O homem riu.
— Trem chegando e trem saindo.
— Justamente.
Na época, Augusto ainda não sabia quantas vidas cabiam entre uma chegada e uma partida.
Foi na plataforma número três que conheceu Clara.
Ela apareceu numa terça-feira de março, carregando uma mala vermelha e uma gaiola coberta
por um pano.
— Moço, o trem para Belo Horizonte sai daqui?
— Plataforma dois.
Ela olhou para a placa.
Depois para Augusto.
— Então por que está escrito três no bilhete?
Ele pegou a passagem.
— Porque seu trem é amanhã.
Clara ficou imóvel.
— Amanhã?
— Quarta-feira.
— Hoje é quarta.
— Hoje é terça.
Ela olhou para o relógio.
Depois para a própria passagem.
Começou a rir.
Augusto também.
— Viajei um dia antes.
— Pelo menos não perdeu o trem.
— Isso é verdade.
Ela explicou que vinha de uma fazenda a quase quarenta quilômetros dali. O pai a deixara na
estação e já havia voltado.
Não existia telefone em casa.
— E agora?
Augusto indicou uma pensão perto da praça.
— Dona Margarida aluga quarto.
Clara olhou para a gaiola.
— Aceita passarinho?
— Isso eu não sei.
Debaixo do pano havia um canário.
— É seu?
— Da minha tia. Estou levando para ela.
Augusto ajudou com a mala.
No dia seguinte, Clara voltou.
Dessa vez na data certa.
— Hoje é quarta? — perguntou.
— Conferi duas vezes.
Ela sorriu.
Antes de embarcar, agradeceu.
— Volto no mês que vem.
Augusto não perguntou por quê.
Mas passou o mês inteiro lembrando.
Clara voltou.
Estudava enfermagem em Belo Horizonte e visitava a família sempre que podia.
A partir daí, Augusto começou a reconhecer seus horários.
Algumas vezes ela chegava sexta à noite.
Partia domingo.
Outras ficava uma semana.
Conversavam poucos minutos.
Sobre o curso.
Sobre a cidade.
Sobre o trabalho na estação.
Até que, numa tarde, o trem atrasou quase duas horas.
Clara sentou-se num banco.
Augusto estava terminando o turno.
— Café? — perguntou.
— Aceito.
Foram à lanchonete.
Conversaram até o trem chegar.
Quando o alto-falante anunciou o embarque, Clara levantou-se.
— Acho que foi a primeira vez que fiquei feliz com um trem atrasado.
Augusto sorriu.
— Eu também.
Meses depois começaram a namorar.
O namoro tinha o ritmo dos trens.
Encontro.
Despedida.
Espera.
Encontro novamente.
Augusto aprendeu que sexta-feira podia ser uma promessa e domingo podia chegar rápido
demais.
Quando Clara se formou, recebeu proposta para trabalhar num hospital em Belo Horizonte.
— Aceita — disse Augusto.
— E nós?
— Continuamos.
— Até quando?
Ele não soube responder.
Clara aceitou.
Durante dois anos viveram assim.
Até que Augusto pediu transferência.
Não conseguiu.
Então tomou outra decisão.
— Caso comigo.
Clara riu.
— Isso resolve a transferência?
— Não.
— Então por quê?
— Porque estou cansado de me despedir de você como namorado.
Casaram-se.
Clara conseguiu trabalho no hospital de uma cidade próxima e passou a morar em Santa Amélia.
Pela primeira vez, Augusto podia vê-la todos os dias.
Achou estranho.
Depois achou maravilhoso.
Vieram os filhos.
Primeiro Luís.
Depois Marina.
Os dois cresceram conhecendo a estação.
Quando pequenos, esperavam o pai terminar o turno sentados num banco da plataforma três.
Augusto inventava histórias sobre passageiros.
— Aquele homem ali é explorador.
— Não é, pai — dizia Luís.
— Como sabe?
— Está usando terno.
— Exploradores também têm reunião.
Marina apontava para uma senhora.
— E ela?
— Está indo encontrar um grande amor.
— Como sabe?
— Pela mala.
— O que a mala tem?
— Nada. Estou inventando.
As crianças riam.
Para elas, a estação era extensão da casa.
Até crescerem.
Então passou a ser saída.
Luís foi o primeiro.
Recebeu uma vaga numa universidade em Campinas.
Clara ficou orgulhosa.
Augusto também.
Mas, no dia da viagem, descobriu que despedidas eram muito diferentes quando a pessoa na
plataforma era seu filho.
Luís tinha dezoito anos.
Duas malas.
Uma mochila.
E a segurança exagerada de quem nunca morara sozinho.
— Cuidado com seus documentos — disse Clara.
— Mãe, eu sei.
— E liga quando chegar.
— Ligo.
Augusto permanecia calado.
Luís olhou para ele.
— Pai?
— O quê?
— Vai falar alguma coisa?
Augusto pensou.
Durante décadas observara despedidas.
Deveria saber o que dizer.
Não sabia.
— Não perca o trem.
Luís começou a rir.
— Grande conselho.
O trem chegou.
Abraços.
Recomendações.
Depois o filho embarcou.
Augusto ficou olhando pela janela.
Quando o trem começou a andar, Luís acenou.
Clara chorava.
Augusto segurou sua mão.
A composição desapareceu na curva.
Pela primeira vez, a plataforma pareceu vazia.
— É assim todos os dias? — Clara perguntou.
— O quê?
— Isso.
Augusto olhou para os trilhos.
— É.
— E você nunca se acostumou?
Ele pensou.
— Com as despedidas dos outros, sim.
Dois anos depois foi a vez de Marina.
Conseguiu trabalho em Brasília.
Dessa vez Augusto tentou preparar-se.
Não adiantou.
Ela partiu da mesma plataforma.
Clara chorou novamente.
Augusto também.
Discretamente.
A casa ficou silenciosa.
Durante meses, o casal precisou aprender uma nova rotina.
— Fiz comida demais — Clara dizia.
— Congela.
— Não gosto de congelar.
— Então fazemos filhos de novo.
Clara olhava para ele.
— Aos cinquenta e seis?
— Talvez seja melhor congelar.
Ela ria.
Os filhos voltavam nos feriados.
E cada retorno transformava a estação.
Augusto sabia o horário.
Mesmo quando não estava trabalhando, aparecia.
Ficava na plataforma.
Quando o trem surgia na curva, sentia algo difícil de explicar.
Talvez por isso gostasse tanto das chegadas.
Elas devolviam, ainda que temporariamente, aquilo que as partidas levavam.
Com o tempo, a ferrovia perdeu passageiros.
Vieram ônibus mais rápidos.
Carros.
Aviões mais acessíveis.
Algumas linhas foram canceladas.
A estação ficou mais silenciosa.
Augusto acompanhou tudo.
Viu a lanchonete fechar.
Depois a bilheteria diminuiu o horário.
Um dia anunciaram que o transporte de passageiros seria encerrado naquela linha.
Restariam apenas trens de carga.
Augusto recebeu a notícia como se alguém lhe dissesse que uma parte da cidade desapareceria.
— E agora? — perguntou Clara.
— Agora eu me aposento.
Ele já tinha idade.
Mas imaginara sair antes da estação, não junto com ela.
O último trem de passageiros partiria num domingo.
A prefeitura decidiu fazer uma pequena cerimônia.
Vieram antigos funcionários.
Moradores.
Fotógrafos.
Gente que não viajava de trem havia vinte anos apareceu para se despedir.
Augusto vestiu o uniforme.
Clara perguntou:
— Precisava?
— Hoje precisava.
A plataforma número três ficou cheia.
Alguém levou uma banda.
Crianças corriam.
Idosos contavam histórias.
Augusto reconhecia alguns rostos.
Outros não.
Então ouviu:
— Senhor Augusto?
Virou-se.
Uma mulher de aproximadamente cinquenta anos segurava uma fotografia.
— O senhor trabalhava aqui em 1984?
— Trabalhava.
Ela mostrou a foto.
Nela havia uma jovem com um bebê no colo, diante de um trem.
— Minha mãe.
Augusto observou.
— Ela viajou daqui comigo quando eu tinha três meses. Estava deixando meu pai.
Augusto não sabia o que dizer.
A mulher continuou:
— Ela dizia que um funcionário ajudou a carregar as malas e ficou com o bebê enquanto ela
comprava a passagem.
Augusto olhou novamente.
Uma lembrança distante apareceu.
Uma jovem chorando.
Muitas malas.
Um bebê.
— Talvez tenha sido eu.
A mulher sorriu.
— Ela sempre disse que aquele homem foi a primeira pessoa gentil com ela no pior dia da vida.
Augusto ficou emocionado.
— Como ela está?
— Morreu há dois anos.
Silêncio.
— Eu só queria agradecer.
A mulher se afastou.
Augusto permaneceu parado.
Nunca se lembrara daquele episódio.
Para ele, tinha sido provavelmente um gesto de alguns minutos.
Para outra pessoa, tornara-se uma lembrança de quase quarenta anos.
Naquele instante compreendeu que havia participado de milhares de histórias sem conhecer o
final de quase nenhuma.
O alto-falante anunciou a chegada do último trem.
Todos se aproximaram.
Augusto olhou para Clara.
— Lembra da primeira vez?
— Da gaiola?
— Você chegou um dia antes.
— Melhor coisa que fiz.
O trem entrou lentamente.
Portas se abriram.
Passageiros desceram.
Outros embarcaram.
Abraços.
Fotografias.
Choro.
Exatamente como sempre.
A última viagem não era diferente das outras para quem estava partindo.
Mas era diferente para quem ficava.
O maquinista cumprimentou Augusto.
— Pronto?
Ele assentiu.
Coube a ele dar o sinal.
Augusto ergueu a bandeira.
Por um instante hesitou.
Quarenta e dois anos.
Quantas vezes fizera aquele movimento?
Milhares.
Baixou a bandeira.
O trem começou a andar.
As pessoas acenaram.
Augusto também.
Observou até o último vagão desaparecer.
Depois olhou para os trilhos vazios.
Terminara.
Clara aproximou-se.
— Vamos para casa?
Augusto respirou fundo.
— Vamos.
A aposentadoria foi mais difícil do que esperava.
Durante semanas acordava no horário do primeiro trem.
Às seis e vinte, olhava para o relógio.
Imaginava o barulho.
Depois lembrava que não haveria trem.
Começou a caminhar pela cidade.
Passava frequentemente diante da estação.
As portas estavam fechadas.
Até que a prefeitura anunciou que transformaria o prédio num pequeno centro cultural.
Augusto foi convidado a ajudar na organização do acervo.
Aceitou imediatamente.
Encontraram bilhetes antigos.
Uniformes.
Fotografias.
Malas esquecidas.
Placas.
Relógios.
A plataforma três foi preservada.
Um banco também.
Augusto sentou-se nele no dia da inauguração.
Clara ao lado.
— Engraçado — ele disse.
— O quê?
— Passei a vida vendo pessoas indo embora daqui.
— E agora?
Augusto olhou para as crianças visitando o antigo vagão colocado em exposição.
— Agora elas vêm para lembrar.
Alguns anos depois, Clara adoeceu.
Dessa vez não houve viagem.
Não houve plataforma.
Não houve anúncio de partida.
A doença avançou lentamente.
Augusto cuidou dela em casa.
Numa tarde, sentados na varanda, Clara perguntou:
— Você tem medo?
Ele sabia do que ela falava.
— Tenho.
— Eu também.
Ficaram em silêncio.
Depois ela sorriu.
— Engraçado.
— O quê?
— Nossa vida começou numa estação.
Augusto segurou sua mão.
— Você chegou no dia errado.
— Talvez tenha sido o dia certo.
Clara morreu numa madrugada de junho.
Depois de cinquenta e três anos de casamento.
Augusto tinha oitenta anos.
Pela primeira vez, enfrentava uma despedida sem a promessa de um horário de volta.
Meses depois, voltou à antiga estação.
Sentou-se na plataforma três.
Estava sozinho.
O relógio continuava pendurado na parede, embora já não funcionasse.
Augusto fechou os olhos.
Conseguiu ouvir tudo.
O apito.
As rodas sobre os trilhos.
As vozes.
Os vendedores.
As crianças.
Clara rindo porque chegara um dia antes.
Os filhos partindo.
Os filhos voltando.
Milhares de passos.
Milhares de histórias.
Abriu os olhos.
Um homem jovem estava sentado no outro lado da plataforma com uma mala.
Parecia triste.
— Esperando alguém? — perguntou Augusto.
— Não. Minha esposa vem me buscar. Estamos nos mudando.
— Para longe?
— Bastante.
O rapaz olhou ao redor.
— Cresci aqui. É estranho ir embora.
Augusto sorriu.
— É.
— O senhor já foi embora daqui?
Ele pensou.
— Muitas vezes.
O rapaz olhou surpreso.
— E sempre voltou?
Augusto observou os trilhos.
— De um jeito ou de outro.
Quando saiu da estação, caminhou devagar.
Havia passado a vida inteira acreditando que seu trabalho era organizar partidas e chegadas.
Horários.
Bilhetes.
Plataformas.
Sinais.
Mas agora compreendia que nenhuma estação controla verdadeiramente quem chega ou quem
parte.
Assim como ninguém controla completamente as pessoas que entram e saem de nossa vida.
Algumas permanecem durante minutos.
Outras durante décadas.
Há quem chegue sem avisar.
Há quem parta cedo demais.
Algumas pessoas voltam.
Outras seguem.
E existem aquelas que, mesmo depois de partir, continuam viajando conosco.
Augusto parou diante da plataforma número três.
Ali conhecera Clara.
Ali seus filhos haviam partido.
Ali os vira voltar tantas vezes.
Sorriu.
Talvez a vida se parecesse mais com uma estação do que imaginara quando jovem.
Estamos sempre chegando a alguma coisa enquanto nos despedimos de outra.
De lugares.
De pessoas.
De versões de nós mesmos.
E talvez o segredo não seja tentar impedir as partidas.
Nem viver apenas esperando as chegadas.
Talvez seja estar verdadeiramente presente durante o tempo em que alguém divide conosco a
mesma plataforma.
Porque nenhum encontro vem com a garantia de quanto vai durar.
E justamente por isso alguns deles acabam durando para sempre.
VIDA DE VIAJANTE
Seguimos para a 4ª história de Estradas e Viagens, inspirada em “Vida de Viajante” — Luiz
Gonzaga e Hervê Cordovil.
Desta vez, a história acompanha um homem que passou quase toda a vida viajando e acreditando
que sua liberdade estava justamente em não pertencer a lugar algum — até descobrir que talvez
exista uma diferença entre não criar raízes e não ter para onde voltar.