Toda canção pode esconder uma história.
Primeiro, a história. Depois, a canção.
Sertão e Interior

A Última Travessia de Miguel

A história que poderia ter existido antes de uma canção

Durante trinta e sete anos, Miguel atravessou o mesmo rio.

Conhecia suas curvas, seus bancos de areia e os lugares onde a correnteza parecia tranquila, mas escondia força suficiente para arrastar um homem.

Sabia onde os peixes se abrigavam quando o sol estava alto.

Sabia quando uma tempestade chegaria apenas observando a cor da água.

E sabia, pelo barulho do vento nas folhas da margem, quando era melhor amarrar a embarcação e esperar.

O rio Paraguai lhe ensinara quase tudo o que sabia.

Menos uma coisa.

Como impedir alguém de partir.

Miguel tinha dezenove anos quando subiu pela primeira vez numa chalana.

Seu pai havia morrido no ano anterior, deixando para a família uma casa pequena, algumas dívidas e a certeza de que alguém precisaria trabalhar.

Um conhecido conseguiu-lhe serviço numa embarcação que transportava mantimentos, ferramentas, sacos de farinha, querosene e passageiros entre propriedades espalhadas pelo Pantanal.

Miguel aceitou.

No primeiro dia, enjoou.

No segundo também.

O comandante, seu Anselmo, achou graça.

— Desse jeito você vai devolver no rio tudo que comer.

Miguel respondeu:

— Uma hora acaba.

— O quê?

— A comida.

Anselmo riu.

Gostou do rapaz.

Algumas semanas depois, o enjoo desapareceu.

Meses depois, Miguel já ajudava nas manobras.

Anos depois, conhecia aquele trecho do rio melhor que muitos homens que haviam nascido às suas margens.

Foi numa dessas viagens que conheceu Helena.

Ela apareceu numa manhã de setembro.

Tinha vinte anos e carregava uma mala azul.

Miguel lembraria daquela mala pelo resto da vida.

Helena estava no pequeno porto acompanhada da mãe. As duas conversavam baixo.

Quando chegou a hora do embarque, a mãe abraçou a filha demoradamente.

— Escreva.

— Vou escrever.

— Toda semana.

— Toda semana é muito.

— Então duas vezes por semana.

Helena riu.

— A senhora está piorando a negociação.

Miguel, que carregava caixas para a chalana, sorriu.

Helena percebeu.

— Está achando graça?

Ele ficou sério imediatamente.

— Não, senhora.

— Senhora é minha mãe.

A mãe olhou para Miguel.

— E você não dê confiança.

Helena embarcou.

Miguel carregou sua mala.

— Cuidado — ela disse. — Tem coisa importante aí.

— Parece pesada.

— Coisa importante costuma ser.

Ele não entendeu.

Mais tarde descobriria que a mala carregava livros.

Helena estava indo trabalhar como professora numa pequena escola de uma comunidade ribeirinha.

A viagem demoraria quase dois dias.

Na primeira tarde, Helena permaneceu sentada perto da proa observando a paisagem.

Árvores.

Água.

Pássaros.

De vez em quando alguma casa isolada.

Miguel trabalhava, mas encontrava motivos para passar perto.

Na quarta vez, ela perguntou:

— Você perdeu alguma coisa?

— Não.

— Então por que fica passando aqui?

Miguel pensou.

— Meu trabalho é andar pelo barco.

— Interessante.

— O quê?

— Toda vez que seu trabalho manda andar, manda justamente para este lado.

Ele ficou vermelho.

Helena riu.

No fim da tarde, começaram a conversar.

Ela lhe contou que gostava de ensinar.

Ele contou que havia abandonado a escola aos treze anos.

— Por quê?

— Precisava trabalhar.

— Gostava de estudar?

Miguel deu de ombros.

— Nunca pensei.

— Devia pensar.

— Agora?

— Principalmente agora.

Naquela noite, Helena pegou um dos livros da mala.

Entregou a ele.

Miguel olhou a capa.

— Para quê?

— Para ler.

— Eu sei para que serve um livro.

— Ótimo. Metade do trabalho está feita.

Ele riu.

Guardou o livro.

Helena permaneceu nove meses naquela comunidade.

E, a cada poucas semanas, a chalana voltava.

Miguel começou a contar os dias.

Às vezes ela precisava viajar.

Às vezes apenas ia ao porto buscar correspondências ou encomendas.

Quando não aparecia, Miguel inventava perguntas para algum morador.

— A professora está bem?

— Está.

— Não precisa de nada?

— Acho que não.

— Tem certeza?

Logo todos perceberam.

Menos, talvez, os dois.

Ou fingiam não perceber.

Até que numa tarde Helena embarcou para passar alguns dias com a mãe.

A chalana estava quase vazia.

Depois do jantar, sentaram-se lado a lado.

O céu estava limpo.

A lua se refletia no rio.

Helena perguntou:

— Leu o livro?

— Li.

— Inteiro?

— Duas vezes.

Ela virou-se surpresa.

— Gostou tanto assim?

— Na primeira vez não entendi direito.

Helena começou a rir.

Miguel também.

Depois ficaram em silêncio.

O rio corria escuro ao lado deles.

Foi Miguel quem falou:

— Helena.

— Hum?

— Quando você voltar…

Parou.

— Quando eu voltar o quê?

Ele procurou coragem.

— Quer passear comigo?

Helena olhou para o rio.

— Nós estamos passeando.

— Não desse jeito.

— Que jeito?

— Você sabe.

Ela sabia.

— Quero.

Foi assim.

Sem flores.

Sem música.

Sem grandes palavras.

Dois jovens sentados numa embarcação no meio do Pantanal.

Namoraram durante três anos.

Era um namoro feito de intervalos.

Miguel chegava.

Miguel partia.

Helena esperava.

Às vezes passavam uma semana juntos.

Às vezes somente algumas horas.

Escreviam cartas.

Miguel, que aos dezenove anos mal gostava de escrever o próprio nome, começou a encher páginas.

A letra era grande e torta.

Helena guardava todas.

Quando se casaram, escolheram uma pequena casa próxima ao rio.

Não tinham quase nada.

Uma cama.

Uma mesa.

Quatro cadeiras diferentes.

Um fogão.

E a mala azul.

— Ainda guarda isso? — Miguel perguntou.

— Claro.

— Aquela mala quase quebrou minhas costas.

— Foi por isso que me apaixonei.

— Pela minha força?

— Não. Pela sua cara de sofrimento tentando fingir que estava leve.

Os anos passaram.

Tiveram uma filha, Clara.

Depois um menino, Paulo.

Helena continuou professora.

Miguel tornou-se comandante de sua própria chalana.

A vida deles passou a obedecer ao ritmo do rio.

Havia meses de cheia.

Meses de seca.

Dias em que Miguel ficava longe.

Dias em que permanecia em casa consertando alguma coisa que Helena afirmava que ele havia prometido consertar meses antes.

Brigavam.

Faziam as pazes.

Criavam os filhos.

Envelheciam.

Era uma vida comum.

E justamente por ser comum, nenhum dos dois percebeu como era preciosa enquanto acontecia.

Clara foi a primeira a partir.

Conseguiu emprego em Campo Grande.

Paulo foi depois.

Estudou e acabou ficando na cidade.

Helena sentiu a casa esvaziar.

Miguel também.

Mas tinha o rio.

Ela tinha a escola.

Até que chegou a aposentadoria.

No primeiro mês, Helena organizou a casa inteira.

No segundo, reorganizou.

No terceiro, começou a ficar inquieta.

— Não sei ficar parada.

— Eu sei — disse Miguel.

— Isso foi uma crítica?

— Foi uma observação de trinta anos.

Ela jogou um pano de prato nele.

Mas havia alguma coisa mudando.

Helena começou a falar sobre os filhos.

Sobre os netos.

Sobre a cidade.

— Clara disse que tem uma casa perto da dela para alugar.

Miguel não respondeu.

— Você ouviu?

— Ouvi.

— Poderíamos ficar mais perto deles.

— Poderíamos visitar.

— Não falei visitar.

Miguel olhou para ela.

Pela primeira vez entendeu.

— Você quer ir embora.

— Quero morar perto dos nossos filhos.

— Nossa vida está aqui.

Helena respondeu calmamente:

— A sua vida está aqui.

Aquilo doeu.

Porque havia verdade.

Durante meses evitaram o assunto.

Depois discutiram.

Miguel não conseguia imaginar a vida longe do rio.

Helena não conseguia imaginar envelhecer longe dos filhos.

Nenhum estava errado.

Esse era o problema.

Seria mais fácil se alguém estivesse.

Certa noite, Helena perguntou:

— Quantos anos você pretende continuar trabalhando?

— Enquanto conseguir.

— E depois?

Miguel não respondeu.

— Vai ficar sentado olhando o rio?

— Talvez.

— Eu não quero passar meus últimos anos olhando você olhar o rio.

Ele se levantou.

Saiu.

Dormiram sem conversar.

Na manhã seguinte, Miguel encontrou a mala azul sobre a cama.

A mesma.

Desgastada.

Desbotada.

Mas era ela.

Ficou olhando.

Helena apareceu na porta.

— Clara vem me buscar sábado.

Miguel sentiu alguma coisa afundar dentro dele.

— Então está decidido.

— Está.

— E nós?

Helena respirou fundo.

— Isso você precisa decidir.

— Eu?

— Eu não estou deixando você, Miguel.

— Parece.

— Estou escolhendo ficar perto dos nossos filhos. Você pode vir comigo.

Ele olhou pela janela.

Dali conseguia ver uma pequena parte do rio.

— Eu não sei viver lá.

Helena aproximou-se.

— E eu não sei mais viver aqui.

Nenhum dos dois chorou.

Ainda.

Sábado chegou.

Clara estacionou diante da casa.

Colocaram caixas no carro.

Roupas.

Fotografias.

Livros.

Muitos livros.

Por último, Miguel carregou a mala azul.

Dessa vez não estava pesada.

Colocou-a no porta-malas.

Helena observou.

— Lembra dela?

— Minha coluna lembra.

Ela sorriu.

Depois o sorriso desapareceu.

Clara entrou no carro para deixá-los sozinhos.

Helena aproximou-se.

— Venha comigo.

Miguel olhou para ela.

Quarenta anos haviam passado desde a primeira vez em que vira aquela mulher junto ao porto.

Ainda conseguia enxergar a professora de vinte anos.

— Não consigo.

Helena assentiu.

Talvez já soubesse.

Abraçou-o.

Miguel fechou os olhos.

Queria dizer alguma coisa.

Não encontrou palavras.

Ela entrou no carro.

Ele permaneceu diante da casa.

Quando o veículo desapareceu, Miguel percebeu que, pela primeira vez em décadas, não havia ninguém esperando que ele voltasse do rio.

Continuou trabalhando.

Mas alguma coisa havia mudado.

A chalana parecia maior.

O rio parecia mais silencioso.

À noite, quando atracava, não tinha vontade de voltar para casa.

Helena telefonava.

Conversavam.

Ela contava sobre os netos.

Miguel contava sobre o rio.

Nenhum dizia que estava infeliz.

Nenhum precisava.

Passaram-se três meses.

Numa tarde, Miguel conduzia a chalana quando viu um pequeno porto.

Ali havia uma escola.

Algumas crianças corriam pela margem.

Uma professora jovem esperava a embarcação trazendo uma caixa de livros.

Miguel diminuiu a velocidade.

Por alguns segundos, o tempo pareceu dobrar-se sobre si mesmo.

Viu uma moça.

Uma mala azul.

Um rapaz de dezenove anos fingindo que não estava apaixonado.

E compreendeu alguma coisa que deveria ter entendido muito antes.

Durante a vida inteira, acreditara que Helena fazia parte da paisagem que ele escolhera.

A casa.

O rio.

A chalana.

O Pantanal.

Mas talvez tivesse sido o contrário.

Talvez fosse Helena quem havia transformado tudo aquilo em casa.

Naquela noite, Miguel atracou.

Entregou as chaves da embarcação ao ajudante.

— Amanhã você assume.

O rapaz arregalou os olhos.

— Aconteceu alguma coisa?

— Aconteceu.

— O quê?

Miguel pensou.

— Demorei demais para entender uma coisa.

Foi para casa.

Abriu o armário.

Pegou algumas roupas.

Encontrou, numa gaveta, o primeiro livro que Helena lhe dera.

A capa estava quase solta.

Colocou-o na bolsa.

Na manhã seguinte, embarcou num ônibus para Campo Grande.

Helena abriu a porta.

Ficou parada.

Miguel estava diante dela segurando uma bolsa pequena.

— O que aconteceu?

— Nada.

— Então por que você está aqui?

Ele respirou fundo.

— Vim morar.

Helena não respondeu.

— Se ainda tiver lugar.

Ela cruzou os braços.

— E o rio?

Miguel olhou para ela.

— Vai continuar correndo.

— E a chalana?

— Vai continuar navegando.

— E você?

Miguel sorriu.

— Eu achei que minha vida estava lá.

Fez uma pausa.

— Mas parece que ela veio embora naquela mala azul.

Helena tentou manter o rosto sério.

Não conseguiu.

Abraçou-o.

Meses depois, Miguel voltou ao Pantanal.

Não para ficar.

Levou Helena.

Sentaram-se na margem ao entardecer.

Uma chalana apareceu ao longe.

Avançava devagar pelas águas.

Miguel acompanhou com os olhos.

Sentiu saudade.

Muita.

Helena segurou sua mão.

— Quer voltar?

Ele pensou antes de responder.

— Quero.

Ela virou-se surpresa.

Miguel continuou:

— De vez em quando.

Helena riu.

A embarcação seguiu rio abaixo.

Ficou menor.

Menor.

Até desaparecer depois de uma curva.

Miguel continuou olhando.

Durante quase quarenta anos acreditara que partir era abandonar alguma coisa.

O rio lhe ensinara o contrário.

Tudo que segue seu caminho precisa, em algum momento, deixar uma margem para trás.

Águas.

Barcos.

Filhos.

Pessoas.

Amores.

Talvez amar fosse justamente isso.

Saber quando segurar.

E saber quando partir junto.

Miguel levantou-se.

— Vamos?

Helena também se levantou.

— Para onde?

Ele olhou uma última vez para o rio.

Depois para ela.

— Para casa.

E os dois foram embora enquanto, muito ao longe, uma chalana continuava descendo lentamente o rio.