Joaquim sabia conversar com um violão.
Com as pessoas era mais difícil.
Aos vinte e seis anos, conseguia tocar durante horas diante de desconhecidos sem demonstrar
nervosismo.
Mas bastava Laura entrar no salão para suas mãos parecerem esquecer onde ficavam as cordas.
Os amigos percebiam.
— Lá vem ela — dizia Orlando.
— Quem?
— Você sabe quem.
— Não sei.
— Então por que parou de tocar?
Joaquim olhava para o instrumento.
— Estou afinando.
Orlando ria.
— Há seis meses?
Era 1924.
E durante seis meses Joaquim amara Laura em absoluto silêncio.
Morava com a mãe e duas irmãs numa casa simples no Rio de Janeiro.
Durante o dia trabalhava numa pequena tipografia.
À noite, sempre que podia, tocava.
Não era músico famoso.
Nem imaginava ser.
Tocava porque precisava.
Desde menino descobrira que havia sentimentos que pareciam grandes demais quando tentava
transformá-los em palavras, mas cabiam perfeitamente dentro de uma melodia.
Seu pai lhe ensinara os primeiros acordes.
— Instrumento não fala — dizia o menino.
— Fala mais que muita gente.
Joaquim só compreenderia anos depois.
Conheceu Laura num baile na casa de conhecidos.
Ela chegou acompanhada de uma prima.
Vestido claro.
Cabelos presos.
Uma pequena flor perto da orelha.
Joaquim estava tocando.
Errou um acorde.
Orlando percebeu.
— Que aconteceu?
— Nada.
— Você nunca erra essa música.
Joaquim olhou discretamente para Laura.
Orlando acompanhou o olhar.
— Ah.
— Ah o quê?
— Entendi.
— Não entendeu nada.
— Entendi tudo.
Laura passou perto deles.
Cumprimentou.
— Boa noite.
Joaquim respondeu:
— Boa noite.
E foi tudo.
Durante três semanas, essa foi a conversa inteira entre os dois.
Laura começou a frequentar os mesmos encontros.
Gostava de música.
Principalmente das melodias mais delicadas que Joaquim tocava quando o salão já estava
ficando vazio.
Uma noite aproximou-se.
— Essa música tem nome?
Joaquim olhou para ela.
— Não.
— É de quem?
— Minha.
Laura sorriu.
— Então devia dar um nome.
— Ainda não terminei.
— Como sabe?
Joaquim pensou.
— Porque falta alguma coisa.
— O quê?
Ele poderia ter respondido.
Faltava coragem.
Em vez disso, disse:
— Ainda não sei.
Laura ficou alguns segundos ouvindo.
— Quando descobrir, me conta.
Foi embora.
Naquela noite Joaquim tocou a mesma melodia até os amigos pedirem que parasse.
A aproximação aconteceu devagar.
Laura trabalhava com uma tia numa pequena loja de roupas femininas.
Joaquim começou a aparecer por perto.
Inventava desculpas.
Comprou linha.
Depois botões.
Uma fita que não precisava.
Na quarta visita, Laura perguntou:
— Você costura?
— Minha mãe.
— Sua mãe precisa de muita coisa.
Joaquim percebeu que ela havia entendido.
— Tenho duas irmãs também.
Laura riu.
— Isso explica os botões. E a fita azul?
Ele não tinha resposta.
Laura pegou a fita.
— É bonita.
Joaquim respirou fundo.
— Pode ficar.
Ela o olhou.
— Comprou para mim?
— Talvez.
— Joaquim, você é um homem muito estranho.
Ele ficou vermelho.
— Desculpe.
— Não disse que era ruim.
Começaram a caminhar juntos.
Algumas tardes, Joaquim esperava Laura fechar a loja e a acompanhava até o bonde.
Falavam sobre tudo.
Família.
Trabalho.
Música.
Livros.
A cidade.
Sobre sentimentos, quase nunca.
Laura contava sonhos.
Queria conhecer outras cidades.
Talvez abrir sua própria loja.
Ter uma casa com janelas grandes.
Joaquim ouvia.
— E você? — ela perguntou certa vez.
— Eu o quê?
— O que quer?
— Continuar tocando.
— Só?
Ele olhou para ela.
Havia uma resposta.
Não disse.
— Talvez.
Laura desviou os olhos.
Meses se passaram.
Para todos ao redor, os dois estavam apaixonados.
Para Joaquim, aquilo ainda precisava ser confirmado por alguma coisa que ele nunca tinha
coragem de perguntar.
Até que apareceu Henrique.
Filho de um comerciante.
Bem vestido.
Educado.
Sabia conversar.
E, principalmente, sabia dizer o que queria.
Começou a visitar Laura.
Joaquim soube por Orlando.
— Parece que está interessado nela.
— Quem?
— Henrique.
— Problema dele.
— E seu.
— Por quê?
Orlando perdeu a paciência.
— Porque você ama essa mulher.
Joaquim ficou em silêncio.
— Já falou?
— Não.
— Então fale.
— Não é simples.
— É uma frase.
— Qual?
— “Eu gosto de você.”
Joaquim balançou a cabeça.
— Parece pouco.
Orlando respondeu:
— Pouco é não dizer nada.
Henrique pediu Laura em namoro.
Ela não respondeu imediatamente.
Naquela noite encontrou Joaquim.
Caminharam até o ponto do bonde.
Laura parecia esperar alguma coisa.
— Henrique falou comigo hoje.
— Eu sei.
— Sabe?
— Orlando contou.
— E?
Joaquim sentiu o coração acelerar.
Era o momento.
Precisava dizer.
— Ele parece um bom rapaz.
Laura parou.
— É isso?
Joaquim percebeu tarde demais.
— O que queria que eu dissesse?
Ela sorriu, mas havia tristeza.
— Nada.
O bonde chegou.
Laura subiu.
Antes de entrar, olhou para ele.
— Boa noite, Joaquim.
— Boa noite.
Ele ficou parado.
Quando o bonde desapareceu, sentiu vontade de correr atrás.
Não correu.
Laura começou a namorar Henrique.
Joaquim afastou-se.
Parou de esperá-la na saída da loja.
Nos bailes, tocava sem olhar para ela.
A melodia sem nome também desapareceu.
— Não toca mais aquela? — perguntou Orlando.
— Não.
— Por quê?
— Enjoei.
Era mentira.
Um ano depois, Henrique pediu Laura em casamento.
Ela aceitou.
Quando Joaquim soube, passou uma noite inteira caminhando.
No dia seguinte foi trabalhar sem dormir.
Sua mãe percebeu.
— Está doente?
— Não.
— Então está apaixonado.
Joaquim olhou para ela.
— Como sabe?
— Criei três filhos.
Sentou-se ao lado dele.
— Ela sabe?
— Não.
— Então talvez você esteja sofrendo por uma coisa que só existe dentro de você.
— Ela vai casar.
— E você queria que ela esperasse o quê?
Joaquim não respondeu.
A mãe continuou:
— Filho, ninguém consegue responder a uma pergunta que nunca foi feita.
O casamento estava marcado para novembro.
Em setembro, Laura apareceu num dos bailes.
Henrique não estava.
Joaquim tocava.
Quando terminou, ela se aproximou.
— Podemos conversar?
Saíram.
Ficaram diante da casa.
Laura perguntou:
— Por que você desapareceu?
— Não desapareci.
— Para mim, sim.
— Você está noiva.
— Isso impede amizade?
Joaquim olhou para ela.
— Para mim impede.
Laura ficou em silêncio.
Ele percebeu que tinha dito mais do que pretendia.
— Por quê? — ela perguntou.
Ali estava novamente a oportunidade.
Dessa vez Joaquim não conseguiu fugir.
— Porque eu gosto de você.
Laura fechou os olhos por um instante.
— Agora?
— Não.
— Então quando?
— Desde o começo.
Ela ficou olhando para ele.
— Desde quando?
— Desde aquele primeiro baile.
Laura deu dois passos para trás.
— Você está me dizendo que durante quase dois anos…
— Eu sei.
— Não, Joaquim. Você não sabe.
Ela estava irritada.
— Por que nunca falou?
— Tive medo.
— De quê?
— De você não sentir o mesmo.
Laura riu sem humor.
— E resolveu garantir isso ficando calado?
Ele abaixou a cabeça.
— Eu fui idiota.
— Foi.
Laura foi embora.
Joaquim acreditou que havia acabado.
Mas três dias depois ela voltou.
— Terminei com Henrique.
Joaquim ficou imóvel.
— Por minha causa?
— Não.
Ele não entendeu.
— Então por quê?
— Porque percebi que não deveria casar com alguém enquanto estava pensando em outra pessoa.
O coração de Joaquim disparou.
Laura levantou a mão.
— Não significa que vou ficar com você.
A esperança caiu um pouco.
— Eu sei.
— Estou brava.
— Eu sei.
— Muito.
— Também sei.
Ela respirou fundo.
— E você vai precisar aprender a falar.
Joaquim quase sorriu.
— Posso tentar.
— Comece.
— Agora?
— Agora.
Ele ficou em silêncio.
Laura cruzou os braços.
— Joaquim.
— Eu amo você.
Foi a primeira vez.
Laura não respondeu imediatamente.
Depois sorriu.
— Viu? Não morreu.
Não começaram a namorar naquele dia.
Laura fez questão disso.
Passaram semanas conversando.
Joaquim contou coisas que nunca havia contado.
Sobre o pai.
Sobre o medo de fracassar.
Sobre sentir-se inferior a homens como Henrique.
Laura ouviu.
Também falou.
Contou que durante meses esperara que ele dissesse alguma coisa.
— Eu achava que você não gostava de mim.
— Como podia achar isso?
Ela olhou para ele.
— Porque você nunca disse.
Joaquim aprendeu uma lição que carregaria para sempre:
sentimentos invisíveis podem ser profundos.
Mas continuam invisíveis.
Começaram a namorar.
Dois anos depois, casaram-se.
Não tiveram uma vida perfeita.
Nenhum amor verdadeiro tem.
Discutiram.
Passaram dificuldades.
Joaquim perdeu emprego.
Laura abriu finalmente sua pequena loja.
Ele começou a ganhar algum dinheiro tocando.
Vieram duas filhas.
Depois um filho.
A casa com janelas grandes que Laura sonhara demorou quase vinte anos.
Mas veio.
Joaquim continuou compondo.
Nunca se tornou um grande nome.
Algumas músicas foram tocadas por conhecidos.
Outras permaneceram apenas em cadernos.
E havia aquela melodia.
A primeira.
A que Laura perguntara se tinha nome.
Ele continuava tocando de vez em quando.
— Ainda não terminou? — ela provocava.
— Quase.
— Faz trinta anos.
— Composição boa demora.
— Nesse ritmo termina depois que morrer.
Joaquim ria.
Talvez nunca quisesse terminá-la.
A melodia pertencia à época em que amar Laura ainda era algo que não conseguia dizer.
Quando completaram quarenta e cinco anos de casamento, Joaquim sofreu um derrame.
Sobreviveu.
Mas perdeu parte dos movimentos da mão direita.
O médico disse que talvez não voltasse a tocar como antes.
Foi uma das poucas vezes que Laura o viu chorar.
— Eu não sei fazer outra coisa.
— Sabe muita coisa.
— Não como isso.
Ela segurou sua mão.
— Então aprende de novo.
Durante meses Joaquim fez fisioterapia.
Os movimentos voltaram parcialmente.
Nunca com a mesma precisão.
Um dia pegou o violão.
Tentou tocar.
Errou.
Parou.
Laura estava na cozinha.
— Continua.
— Está ruim.
— Continua.
Tentou novamente.
A melodia apareceu.
Lenta.
Imperfeita.
Mas reconhecível.
Laura sentou-se diante dele.
— Essa.
Joaquim sorriu.
— Depois de tantos anos?
— Principalmente depois de tantos anos.
Ele tocou até o fim.
Quando terminou, Laura perguntou:
— Agora terminou?
Joaquim pensou.
— Acho que sim.
— E descobriu o que faltava?
Ele olhou para ela.
— Você.
Laura riu.
— Demorou quase cinquenta anos para inventar essa resposta?
— Eu falei que sou ruim com palavras.
Laura morreu três anos depois.
Joaquim ficou sozinho na casa de janelas grandes.
Os filhos queriam que fosse morar com eles.
Recusou.
Continuou tocando.
Pouco.
Devagar.
Toda tarde sentava-se perto da janela.
Às vezes conversava com Laura.
Sabia que ela não estava ali.
Mesmo assim conversava.
Talvez porque, depois de tantos anos, finalmente tivesse aprendido a dizer as coisas.
Um dos netos, Gabriel, começou a estudar música.
Encontrou os cadernos do avô.
— Posso olhar?
— Pode.
Havia dezenas de melodias.
Algumas completas.
Outras não.
Gabriel encontrou uma sem título.
— Essa aqui é bonita.
Joaquim reconheceu imediatamente.
— É antiga.
— Tem nome?
A pergunta atravessou mais de sessenta anos.
Laura fazendo exatamente a mesma pergunta.
Joaquim sorriu.
— Nunca teve.
— Posso tocar?
— Pode.
O rapaz tocou.
Mais bonito do que Joaquim conseguia naquele momento.
Quando terminou, perguntou:
— O senhor fez para a vó?
Joaquim olhou pela janela.
— Fiz antes de saber que era para ela.
— Como assim?
— Algumas coisas o coração entende antes da gente.
Gabriel ficou pensando.
— Devia dar um nome.
Joaquim sorriu.
— Talvez.
Naquela noite, abriu uma caixa.
Dentro havia fotografias.
Cartas.
Documentos.
Encontrou uma pequena fita azul.
A mesma que comprara sem precisar na loja onde Laura trabalhava.
Ela guardara durante toda a vida.
Joaquim passou os dedos sobre o tecido.
Tantas coisas haviam sido ditas entre os dois depois daquele primeiro amor silencioso.
“Estou com medo.”
“Me desculpe.”
“Estou grávida.”
“Não temos dinheiro.”
“Vai dar certo.”
“Volta cedo.”
“Cuide-se.”
“Eu amo você.”
Frases simples.
Algumas repetidas milhares de vezes.
Outras ditas apenas uma.
E Joaquim compreendeu finalmente algo que levara quase uma vida para aprender.
Amar alguém em silêncio pode parecer bonito.
Mas amor não foi feito apenas para ser sentido.
Precisa encontrar algum caminho para chegar ao outro.
Pode ser numa palavra.
Num gesto.
Num cuidado.
Numa carta.
Ou numa melodia.
Mas precisa atravessar a distância entre dois corações.
Porque ninguém deveria passar a vida tentando adivinhar se é amado.
Na manhã seguinte, Gabriel voltou.
— Pensou no nome?
Joaquim estava com o violão no colo.
— Ainda não.
O neto riu.
— Vô, essa música tem quase setenta anos.
— Algumas coisas não precisam de nome.
— Então por que guardou?
Joaquim olhou para a fotografia de Laura sobre a estante.
Sorriu.
— Para lembrar do tempo em que eu ainda não sabia dizer.
Colocou os dedos sobre as cordas.
E começou a tocar.
A melodia atravessou a sala.
Passou pela cadeira vazia de Laura.
Pelas fotografias dos filhos.
Pela fita azul guardada tantos anos.
Pelas janelas grandes que um dia haviam sido apenas um sonho.
Joaquim não precisava mais encontrar palavras.
Passara a vida inteira aprendendo que carinho não está somente nas grandes declarações.
Está na presença.
Na atenção.
Na maneira de olhar.
Na mão que procura outra mão depois de décadas.
Nas pequenas coisas que dizemos quando finalmente perdemos o medo de demonstrar.
E talvez algumas canções nasçam exatamente assim:
quando aquilo que uma pessoa sente é grande demais para continuar escondido e procura outra
forma de dizer, com delicadeza, aquilo que o coração já sabia havia muito tempo.
CUITELINHO
Seguimos para a 4ª história de Histórias do Brasil, inspirada em “Cuitelinho”, canção
tradicional brasileira.
Aqui vamos para o interior do Brasil, às margens de um grande rio. A inspiração será a saudade
de quem parte, mas a história seguirá nosso princípio: não reproduzir a canção, e sim
imaginar a vida que poderia ter existido antes dela.