A primeira coisa que Helena percebeu quando abriu a porta foi que a casa já não tinha o mesmo
cheiro.
Ficou parada na entrada, segurando a chave, enquanto a luz do fim da tarde atravessava as frestas
das janelas fechadas. Havia cheiro de madeira antiga, poeira e cômodos que passaram tempo
demais sem gente.
Mas faltava alguma coisa.
Durante toda a sua infância, aquela casa tivera cheiro de café, fumaça e comida.
Agora cheirava apenas a casa vazia.
Helena entrou.
Fazia quase cinco meses que sua mãe morrera. Desde então, ninguém tivera coragem de mexer
nas coisas.
O pai havia partido sete anos antes. Dona Alzira permanecera ali sozinha, apesar da insistência
dos filhos para que fosse morar na cidade.
— Vou fazer o quê num apartamento? — perguntava.
— Descansar — respondia Helena.
— Descansar de quê?
— De cuidar dessa casa enorme.
Alzira ria.
— Enquanto eu puder cuidar da minha casa, ainda não estou velha.
Tinha oitenta e um anos quando morreu.
Agora cabia aos três filhos decidir o destino da propriedade.
Helena chegara primeiro.
Os irmãos viriam no sábado para separar os móveis e conversar com um corretor interessado em
anunciar o sítio.
Ela percorreu lentamente a sala.
Tudo continuava praticamente igual.
O relógio na parede.
A cristaleira.
As fotografias dos filhos e netos.
O sofá coberto por uma manta de crochê.
Passou a mão sobre um porta-retratos.
Nele, Alzira e Sebastião, seu pai, apareciam jovens, diante daquela mesma casa.
Helena colocou a fotografia no lugar e seguiu para a cozinha.
Foi então que viu o fogão.
Estava no canto onde sempre estivera.
Um velho fogão a lenha de tijolos, com chapa de ferro escurecida e duas portas pequenas na
frente.
Helena aproximou-se.
Passou a mão sobre a chapa fria.
E, de repente, conseguiu sentir novamente o cheiro.
Café.
Pão assando.
Lenha queimando.
Feijão.
Infância.
Sentou-se numa cadeira.
Aquela cozinha tinha sido o centro do mundo durante muitos anos.
Helena crescera ali com os irmãos, Paulo e Renato.
Naquela época, a família não tinha muito.
Sebastião trabalhava na lavoura e criava algumas vacas. Alzira cuidava da casa, da horta, das
galinhas, dos filhos e de quase tudo que aparecesse pela frente.
Acordava antes de todos.
Quando as crianças levantavam, o fogo já estava aceso.
No inverno, os três disputavam lugar perto do fogão.
— Sai daí, Paulo. Você está pegando todo o calor.
— Cheguei primeiro.
— Mãe!
Alzira mexia o café.
— Se vocês trabalhassem tanto quanto brigam, seu pai já tinha comprado outra fazenda.
O café da manhã era simples.
Pão.
Manteiga quando havia.
Leite.
Café para os adultos.
Às vezes bolo de fubá.
Helena achava que todas as casas do mundo acordavam daquele jeito.
Só muito depois descobriria que não.
Foi naquela cozinha que aprendeu a fazer pão.
Tinha onze anos.
Alzira colocou farinha numa bacia.
— Quanto?
— Até dar o ponto.
— Quanto é “dar o ponto”?
— Você vai saber.
— Como?
— Fazendo.
Helena ficou irritada.
— Não tem receita?
— Tem.
— Onde?
Alzira apontou para a própria cabeça.
— Aqui.
Helena passou anos tentando reproduzir aquele pão.
Nunca conseguiu exatamente.
Mesmo depois de adulta, telefonava:
— Mãe, quanto de farinha?
— Até dar o ponto.
— A senhora faz isso de propósito.
Alzira ria.
A vida naquela casa seguia o ritmo das estações.
Havia época de plantar.
Época de colher.
Época de chuva.
Época de frio.
E havia os domingos.
Aos domingos, o fogão trabalhava mais.
Frango.
Macarrão.
Arroz.
Salada da horta.
Às vezes carne de panela.
Quando parentes apareciam sem avisar, Alzira nunca perguntava se ficariam para o almoço.
Apenas colocava mais água no feijão.
— Como a senhora consegue fazer comida para tanta gente? — Helena perguntou certa vez.
— Comida sempre aumenta.
— Como?
— Coloca mais um pouco de tudo.
— E se não der?
Alzira sorriu.
— Dá.
Quase sempre dava.
Os anos passaram.
Helena foi a primeira a sair de casa.
Tinha dezenove anos quando conseguiu vaga numa faculdade em Curitiba.
Era a primeira pessoa da família a entrar numa universidade.
Todos comemoraram.
Helena também.
Até chegar a noite anterior à viagem.
As malas estavam prontas.
Ela não conseguia dormir.
Foi até a cozinha.
Alzira estava diante do fogão preparando café.
— Mãe, são quase onze horas.
— Eu sei.
— Por que está fazendo café?
— Porque você está acordada.
Helena sentou-se.
— Acho que não vou.
A mãe continuou mexendo a água.
— Vai, sim.
— Posso estudar mais perto.
— Pode.
— Então…
Alzira virou-se.
— Mas você quer ir.
Helena começou a chorar.
— Estou com medo.
A mãe colocou uma xícara diante dela.
— Ainda bem.
— Ainda bem?
— Quem não tem medo não entende o tamanho das coisas.
Helena ficou em silêncio.
— E se eu não gostar?
— Volta.
— E se eu gostar?
Alzira sorriu.
— Fica.
Era simples para ela.
Na manhã seguinte, Sebastião colocou a mala da filha no ônibus.
Alzira entregou uma sacola.
Dentro havia pão, queijo, um pedaço de bolo e um pote de doce.
— Mãe, são seis horas de viagem.
— E ônibus não dá fome?
Helena abraçou a mãe.
Foi embora.
No começo voltava quase todos os meses.
Depois começou a trabalhar.
As visitas passaram a ser a cada dois meses.
Depois nos feriados.
Quando se casou com Roberto, mudou-se definitivamente para Curitiba.
Vieram os filhos.
Vieram as responsabilidades.
E as visitas ficaram ainda mais espaçadas.
Alzira nunca reclamava.
— Quando vocês puderem, venham.
Mas perguntava sempre:
— Quando vocês vêm?
Helena dizia:
— No próximo feriado.
Às vezes ia.
Às vezes não.
Paulo mudou-se para São Paulo.
Renato ficou mais perto, numa cidade a quarenta quilômetros.
A casa foi ficando silenciosa.
Mas nos Natais todos voltavam.
Era quando Alzira parecia recuperar alguns anos.
O fogão acendia cedo.
Os netos entravam e saíam.
Sebastião assava carne.
As noras e o genro tentavam ajudar e quase sempre ouviam:
— Deixa que eu faço.
Numa dessas reuniões, Helena sugeriu:
— Mãe, compra um fogão novo.
Alzira apontou para o fogão a gás do outro lado da cozinha.
— Tenho um.
— Estou falando de tirar esse aí.
A mãe olhou para o fogão a lenha.
— Por quê?
— Ocupa metade da cozinha.
— E?
— Faz fumaça.
— Pouca.
— Suja a parede.
— Parede lava.
— Mãe…
Alzira sorriu.
— Você não gosta da comida?
— Gosto.
— Então pare de reclamar.
Nunca mais tocaram no assunto.
Quando Sebastião morreu, foi naquela cozinha que a família se reuniu depois do enterro.
Havia comida enviada pelos vizinhos.
Ninguém tinha fome.
Alzira sentou-se perto do fogão apagado.
Helena abraçou a mãe.
— Vem morar comigo.
— Não.
— A senhora não pode ficar sozinha.
— Posso.
— Por quê?
Alzira olhou ao redor.
— Porque ele ainda está aqui.
Helena não entendeu.
Achou que fosse apenas a dor falando.
Talvez fosse.
Talvez não.
Alzira permaneceu no sítio.
Nos anos seguintes, começou a envelhecer mais depressa.
Os cabelos ficaram completamente brancos.
As mãos tremiam um pouco.
Os passos ficaram menores.
Mas continuava acendendo o fogão.
Quando Helena visitava, brigava.
— A senhora pode cair carregando lenha.
— Posso cair tomando banho também. Vou parar de tomar banho?
— Não é a mesma coisa.
— Para mim é.
Certa vez Helena chegou e encontrou a mãe fazendo pão.
— Ainda com isso?
— Seus netos gostam.
— Eles nem vieram.
— Vou congelar.
Helena sentou-se.
Observou as mãos envelhecidas trabalhando a massa.
— Me ensina de novo.
Alzira olhou para ela.
— Depois de cinquenta anos?
— Nunca aprendi direito.
A mãe riu.
Colocou farinha na bacia.
— Primeiro…
Helena pegou o celular.
— Vou anotar.
Alzira bateu na mão dela.
— Guarda isso.
— Quero escrever a receita.
— Receita não adianta.
— Lá vem a história do ponto.
— Exatamente.
Fizeram o pão juntas.
Helena prestou atenção.
Na quantidade de água.
Na textura da massa.
No tempo de descanso.
Na temperatura do forno.
Achou que finalmente aprendera.
Não aprendera.
O pão continuava diferente.
A última vez que viu a mãe foi num domingo.
Helena tinha passado o fim de semana no sítio.
Na hora de ir embora, Alzira perguntou:
— Quando volta?
— Daqui a duas semanas.
— Não precisa vir tão cedo.
— A senhora acabou de perguntar.
— Perguntei quando volta, não mandei voltar.
Helena riu.
Abraçou a mãe.
— Cuida desse fogão.
— Ele cuida de mim.
Duas semanas depois, Helena voltou para o enterro.
Alzira morreu dormindo.
Sem hospital.
Sem despedida.
Sem dar trabalho a ninguém, exatamente como sempre dissera que gostaria.
Agora, cinco meses depois, Helena estava novamente naquela cozinha.
Sozinha.
O fogão permanecia frio.
No sábado, os irmãos chegaram.
Passaram o dia separando objetos.
Paulo queria vender a casa mobiliada.
Renato preferia dividir algumas coisas.
— A cristaleira a Helena leva.
— Não cabe no meu apartamento.
— Então vende.
— A mãe gostava dela.
— Helena, não podemos guardar tudo.
Ela sabia.
Mesmo assim, cada objeto parecia carregar uma história.
No fim da tarde, o corretor chegou.
Percorreu a propriedade.
Fez fotografias.
Mediu cômodos.
Quando entrou na cozinha, olhou para o fogão.
— Isso aqui pode ser retirado para modernizar.
Helena sentiu alguma coisa.
— Retirado?
— Sim. Quem comprar provavelmente vai reformar. Abre espaço para uma bancada grande.
Paulo concordou.
— Faz sentido.
Helena olhou para o irmão.
— Não.
— Não o quê?
— O fogão fica.
O corretor explicou:
— Dona Helena, para venda talvez seja melhor…
— Fica.
Paulo esperou o homem sair.
— Você sabe que quem comprar pode derrubar depois.
— Sei.
— Então qual a diferença?
Helena não sabia responder.
Naquela noite, os três dormiram na casa.
Fazia frio.
Renato entrou na cozinha.
— Alguém sabe acender isso?
Paulo riu.
— Crescemos aqui e nenhum de nós sabe?
Helena sabia.
Ou achava que sabia.
Pegou lenha.
Papel.
Tentou.
A primeira fumaça invadiu a cozinha.
Paulo abriu a janela.
— Ótimo. Vamos morrer intoxicados antes de vender a casa.
— Cala a boca.
Tentou novamente.
O fogo pegou.
Pouco depois, os três estavam sentados perto do fogão.
Como quando eram crianças.
Ninguém disse nada por algum tempo.
Então Paulo perguntou:
— Lembram do bolo que a mãe fazia com banana?
Renato riu.
— O queimado?
— Ela dizia que era caramelizado.
Começaram a lembrar.
Uma história puxou outra.
A vez em que uma galinha entrou na cozinha.
O Natal em que faltou energia.
As brigas por causa do lugar mais quente.
O pão.
O café.
O pai chegando da roça.
A mãe dizendo que comida sempre aumentava.
Helena colocou água para ferver.
Fez café.
Quando o cheiro se espalhou pela cozinha, os três ficaram em silêncio.
Era aquele cheiro.
O cheiro que faltava quando ela entrara na casa.
Helena sentiu os olhos encherem.
Paulo percebeu.
— Está chorando?
— Fumaça.
Renato olhou para a chaminé.
— Não tem fumaça nenhuma.
Os três começaram a rir.
Na manhã seguinte tomaram uma decisão.
Não venderiam o sítio naquele momento.
Não porque imaginassem voltar a morar ali.
Nenhum deles voltaria.
Mas também não estavam prontos para entregar aquele lugar a outra pessoa.
Começaram a usar a casa nos fins de semana.
Os filhos vieram.
Depois os netos.
Helena fez pão.
Na primeira tentativa ficou duro.
Na segunda, não cresceu.
Na terceira, queimou embaixo.
— A bisa fazia melhor — disse a neta.
— Muito obrigada pelo incentivo.
Meses depois, finalmente acertou.
Ou quase.
Ao provar, Paulo comentou:
— Não está igual.
Helena concordou.
Nunca ficaria.
Faltavam as mãos de Alzira.
E algumas receitas dependem de coisas que não podem ser medidas.
Anos depois, Helena estava diante do mesmo fogão ensinando a neta a preparar pão.
— Quanto de farinha, vó?
Helena abriu a boca para responder.
Parou.
Sorriu.
— Até dar o ponto.
A menina franziu a testa.
— Quanto é isso?
Helena começou a rir.
Finalmente havia entendido.
Não era apenas uma receita que sua mãe deixara.
Era uma forma de continuar presente.
Helena acrescentou um pouco de farinha e colocou as mãos da menina sobre a massa.
Do lado de fora, os outros conversavam.
Havia crianças correndo pelo quintal.
Café sobre a mesa.
Lenha queimando.
A casa estava novamente cheia.
Helena olhou ao redor e compreendeu aquilo que a mãe tentara explicar muitos anos antes.
Uma casa não é feita apenas de paredes.
Também não são os móveis que fazem alguém sentir vontade de voltar.
Casa é um conjunto de coisas pequenas que, juntas, dizem silenciosamente que pertencemos a
algum lugar.
Um cheiro.
Uma receita.
Uma mesa cheia.
Uma voz que já não podemos ouvir.
Um fogão aceso numa manhã fria.
Por isso existem lugares dos quais podemos partir sem jamais conseguir ir embora
completamente.
Porque, muitos anos depois, basta o cheiro de lenha queimando, café recém-passado ou pão
saindo do forno…
e encontramos novamente o caminho de casa.
Agora seguimos para a 4ª história de Família e Saudade, inspirada em “No Dia em que Eu Saí
de Casa” — Zezé Di Camargo & Luciano.