Toda canção pode esconder uma história.
Primeiro, a história. Depois, a canção.
Família e Saudade

O Dia em que Gabriel Foi Embora

A história que poderia ter existido antes de uma canção

Durante trinta e dois anos, Gabriel acreditou que se lembrava perfeitamente do dia em que saiu

de casa.

Lembrava da mala marrom amarrada com uma correia porque o fecho estava quebrado.

Lembrava do ônibus parado diante da rodoviária pequena, soltando fumaça. Lembrava do pai

parado alguns metros atrás, com as mãos nos bolsos. E lembrava principalmente da mãe.

Dona Celina segurava uma sacola de pano.

Dentro havia dois sanduíches, três bananas, uma garrafa de café e um pedaço de bolo

embrulhado em papel-alumínio.

— Mãe, são só sete horas de viagem.

— Sete horas sem comer?

— O ônibus para.

— E você vai gastar dinheiro com comida de estrada?

Gabriel tinha dezenove anos e a impaciência própria de quem acredita que já é adulto.

— Eu vou trabalhar, mãe. Vou ganhar meu dinheiro.

Celina ajeitou a gola da camisa do filho.

— Ainda não ganhou.

— Mas vou ganhar.

— Então, quando ganhar, pode desperdiçar. Hoje leva o bolo.

Gabriel revirou os olhos.

Pegou a sacola.

Durante muitos anos foi assim que contou a história.

A mãe preocupada.

O pai calado.

O ônibus.

A mala.

E ele partindo.

Só muito tempo depois descobriria que havia uma parte daquele dia da qual nunca soubera.

Gabriel nasceu numa pequena cidade do interior de Minas Gerais. Era o segundo de três filhos de

Celina e Orlando.

A família vivia de uma mercearia que ocupava a parte da frente da casa. Vendiam arroz, feijão,

açúcar, querosene, sabão, algumas ferramentas e praticamente qualquer coisa que alguém

pudesse precisar sem viajar até uma cidade maior.

Orlando abria a porta às seis da manhã.

Celina fechava depois das oito da noite.

Os filhos cresceram entre sacos de mantimentos, caixas de refrigerante e cadernetas onde o pai

anotava compras fiadas.

Gabriel nunca gostou daquele lugar.

Não da família.

Do tamanho da vida.

Desde pequeno queria saber o que existia depois das montanhas que cercavam a cidade.

Quando algum viajante entrava na mercearia, fazia perguntas.

— De onde o senhor vem?

— Belo Horizonte.

— É grande?

— Muito.

— Tem prédio de quantos andares?

Orlando escutava e balançava a cabeça.

— Esse menino nasceu com roda nos pés.

Celina não gostava.

— Não põe ideia.

— Não precisa. A ideia já está nele.

Na adolescência, Gabriel começou a falar em ir embora.

Queria estudar.

Queria trabalhar.

Queria conhecer uma cidade grande.

Orlando dizia pouco.

Celina tentava convencê-lo.

— Pode trabalhar aqui com seu pai.

— Não quero trabalhar na mercearia.

— Pode fazer curso na cidade vizinha.

— Não quero.

— Então o que você quer?

Gabriel respondia sempre:

— Quero ir.

Para Celina, aquilo parecia incompreensível.

Passara a vida inteira perto dos pais, dos irmãos e das pessoas que conhecia desde criança. Não

entendia por que alguém escolheria viver onde ninguém soubesse seu nome.

Orlando entendia melhor.

Talvez porque também tivesse desejado partir quando jovem.

Nunca partira.

O pai adoecera.

Depois veio o casamento.

Depois os filhos.

A vida escolhera por ele.

Por isso, quando Gabriel recebeu a notícia de que um primo havia conseguido para ele um

emprego em Belo Horizonte, Orlando foi o primeiro a dizer:

— Vá.

Celina olhou para o marido.

— Como assim, vá?

— É o que ele quer.

— Ele tem dezenove anos.

— Eu sei.

— Nunca morou sozinho.

— Vai aprender.

— E se alguma coisa acontecer?

Orlando fechou a caderneta que estava conferindo.

— Alguma coisa vai acontecer.

Celina ficou assustada.

— Orlando!

— Estou dizendo que a vida acontece. Aqui ou lá.

Gabriel ouviu a conversa do quarto.

Naquele momento sentiu gratidão pelo pai.

Demoraria anos para entender a mãe.

A semana anterior à viagem foi estranha.

Celina parecia ter decidido que o filho morreria de fome em Belo Horizonte.

Fez biscoitos.

Separou roupas.

Costurou botões.

Comprou meias.

— Tenho meias.

— Essas são melhores.

— O que uma meia pode ter de melhor?

— Quando tiver filho você entende.

Era a resposta para tudo.

Na noite anterior, Gabriel quase não dormiu.

Não por medo.

Por ansiedade.

Finalmente iria embora.

Levantou antes do despertador.

Quando chegou à cozinha, Celina já estava acordada.

Preparava café.

— A senhora dormiu?

— Claro.

Não tinha dormido.

Orlando entrou pouco depois.

Tomaram café quase em silêncio.

Às sete, colocaram a mala no carro de um vizinho que os levaria à rodoviária.

A irmã mais nova chorou.

O irmão mais velho fez piada.

Celina carregou a sacola de comida.

Orlando levou a mala.

Na rodoviária, Gabriel sentiu pela primeira vez um pequeno medo.

Não demonstrou.

Quando o ônibus chegou, Celina começou com as recomendações.

— Cuidado com seus documentos.

— Tá.

— Não aceite bebida de estranho.

— Mãe…

— Ligue quando chegar.

— Ligo.

— E não fique andando de madrugada.

— Eu sei.

— E coma direito.

— Eu vou comer.

Ela ajeitou sua gola.

— E escolha bem as pessoas com quem vai andar.

Gabriel sorriu.

— Acabou?

Celina olhou para ele.

— Não.

Abraçou o filho.

Forte.

Mais forte do que ele esperava.

— Vai com Deus.

Gabriel sentiu os olhos arderem.

Desvencilhou-se rapidamente.

Abraçou o pai.

Orlando bateu duas vezes em suas costas.

— Trabalhe direito.

— Pode deixar.

— E se não der certo…

Gabriel esperou.

— Não tenha vergonha de voltar.

Foi tudo.

Gabriel entrou no ônibus.

Sentou-se junto à janela.

Quando o veículo começou a sair, viu os pais na plataforma.

Celina acenava.

Orlando estava parado ao lado dela.

Gabriel levantou a mão.

Depois o ônibus virou a esquina.

A cidade desapareceu.

E, durante alguns minutos, Gabriel sentiu-se a pessoa mais livre do mundo.

Belo Horizonte não o recebeu com a vida que imaginara.

O emprego era numa distribuidora de materiais elétricos. O salário mal pagava o quarto que

dividia com o primo.

Trabalhava o dia inteiro.

Pegava dois ônibus.

Comia mal.

Sentia falta de casa.

Mas jamais admitiria.

Quando Celina telefonava, perguntava:

— Está comendo?

— Muito.

— Está gostando?

— Muito.

— Precisa de dinheiro?

— Não.

Às vezes precisava.

Orlando quase nunca falava ao telefone.

Quando falava, perguntava:

— Trabalho está bom?

— Está.

— Então continue.

Era sua maneira de dizer que estava orgulhoso.

Com o tempo, Gabriel avançou.

Fez um curso técnico à noite.

Depois faculdade.

Mudou de emprego.

Alugou seu próprio apartamento.

A cidade que inicialmente parecia enorme começou a caber na rotina.

As visitas para casa diminuíram.

No primeiro ano voltou seis vezes.

No segundo, quatro.

Depois apenas no Natal e em algum feriado.

Celina reclamava.

— Você sumiu.

— Mãe, são sete horas de viagem.

— Quando foi embora eram as mesmas sete horas.

Gabriel ria.

— Trabalho demais.

— Eu sei.

Ela sempre dizia que sabia.

Mas nunca deixava de perguntar quando ele voltaria.

Aos vinte e nove anos, Gabriel conheceu Patrícia.

Casaram-se.

Vieram dois filhos.

A distância entre ele e a cidade natal ficou ainda maior.

Agora havia escola das crianças, trabalho da esposa, férias planejadas e compromissos.

Quando visitavam Celina e Orlando, ficavam dois ou três dias.

A casa se enchia.

Celina cozinhava como se esperasse alimentar cinquenta pessoas.

Orlando levava os netos para a mercearia.

E, quando chegava a hora de partir, a mãe repetia:

— Já?

— Mãe, estamos aqui desde quinta.

— Parece que chegaram ontem.

Gabriel respondia:

— No próximo feriado voltamos.

Às vezes voltavam.

Às vezes não.

Os anos passaram.

A mercearia fechou.

Orlando já não tinha saúde para trabalhar e nenhum dos filhos queria continuar o negócio.

Gabriel ofereceu dinheiro aos pais.

Orlando recusou.

— Temos o suficiente.

— Pai, não é favor.

— Eu sei.

— Então aceita.

— Quando precisar, eu peço.

Nunca pediu.

Aos sessenta e nove anos, Orlando sofreu um derrame.

Gabriel recebeu o telefonema durante uma reunião.

Saiu imediatamente.

Dirigiu durante sete horas.

Quando chegou ao hospital, o pai estava consciente.

Falava com dificuldade.

Gabriel segurou sua mão.

— Estou aqui.

Orlando olhou para ele.

Tentou dizer alguma coisa.

Gabriel aproximou-se.

— O quê?

Com esforço, o pai falou:

— Trabalho?

Gabriel começou a rir e chorar ao mesmo tempo.

— O senhor quase morre e está preocupado com meu trabalho?

Orlando sorriu.

Foi a última conversa entre os dois.

Morreu dois dias depois.

Depois do enterro, Gabriel permaneceu alguns dias com a mãe.

Certa noite encontrou Celina na cozinha.

— Vem morar conosco — disse.

Ela nem pensou.

— Não.

— A senhora vai ficar sozinha.

— Eu sei.

— A casa é grande.

— Sempre foi.

— Mãe…

Celina segurou a mão dele.

— Sua vida está lá.

Gabriel ficou incomodado.

— E a senhora?

— Minha vida está aqui.

Ele insistiu.

Ela não foi.

Nos anos seguintes, Gabriel passou a visitar mais.

Talvez por culpa.

Talvez porque começasse a perceber que o tempo não era infinito.

Celina envelhecia.

Primeiro deixou de dirigir.

Depois precisou de alguém para ajudá-la na limpeza.

Aos oitenta anos, finalmente aceitou mudar-se para perto da filha mais nova.

Não vendeu a casa.

— Por quê? — Gabriel perguntou.

— Vai que eu quero voltar.

Nunca voltou.

Celina morreu aos oitenta e quatro anos.

Depois do enterro, os três filhos decidiram vender a casa.

Foi durante a arrumação que Gabriel encontrou uma caixa.

Estava no alto do guarda-roupa dos pais.

Dentro havia fotografias, documentos e cartas antigas.

Entre elas, um envelope com seu nome.

Não estava fechado.

Gabriel abriu.

Era uma folha escrita por Orlando.

A data era conhecida.

O dia em que ele saíra de casa.

Gabriel começou a ler.

Não era uma carta destinada a ele.

Parecia uma anotação que o pai escrevera para si mesmo.

Hoje Gabriel foi embora.

A letra era firme.

Celina está chorando no quarto. Não quer que os meninos vejam.

Gabriel parou.

Continuou.

Eu também queria ter pedido para ele ficar. Mas filho não é árvore para a gente plantar no

quintal e esperar que cresça no mesmo lugar.

Gabriel sentou-se na cama.

Quando eu tinha a idade dele, também quis ir. Não fui. Talvez por isso eu saiba que precisava

deixar.

Havia mais.

Na rodoviária ele parecia feliz. Espero que tenha sido. Quando o ônibus saiu, Celina perguntou

se fizemos certo. Eu disse que sim.

A última frase fez Gabriel parar.

Tomara que um dia ele entenda que deixar um filho partir também é uma forma de amar.

Gabriel baixou o papel.

Durante trinta e dois anos acreditara que conhecia aquele dia.

Agora percebia que conhecia apenas o próprio lado da despedida.

Para ele, aquele fora o dia em que começara a vida.

Para seus pais, fora o dia em que uma parte da casa ficara vazia.

A irmã entrou no quarto.

Encontrou Gabriel chorando.

— O que aconteceu?

Ele entregou a folha.

Ela leu.

Depois sentou-se ao lado.

— A mãe chorou muito naquele dia — contou.

Gabriel olhou para ela.

— Você lembra?

— Lembro.

— Eu nunca soube.

— Você não podia saber. Já tinha ido.

A frase ficou.

Naquela noite, Gabriel dormiu no antigo quarto.

Quase nada permanecia igual.

A cama havia sido trocada.

Os pôsteres tinham desaparecido.

O armário guardava roupas da mãe.

Mesmo assim, quando apagou a luz, conseguiu se lembrar do rapaz de dezenove anos que

estivera ali contando as horas para ir embora.

Queria conversar com ele.

Não para impedir a partida.

Partir tinha sido necessário.

Queria apenas dizer:

Olhe mais uma vez.

Preste atenção.

Abrace sua mãe por alguns segundos a mais.

Pergunte ao seu pai o que ele está sentindo.

Não tenha tanta pressa.

Porque um dia você vai querer lembrar.

Na manhã seguinte, antes de sair, Gabriel foi até a cozinha.

Abriu um armário.

Encontrou uma velha forma de bolo.

Sorriu.

Levou-a consigo.

Patrícia achou estranho quando chegou em casa.

— Você trouxe uma forma velha?

— Trouxe.

— Para quê?

Gabriel pensou.

— Não sei.

Guardou.

Dois anos depois, sua filha mais velha, Júlia, recebeu uma oportunidade de trabalho em Portugal.

Quando contou, Gabriel sentiu o peito apertar.

— Portugal?

— Lisboa.

— É longe.

— Eu sei.

— Você não conhece ninguém lá.

— Vou conhecer.

Gabriel ouviu a própria mãe em sua voz.

Na semana anterior à viagem, começou a dar conselhos.

Documentos.

Dinheiro.

Segurança.

Comida.

Júlia ria.

— Pai, eu tenho vinte e seis anos.

— Continua sendo minha filha.

Na manhã da viagem, Gabriel levantou cedo.

Foi à cozinha.

Patrícia o encontrou tentando fazer um bolo na velha forma de Celina.

— Desde quando você faz bolo?

— Desde hoje.

O resultado não ficou bonito.

Mas ficou comestível.

No aeroporto, entregou uma pequena embalagem à filha.

— O que é isso?

— Bolo.

Júlia começou a rir.

— Pai, o avião serve comida.

Gabriel ficou imóvel.

Por um instante, estava novamente numa pequena rodoviária.

Tinha dezenove anos.

Uma mala marrom.

Uma mãe segurando uma sacola.

Sete horas de estrada pela frente.

Sorriu.

— Eu sei.

Júlia guardou o bolo na mochila.

Quando anunciaram o embarque, ela abraçou os pais.

Gabriel segurou a filha um pouco mais.

— Pai, vou perder o voo.

Ele a soltou.

— Vai.

Júlia deu alguns passos.

Gabriel chamou:

— Filha.

Ela virou.

Havia muitas coisas que ele queria dizer.

Tenha cuidado.

Ligue.

Coma direito.

Escolha bem as pessoas.

Não gaste dinheiro à toa.

Volte quando puder.

Mas acabou dizendo apenas:

— Se não der certo, não tenha vergonha de voltar.

Júlia sorriu.

— Tá bom, pai.

Foi embora.

Gabriel permaneceu diante do portão até não conseguir mais vê-la.

Patrícia segurou sua mão.

— Vamos?

— Espera um pouco.

Ficaram.

Naquela noite, Júlia telefonou de Lisboa.

— Cheguei.

Gabriel respirou aliviado.

— Tudo certo?

— Tudo.

— Comeu?

Houve silêncio.

Depois ela começou a rir.

— Você está virando a vó Celina.

Gabriel sorriu.

— Espero que sim.

Depois que desligou, foi até a gaveta onde guardava a folha escrita pelo pai.

Leu novamente.

Dessa vez compreendeu cada palavra.

Há um momento na vida em que os filhos precisam partir.

E há outro, muitos anos depois, em que finalmente entendem aqueles que ficaram olhando.

Porque o dia em que um filho sai de casa não pertence apenas a quem vai.

Também pertence a quem permanece na porta.

À mãe que prepara comida demais.

Ao pai que esconde o medo atrás de poucas palavras.

Ao quarto que fica silencioso.

À cadeira que sobra à mesa.

A quem precisa sorrir para que o outro tenha coragem de seguir.

Gabriel levou mais de trinta anos para compreender.

Na juventude, acreditara que seus pais estavam apenas se despedindo.

Agora sabia.

Naquele dia, enquanto ele começava uma nova vida, Celina e Orlando faziam uma das coisas

mais difíceis que um pai e uma mãe precisam aprender:

abrir os braços para o filho…

e depois ter coragem de soltá-lo.

Agora fechamos Família e Saudade com a quinta história. A inspiração é “Tocando em

Frente” — Almir Sater e Renato Teixeira. Aqui quero seguir por um caminho um pouco

diferente: menos sobre a perda de uma pessoa e mais sobre aquilo que aprendemos com nossos

pais, com o tempo e com as experiências que a vida vai acumulando.