Toda canção pode esconder uma história.
Primeiro, a história. Depois, a canção.
Histórias do Brasil

As Cartas que Vinham do Rio

A história que poderia ter existido antes de uma canção

Quando Francisco deixou a pequena cidade onde nascera, sua mãe lhe entregou três coisas.

Uma camisa limpa.

Um pedaço de rapadura embrulhado em papel.

E um endereço escrito numa folha arrancada de caderno.

— Se precisar, escreve.

Francisco guardou o papel no bolso.

— Vou escrever.

— Não estou falando para mim.

Ele olhou sem entender.

Dona Conceição apontou para o endereço.

Era de uma família conhecida que morava no interior de São Paulo.

— Seu tio falou que eles podem ajudar.

— Não vou precisar.

A mãe sorriu.

— Todo mundo precisa de alguém algum dia.

Francisco tinha dezenove anos.

Naquela idade, acreditava que precisar dos outros era uma fraqueza que a vida ainda não lhe

ensinara a respeitar.

Abraçou a mãe.

Depois o pai.

A irmã mais nova.

E foi embora.

Era 1963.

Levava uma mala pequena.

E a certeza de que voltaria antes do Natal.

Demorou quatro anos.

Francisco crescera perto do rio.

A casa ficava numa pequena propriedade no interior de Mato Grosso.

Seu pai, Joaquim, plantava milho, mandioca e arroz.

Também pescava.

A mãe cuidava da casa, da horta e de tudo aquilo que ninguém chamava de trabalho, embora

ocupasse todos os dias da semana.

Francisco conhecia cada pedaço daquela região.

Sabia onde o rio ficava mais fundo.

Onde havia peixe.

Onde o barro prendia o pé.

Onde apareciam pássaros pequenos perto das flores quando começava a esquentar.

Seu pai costumava dizer:

— Você conhece isso aqui melhor que muito mapa.

Francisco respondia:

— Justamente por isso quero conhecer outra coisa.

Joaquim não gostava.

— Outra coisa para quê?

— Para saber como é.

— E depois?

— Depois eu volto.

Era sempre a mesma resposta.

Depois eu volto.

Havia outra pessoa que também escutava aquela promessa.

Rita.

Morava a alguns quilômetros dali.

Tinham crescido juntos.

Quando crianças, brigavam.

Na adolescência, pararam de brigar.

Depois começaram a procurar motivos para se encontrar.

Rita tinha dezoito anos quando Francisco decidiu partir.

— São Paulo é longe? — perguntou.

— Um pouco.

— Um pouco quanto?

— Uns dias.

— Isso não é pouco.

Estavam sentados perto do rio.

Francisco jogava pequenas pedras na água.

— Vou trabalhar.

— Eu sei.

— Junto dinheiro.

— Eu sei.

— Depois volto.

Rita olhou para ele.

— Isso você já falou.

— Então por que pergunta?

— Para ver se continua acreditando.

Francisco sorriu.

— Continuo.

Ela não sorriu.

— E eu?

A pergunta o pegou desprevenido.

— O que tem você?

Rita levantou-se.

— Nada.

— Rita.

Ela começou a caminhar.

Francisco correu atrás.

— Espere.

— Para quê?

— Você sabe que eu gosto de você.

— Sei?

Ele parou.

Nunca havia dito.

— Sabe.

— Agora sei.

Francisco ficou sem jeito.

Rita também.

Foi assim que, poucos dias antes de partir, finalmente admitiram algo que os dois sabiam havia

anos.

Talvez por isso a despedida tenha sido mais difícil.

Francisco conseguiu emprego numa construção.

A cidade o assustou.

Barulho.

Gente.

Ônibus.

Prédios.

Tudo parecia ter pressa.

Dividia um quarto com quatro homens.

Acordava cedo.

Voltava cansado.

Nos primeiros dias pensava constantemente no rio.

O silêncio da noite.

A comida da mãe.

O pai chegando com peixe.

Rita.

Principalmente Rita.

Escreveu na primeira semana.

“Cheguei bem. O trabalho é pesado, mas estou bem. Aqui tem prédio que parece não acabar.

Quando olho para cima quase cai o chapéu.”

Não usava chapéu.

Escreveu apenas porque imaginou Rita rindo.

No final:

“Diga para minha mãe que estou comendo direito.”

Depois acrescentou:

“E diga para você mesma que estou com saudade.”

Dobrou a carta.

Releu.

Quase apagou a última frase.

Não apagou.

A resposta demorou.

Quando chegou, Francisco reconheceu a letra.

Rita contava coisas pequenas.

A chuva da semana anterior.

Uma novilha que escapara.

A festa da igreja.

O pai de Francisco havia consertado uma canoa.

No final:

“Sua mãe sabe que você não está comendo direito porque mãe sabe essas coisas mesmo de

longe.”

E abaixo:

“Eu também.”

Francisco leu três vezes.

Guardou a carta debaixo do colchão.

Passaram a escrever regularmente.

Às vezes duas cartas por mês.

Às vezes uma.

As cartas viraram uma espécie de ponte.

Francisco contava sobre São Paulo.

Rita contava sobre casa.

Ele falava de ônibus lotados.

Ela, do rio cheio.

Ele escrevia sobre os colegas.

Ela, sobre conhecidos que casavam.

Certa vez Rita escreveu:

“Todo mundo está indo embora ou casando. Você escolheu ir embora.”

Francisco respondeu:

“Ainda posso escolher casar.”

A resposta demorou quase um mês.

“Primeiro precisa voltar.”

Francisco sorriu quando leu.

Voltaria.

No final do ano.

Era o plano.

Então o pai adoeceu.

Não o pai de Francisco.

O pai de Rita.

Ela precisava ajudar em casa.

Ao mesmo tempo, Francisco descobriu que voltar significaria perder o emprego.

O encarregado ofereceu-lhe uma oportunidade.

— Se ficar, passa a ajudante de pedreiro.

Salário maior.

Francisco fez contas.

Mais alguns meses.

Poderia juntar dinheiro.

Voltar com alguma coisa.

Escreveu para casa.

Não voltou no Natal.

A mãe respondeu:

“Trabalho é importante. Só não deixe ele virar desculpa.”

Francisco não entendeu completamente.

Os meses viraram um ano.

Depois dois.

Francisco tornou-se pedreiro.

Mandava dinheiro para os pais.

Comprou roupas.

Um relógio.

Começou a pensar em comprar um pequeno terreno quando voltasse.

Mas sempre aparecia uma razão para permanecer mais um pouco.

Na cidade, aprendeu uma verdade perigosa:

sempre existe mais dinheiro para juntar.

Mais uma oportunidade.

Mais um mês.

Mais um ano.

Rita continuava escrevendo.

Mas as cartas começaram a mudar.

Não no carinho.

Na frequência.

Às vezes passavam dois meses.

Francisco sentia ciúmes.

Perguntou se havia outro homem.

Ela respondeu:

“Se houvesse, eu contaria. Mas você precisa entender que aqui os dias também passam.”

A frase ficou na cabeça dele.

Aqui os dias também passam.

Francisco percebera o tempo apenas em São Paulo.

Nunca imaginara que ele continuava acontecendo sem sua presença.

No terceiro ano recebeu uma carta da mãe.

Seu pai havia sofrido um acidente com a canoa.

Não era grave.

Mas precisava descansar.

Francisco pensou em voltar.

O pai escreveu depois:

“Não venha por minha causa. Estou bem.”

Ele acreditou.

Meses depois soube que Joaquim continuava com dores e já não trabalhava como antes.

Sentiu culpa.

Mandou mais dinheiro.

Era a solução que conhecia.

Rita escreveu:

“Seu pai não precisa só de dinheiro.”

Francisco ficou irritado.

Respondeu:

“Estou fazendo o que posso.”

Ela não respondeu.

Passaram quase três meses.

Nenhuma carta.

Francisco começou a esperar o carteiro como quem espera notícia de doença.

Finalmente chegou.

Era curta.

“Eu sei que você está fazendo o que pode. Só não sei se ainda lembra por que foi embora.”

Francisco ficou olhando para aquelas palavras.

Naquela noite não dormiu.

Por que havia ido?

Para trabalhar.

Juntar dinheiro.

Voltar.

E em algum ponto o meio havia substituído o fim.

Pediu demissão.

O encarregado tentou convencê-lo.

— Está maluco? Vai virar oficial em pouco tempo.

— Preciso voltar.

— Depois volta.

Francisco quase riu.

Era exatamente o problema.

— Se eu deixar para depois outra vez, talvez não volte nunca.

Comprou passagem.

Não avisou ninguém.

Queria surpreender.

Durante a viagem, imaginou a chegada dezenas de vezes.

A mãe choraria.

O pai fingiria não chorar.

Rita talvez ficasse brava.

Depois sorriria.

Francisco tinha vinte e três anos.

Quatro anos pareciam muito.

Mas acreditava que encontraria tudo exatamente onde deixara.

Desceu na pequena rodoviária numa manhã quente.

A mãe estava diferente.

Mais velha.

Quando o viu diante da casa, deixou cair uma bacia.

— Francisco?

Ele sorriu.

— Eu.

Conceição abraçou o filho.

Chorou.

Bateu nele.

Abraçou novamente.

— Por que não avisou?

— Queria fazer surpresa.

— Seu pai!

Joaquim apareceu devagar.

Francisco percebeu imediatamente.

O pai mancava.

Muito mais do que imaginara.

Abraçaram-se.

— Está velho — disse Francisco.

— E você está feio.

Riram.

Por alguns minutos, parecia que nada havia mudado.

Depois Francisco perguntou:

— E Rita?

O silêncio respondeu primeiro.

A mãe olhou para Joaquim.

— O que foi?

Conceição falou:

— Ela foi embora.

Francisco sentiu o peito apertar.

— Para onde?

— Campo Grande.

— Quando?

— Faz quase seis meses.

— Por quê?

— Trabalho.

Ele ficou parado.

Era absurdo.

Passara quatro anos longe.

Agora que voltara, ela havia partido.

— Ela casou?

— Não que eu saiba.

Francisco colocou a mala no chão.

— Tenho o endereço?

A mãe sorriu.

— Tenho.

Naquela mesma semana escreveu.

Não sabia como começar.

“Voltei.”

Parecia pouco.

Depois de várias tentativas escreveu:

“Agora entendo algumas das suas cartas.”

Contou sobre o pai.

Sobre a casa.

Sobre o rio.

Sobre tudo parecer igual e diferente ao mesmo tempo.

No final perguntou:

“Você volta?”

A resposta chegou semanas depois.

“Não sei.”

Duas palavras.

Francisco merecia.

Ficou.

Assumiu parte do trabalho do pai.

Usou o dinheiro que juntara para melhorar a propriedade.

Consertou a casa.

Comprou alguns animais.

Voltou a pescar.

No começo sentia falta da cidade.

Era estranho.

Quando estava em São Paulo, sentia falta dali.

Agora sentia falta de coisas de São Paulo.

Descobriu que partir muda também a forma como voltamos.

Não existe retorno completo.

Sempre deixamos alguma versão nossa pelo caminho.

Ele e Rita continuaram trocando cartas.

Agora as posições estavam invertidas.

Francisco contava sobre casa.

Rita sobre a cidade.

Ele começou a compreender o que ela vivera.

A espera.

A distância.

A sensação de que a vida do outro acontecia em algum lugar onde você não estava.

Um ano depois, Rita voltou para visitar os pais.

Francisco soube antes.

Ficou nervoso.

Esperou dois dias antes de procurá-la.

Encontrou-a perto do rio.

Quase no mesmo lugar onde haviam se despedido anos antes.

Rita estava diferente.

Mais adulta.

Cabelo mais curto.

O mesmo olhar.

— Então você voltou — disse ela.

— Você também.

— Só de férias.

Francisco sentiu a frase.

Sentaram-se.

Por algum tempo falaram sobre coisas simples.

Depois Rita perguntou:

— Por que demorou tanto?

Ele poderia inventar.

Não inventou.

— Porque achei que você e todo mundo ficariam me esperando.

Rita olhou para a água.

— Eu esperei.

— Eu sei.

— Muito.

— Eu sei.

— Depois precisei viver.

Francisco assentiu.

— Fez certo.

Ela pareceu surpresa.

— Você mudou.

— Um pouco.

— São Paulo?

— Saudade.

Rita sorriu.

Não recomeçaram naquele dia.

Nem naquela semana.

Rita voltou para Campo Grande.

Francisco permaneceu.

As cartas continuaram.

Mas agora havia outra coisa.

Sinceridade.

Meses depois, ele foi visitá-la.

Depois ela voltou.

Durante quase dois anos viveram entre chegadas e partidas.

Até que Rita recebeu uma proposta para trabalhar mais perto da cidade natal.

Aceitou.

Casaram-se no ano seguinte.

Tiveram dois filhos.

Nenhum quis permanecer na propriedade.

A filha foi estudar.

O filho conseguiu emprego longe.

Francisco tentou não repetir o pai.

Quando o filho contou que iria embora, sentiu vontade de perguntar:

“Para quê?”

Em vez disso disse:

— Vá.

Rita olhou para ele.

Depois, quando ficaram sozinhos, perguntou:

— Só isso?

— O que mais vou dizer?

— Você sabe o que seu pai teria dito.

Francisco sorriu.

— Justamente por isso.

Na rodoviária, entregou ao filho um papel com o endereço de um conhecido.

O rapaz disse:

— Não vou precisar.

Francisco quase riu.

Era como ouvir a si mesmo.

— Guarde.

— Para quê?

— Porque todo mundo precisa de alguém algum dia.

Muitos anos depois, Francisco encontrou uma caixa no alto do armário.

Dentro estavam as cartas.

Todas.

As dele.

As de Rita.

Ela havia guardado.

Sentaram-se à mesa.

Começaram a ler.

Riram da letra.

Dos erros.

Das preocupações.

Das promessas.

Em uma das primeiras cartas, Francisco escrevera:

“Volto antes do Natal.”

Rita levantou os olhos.

— Só não disse de qual ano.

Ele começou a rir.

— Eu era um idiota.

— Bastante.

Continuaram lendo.

Até encontrarem a carta que Rita escrevera quando ele estava havia quase três anos fora.

“Aqui os dias também passam.”

Francisco ficou sério.

— Essa doeu.

— Era para doer.

— Funcionou.

Rita guardou a carta novamente.

— Ainda bem.

Naquela tarde caminharam até o rio.

Já estavam velhos.

Francisco andava devagar.

Rita também.

Sentaram-se perto da margem.

Pequenos pássaros apareciam entre a vegetação.

Francisco observou um deles pairando por um instante perto de uma flor.

— Lembra daqui? — perguntou.

— Lembro.

— Foi onde você perguntou se eu ainda acreditava que voltaria.

— E você disse que sim.

— Eu acreditava.

Rita olhou para ele.

— Então por que demorou?

Francisco pensou.

— Porque quando a gente é novo acha que voltar depende só de pegar a estrada.

Ela esperou.

— Depois descobre que precisa encontrar o caminho dentro da gente também.

Rita segurou sua mão.

Ficaram olhando o rio.

Francisco passara boa parte da juventude acreditando que saudade era apenas sentir falta.

Não era.

Saudade também podia ser uma medida do tempo.

Mostrava quanto uma pessoa, um lugar ou uma vida tinham se afastado de nós.

Às vezes aproximava.

Às vezes doía.

E havia saudades que não pediam necessariamente que voltássemos ao passado.

Pediam apenas que reconhecêssemos o quanto aquilo havia sido importante.

As cartas guardadas durante décadas não haviam impedido a distância.

Mas tinham feito algo diferente.

Mantiveram um caminho aberto.

Uma espécie de estrada feita de papel, palavras e espera.

Francisco olhou para o rio.

A água seguia adiante.

Nunca era exatamente a mesma.

Mesmo assim continuava sendo o mesmo rio.

Talvez as pessoas fossem assim.

Partiam.

Mudavam.

Voltavam diferentes.

E ainda carregavam alguma coisa do lugar de onde tinham saído.

Francisco apertou a mão de Rita.

Ao longe, um pequeno pássaro passou rapidamente sobre a água e desapareceu entre as árvores.

Ele sorriu.

Havia passado anos tentando descobrir onde realmente era seu lugar.

Agora sabia.

Não estava apenas naquela terra.

Nem na cidade para onde um dia partira.

Estava também nas pessoas que haviam atravessado sua vida e continuado dentro dele.

Porque existem distâncias que uma estrada consegue vencer.

Outras precisam de tempo.

E algumas só conseguem ser atravessadas pela saudade.

DISPARADA

Agora fechamos o segmento Histórias do Brasil com a 5ª história, inspirada em “Disparada”

— Geraldo Vandré e Théo de Barros.

A história vai para o Brasil rural das grandes fazendas e boiadas. O personagem passa boa parte

da juventude conduzindo gado e obedecendo às ordens de outros, até perceber que existe uma

diferença enorme entre seguir um caminho porque foi mandado e escolher o próprio

caminho.