Durante quarenta anos, Alberto acordou antes das seis.
Não precisava de despertador.
Às cinco e quarenta, seus olhos se abriam.
Às cinco e cinquenta estava no banho.
Às seis e dez tomava café.
Às seis e vinte saía de casa.
Sua mulher, Teresa, costumava brincar:
— Se um dia seu relógio parar, você para junto.
Alberto respondia:
— Quando eu me aposentar, jogo todos fora.
Aposentadoria.
Essa palavra apareceu cedo na vida dele.
Primeiro como brincadeira.
Depois como promessa.
Quando se aposentasse, viajaria.
Quando se aposentasse, pescaria.
Quando se aposentasse, aprenderia a tocar violão.
Quando se aposentasse, acordaria tarde.
Quando se aposentasse, teria tempo para Teresa.
Quando se aposentasse, começaria a viver sem pressa.
Alberto só não percebia uma coisa.
Enquanto esperava a vida começar, ela já estava acontecendo.
Nasceu numa família pobre.
O pai era motorista de ônibus.
A mãe trabalhava como costureira.
Alberto era o mais velho de quatro irmãos.
Começou a trabalhar aos quinze anos numa pequena empresa de materiais elétricos.
Entregava mercadorias.
Organizava estoque.
Fazia o que mandassem.
Seu pai repetia:
— Trabalhe enquanto é novo. Depois descansa.
Alberto acreditou.
Aos vinte e dois anos conheceu Teresa.
Ela era professora.
Tinham temperamentos diferentes.
Alberto planejava tudo.
Teresa gostava de improvisar.
No primeiro passeio juntos, ele apareceu com os horários dos ônibus anotados.
— Você fez uma programação?
— Para não perdermos tempo.
Teresa começou a rir.
— Alberto, nós temos vinte e dois anos. O que mais temos é tempo.
Ele não achou graça.
Décadas depois, lembraria daquela frase.
Casaram-se.
Compraram um pequeno apartamento financiado.
Nasceu Carolina.
Três anos depois, Marcelo.
Alberto subiu na empresa.
Estoquista.
Supervisor.
Gerente.
Cada promoção trazia mais dinheiro.
E menos tempo.
Teresa nunca reclamou diretamente.
Usava perguntas.
— Vai jantar em casa?
— Acho que não.
— Vai ao aniversário da Carolina?
— Vou tentar.
— E à apresentação do Marcelo?
— Que horas termina?
A vida familiar começou a ser organizada em torno da agenda de Alberto.
Ele não percebia isso como ausência.
Percebia como sacrifício.
Trabalhava por eles.
Tudo que fazia era pela família.
Pelo apartamento maior.
Pela escola melhor.
Pelo carro.
Pela segurança.
Um dia descansariam.
Todos.
Quando Carolina tinha nove anos, pediu:
— Pai, vamos à praia domingo?
— Domingo?
— É.
— Talvez.
— Você sempre fala talvez.
Alberto sorriu.
— Então vamos.
Ela abriu um sorriso.
No sábado, o diretor telefonou.
Um problema no estoque.
Alberto precisava aparecer na empresa pela manhã.
Voltou para casa quase às quatro da tarde.
Carolina estava sentada no sofá.
A bolsa de praia ao lado.
— Filha…
— Não precisa.
— Semana que vem.
Ela pegou a bolsa.
— Tudo bem.
Não chorou.
Talvez por isso Alberto tenha esquecido tão depressa.
Carolina não esqueceu.
Os anos passaram.
O apartamento aumentou.
O carro melhorou.
As férias ficaram mais caras.
O tempo continuou pequeno.
Teresa começou a viajar com amigas.
No começo, Alberto não gostava.
— Você vai sem mim?
— Você nunca pode.
— Podemos marcar para outro período.
— Alberto, se eu esperar sua agenda ficar livre, vou conhecer o mundo aos noventa.
Ele ficou ofendido.
— Parece que eu não faço nada por essa família.
Teresa aproximou-se.
— Você faz muito.
Depois completou:
— Talvez até demais.
Ele não entendeu.
Aos cinquenta e oito anos, Alberto começou a fazer contas para a aposentadoria.
Planilhas.
Previdência.
Investimentos.
Despesas.
Tinha uma pasta chamada “Depois”.
Teresa achava engraçado.
— O que tem nessa pasta?
— Nossos planos.
Havia folhetos de viagens.
Informações sobre uma pequena casa no litoral.
Cursos.
Uma lista de lugares que queria conhecer.
Teresa encontrou até um anúncio de aulas de violão.
— Desde quando quer tocar?
— Desde menino.
— Então faça aula.
— Agora?
— Por que não?
— Não tenho tempo.
Ela fechou a pasta.
— Claro.
Aos sessenta e dois, faltavam menos de dois anos.
Alberto falava constantemente sobre isso.
— Quando eu parar, vamos para Portugal.
— Está bem.
— Depois quero conhecer o Nordeste de carro.
— Está bem.
— Podemos passar um mês fora.
— Podemos.
Teresa ouvia.
Mas já não demonstrava o mesmo entusiasmo.
Uma noite, Alberto perguntou:
— Você não quer viajar comigo?
— Quero.
— Então por que essa cara?
Ela demorou.
— Porque você fala como se tivesse certeza de que o tempo vai esperar.
Alberto riu.
— Faltam dois anos.
— Eu sei.
— Dois anos passam rápido.
Teresa respondeu:
— Esse é exatamente o problema.
Seis meses depois, Teresa morreu.
Não houve doença longa.
Não houve tempo para preparação.
Sentiu-se mal numa manhã.
Um aneurisma cerebral.
Hospital.
Cirurgia.
Três dias.
E acabou.
Alberto tinha sessenta e três anos.
Durante semanas, não conseguiu entrar no quarto sem esperar encontrá-la.
As coisas estavam lá.
Roupas.
Livros.
Óculos.
Um creme aberto no banheiro.
A xícara que ela usava.
A bolsa.
Era impossível compreender como uma pessoa podia desaparecer enquanto seus objetos
permaneciam tão tranquilamente no mesmo lugar.
Um mês depois, Alberto abriu a pasta “Depois”.
Ficou olhando.
Portugal.
Nordeste.
Casa no litoral.
Violão.
Viagens.
Tudo estava ali.
Menos Teresa.
Fechou a pasta.
Guardou.
Durante quase um ano não abriu novamente.
Voltou ao trabalho.
Era o único lugar onde sabia exatamente o que fazer.
Planilhas não morriam.
Relatórios não deixavam cadeiras vazias.
Metas eram compreensíveis.
O diretor sugeriu:
— Se quiser adiar a aposentadoria, podemos conversar.
Alberto quase aceitou.
O trabalho oferecia aquilo que sempre oferecera.
Uma maneira de não pensar.
Mas uma noite Carolina apareceu.
— Pai, precisamos conversar.
— Sobre o quê?
— Sobre você.
— Estou bem.
— Não está.
— Estou trabalhando.
— Eu sei.
Ela olhou para ele.
— Você sempre trabalha quando não sabe o que fazer.
Alberto se irritou.
— Vim trabalhando a vida inteira para vocês.
Carolina ficou em silêncio.
Ele percebeu imediatamente que havia alguma coisa naquela frase.
— O que foi?
— Nada.
— Fala.
Ela respirou fundo.
— Às vezes acho que você trabalhou tanto por nós que esqueceu de estar conosco.
A frase doeu.
— Isso é injusto.
— Talvez.
— Nunca faltou nada para vocês.
Carolina olhou para o pai.
— Faltou você algumas vezes.
Alberto levantou-se.
Caminhou pela sala.
— Agora é fácil falar.
— Eu não estou culpando você.
— Parece.
— Estou dizendo porque ainda temos tempo.
Ele parou.
“Ainda temos tempo.”
Teresa teria dito aquilo.
Carolina continuou:
— Mamãe passou anos esperando sua aposentadoria. Você vai passar o resto da vida esperando o
quê?
Alberto não respondeu.
Aposentou-se seis meses antes do planejado.
Na primeira segunda-feira, acordou às cinco e quarenta.
Tomou banho.
Vestiu-se.
Depois percebeu que não tinha para onde ir.
Sentou-se na cozinha.
Ficou olhando o relógio.
Às oito, Carolina telefonou.
— E aí, aposentado?
— Péssimo.
Ela riu.
— Primeiro dia?
— Não sei o que fazer.
— Faz café.
— Já fiz.
— Toma outro.
Foi o que fez.
Os primeiros meses foram estranhos.
Alberto precisava aprender a existir sem produtividade.
Começou caminhando.
Depois passou a buscar a neta, Sofia, na escola duas vezes por semana.
A menina tinha sete anos.
Andava devagar.
Parava para olhar cachorro.
Folha.
Formiga.
Vitrine.
Tudo.
Alberto dizia:
— Sofia, vamos.
— Por quê?
— Estamos demorando.
— Para quê?
Ele não sabia responder.
Um dia ela parou diante de uma árvore.
— Vô, olha.
— O quê?
— As flores.
— Estou vendo.
— Não estava.
Alberto ia responder.
Desistiu.
Ficou olhando.
Eram pequenas flores amarelas.
Nada extraordinário.
Mesmo assim, ficaram alguns minutos ali.
Naquela tarde chegaram em casa quinze minutos mais tarde.
Nada aconteceu.
Alberto matriculou-se em aulas de violão.
Na primeira aula, sentiu vergonha.
Havia alunos muito mais jovens.
O professor perguntou:
— Já tocou alguma vez?
— Não.
— Por que decidiu aprender agora?
Alberto pensou em responder que sempre quisera.
Depois disse:
— Porque descobri que “um dia” não é uma data.
O professor sorriu.
— Então começamos hoje.
No aniversário de sessenta e cinco anos, os filhos perguntaram o que queria ganhar.
— Nada.
Marcelo insistiu.
— Alguma coisa.
Alberto lembrou da pasta.
— Quero viajar.
— Para onde?
— Não sei.
— Com quem?
— Com vocês, se puderem.
Carolina riu.
— Agora você pergunta se podemos?
— Estou aprendendo.
Foram para uma pequena cidade no litoral.
Nada grandioso.
Quatro dias.
Sofia fez castelos na areia.
Marcelo cozinhou.
Carolina levou fotografias antigas.
Numa delas, Teresa aparecia jovem, numa praia.
Alberto ficou olhando.
— Onde foi isso? — perguntou Sofia.
— Antes de sua mãe nascer.
— A bisa Teresa era bonita.
— Muito.
— Você sente saudade?
Alberto respondeu:
— Todo dia.
— Então você fica triste todo dia?
A pergunta surpreendeu.
Pensou.
— Não.
— Por quê?
Ele olhou novamente a fotografia.
— Acho que saudade não é só tristeza.
— O que é?
— É uma maneira de alguém continuar importante.
Sofia aceitou a resposta.
Crianças às vezes compreendem coisas que adultos complicam.
Alberto começou a viajar.
Algumas vezes com os filhos.
Outras sozinho.
Conheceu lugares que estavam na pasta.
Outros que nunca planejara.
Em Portugal, levou uma fotografia de Teresa.
Sentou-se numa praça e colocou a foto sobre a mesa.
— Chegamos — disse.
Uma senhora na mesa ao lado ouviu.
— Falando sozinho?
Alberto sorriu.
— Mais ou menos.
Não explicou.
Com o tempo, percebeu que sua maior mudança não estava nas viagens.
Estava nas coisas pequenas.
Aprendeu a almoçar sem olhar para o relógio.
A telefonar para um amigo sem precisar de motivo.
A aceitar convite feito no mesmo dia.
A visitar o irmão.
A ficar sentado.
A ouvir.
A dizer “sim” antes de perguntar quanto tempo levaria.
Certa tarde encontrou a antiga bolsa de praia de Carolina.
Teresa guardara.
Estava num armário.
Reconheceu imediatamente.
A mesma bolsa do domingo em que prometera levar a filha à praia.
Ligou para ela.
— Você lembra daquela vez que não fomos à praia?
Carolina ficou em silêncio.
— Lembro.
— Eu também.
— Pai, faz cinquenta anos.
— Eu sei.
— Não precisa pedir desculpa por tudo.
— Preciso por algumas coisas.
Ela suspirou.
— Então está desculpado.
— Só isso?
— O que queria? Um documento?
Alberto riu.
Depois ficou sério.
— Eu achava que sempre haveria outro domingo.
Carolina respondeu:
— Às vezes há.
— E às vezes não.
— É.
— Queria ter entendido antes.
— Mas entendeu.
Aos setenta e dois anos, Alberto já tocava violão razoavelmente mal.
Ele mesmo dizia.
Sofia, agora adolescente, gostava de ouvi-lo.
— Toca aquela.
— Qual?
— A que você sempre erra.
— São várias.
Ela ria.
Numa tarde ficaram na varanda.
Sofia perguntou:
— Vô, você tem medo de morrer?
Alberto ficou surpreso.
— De onde veio isso?
— Uma amiga perdeu o avô.
Ele deixou o violão de lado.
Pensou antes de responder.
— Tenho.
— Muito?
— Menos do que antes.
— Por quê?
Alberto olhou para o jardim.
— Porque antes eu tinha medo de morrer sem começar a viver.
Sofia franziu a testa.
— E agora?
Ele sorriu.
— Agora estou ocupado vivendo.
Naquela noite, depois que a neta foi embora, Alberto abriu novamente a velha pasta “Depois”.
Estava amarelada.
Retirou os papéis.
Quase todos os planos tinham acontecido.
Alguns não.
Outros perderam o sentido.
Pegou uma caneta.
Na capa, riscou a palavra:
DEPOIS
Embaixo escreveu:
HOJE
Colocou a pasta na estante.
Durante muitos anos, Alberto acreditara que viver bem significava construir segurança para o
futuro.
Não estava completamente errado.
O futuro importa.
Planejar importa.
Trabalhar importa.
Cuidar de quem amamos também pode significar pagar contas, construir uma casa e oferecer
oportunidades.
Seu erro fora outro.
Confundira preparar a vida com viver.
Como se o presente fosse apenas uma sala de espera.
Como se existisse, em algum ponto mais adiante, uma época perfeita em que finalmente haveria
dinheiro suficiente, tempo suficiente e nenhuma obrigação.
Esse lugar nunca existira.
A vida não começava depois da promoção.
Depois dos filhos crescerem.
Depois de pagar o apartamento.
Depois da aposentadoria.
Depois.
A vida acontecia enquanto tudo isso estava acontecendo.
Nos domingos perdidos.
Nas viagens adiadas.
Mas também nos cafés da manhã.
Nos abraços.
Nas conversas.
Nas flores que ele não havia parado para observar.
Nos minutos que passara tentando economizar.
Alberto não conseguiu recuperar o tempo com Teresa.
Essa era uma verdade que precisou aceitar.
Nenhuma mudança presente consertava completamente o passado.
Mas o passado também não precisava condenar o que ainda restava.
Enquanto existisse um dia pela frente, ainda havia alguma coisa a fazer com ele.
Telefonar.
Visitar.
Perdoar.
Pedir desculpas.
Aprender.
Viajar.
Ou simplesmente sentar ao lado de alguém sem olhar para o relógio.
Naquela noite, Alberto colocou o violão sobre as pernas.
Abriu a janela.
A rua estava tranquila.
Tentou uma música.
Errou um acorde.
Recomeçou.
Errou novamente.
Riu sozinho.
Antigamente teria ficado irritado.
Agora continuou.
Não precisava tocar perfeitamente.
Não precisava transformar aquilo em nada.
Não havia meta.
Nem prazo.
Nem relatório.
Era apenas uma noite.
Uma entre tantas que já haviam passado e tantas que ele não sabia se ainda teria.
E talvez fosse exatamente isso que tornava aquela noite tão valiosa.
Alberto continuou tocando.
Porque finalmente compreendera que a pergunta mais importante não era quanto tempo ainda lhe
restava.
Era o que faria com o dia que ainda tinha.
EPITAFIO
Agora vamos para a 2ª história de Reflexões sobre a Vida, inspirada em “Epitáfio” — Titãs.
O ponto de partida será o arrependimento, mas sem transformar a história em algo triste demais.
Vamos acompanhar alguém que sempre acreditou que ainda haveria tempo para fazer as coisas
que adiava — até um acontecimento inesperado fazê-lo perceber que não é preciso esperar o
fim da vida para descobrir o que gostaríamos de ter vivido diferente.