Toda canção pode esconder uma história.
Primeiro, a história. Depois, a canção.
Amores e Despedidas

O Fio que Ficou

A história que poderia ter existido antes de uma canção

Foi numa manhã de sábado que Vicente decidiu trocar a cama.

Não havia nada de errado com ela. Era de madeira escura, resistente, comprada quase vinte anos

antes numa pequena loja de móveis no centro da cidade. O colchão já tinha sido substituído duas

vezes, mas a estrutura permanecia a mesma. Vicente simplesmente decidiu que estava na hora de

mudar.

Talvez porque algumas coisas permanecessem tempo demais.

Aos cinquenta e dois anos, morava sozinho havia pouco mais de dois. Os filhos, Rafael e

Carolina, já tinham suas próprias vidas. Rafael vivia em Curitiba e Carolina havia se casado e

morava a poucos quilômetros dali.

A casa, que durante anos parecera pequena para quatro pessoas, agora era grande demais para

uma.

Naquela manhã, os homens da loja chegaram pouco depois das nove. Desmontaram a cama

antiga e começaram a retirar as peças. Vicente aproveitou para limpar o espaço que durante anos

permanecera escondido atrás da cabeceira.

Foi quando encontrou.

Primeiro pensou que fosse uma linha.

Abaixou-se.

Era um fio de cabelo comprido e castanho, preso entre a madeira e a parede.

Vicente ficou imóvel.

Não havia nenhuma maneira de saber havia quanto tempo estava ali.

Mas sabia de quem era.

Clara.

Segurou aquele fio entre os dedos e, por algum motivo que não conseguiu explicar, sentou-se no

chão.

Dois anos.

Fazia dois anos que Clara saíra daquela casa.

E bastara um único fio de cabelo para trazê-la de volta inteira.

A primeira lembrança que veio não foi da separação.

Foi de um ônibus.

Vicente tinha vinte e quatro anos quando conheceu Clara durante uma viagem entre Londrina e

Maringá. Ela estava sentada junto à janela e ele ocupava o assento ao lado.

Durante quase uma hora não disseram nada.

Até o ônibus parar por causa de um problema na estrada.

— Vai demorar? — Clara perguntou.

Vicente olhou pela janela como se tivesse alguma autoridade sobre o assunto.

— Acho que não.

— Você trabalha na empresa?

— Não.

Ela riu.

— Então sua opinião não serve para muita coisa.

Foi a primeira conversa.

Quando o ônibus voltou a andar, já sabiam o nome um do outro.

Ao chegar a Maringá, Vicente carregou a mala dela até a plataforma.

— Obrigada.

— Posso perguntar uma coisa?

— Depende.

— Você volta para Londrina quando?

Clara sorriu.

— Domingo.

— Que horas?

— Por quê?

— Para escolher o mesmo ônibus.

Ela voltou no domingo.

Vicente também.

Por acaso, segundo ele.

Clara nunca acreditou.

Namoraram durante três anos e se casaram quando ele tinha vinte e sete e ela, vinte e cinco.

Vicente trabalhava numa empresa de peças agrícolas. Clara era cabeleireira e sonhava ter seu

próprio salão.

No começo moraram numa casa alugada. Tinham poucos móveis, um carro que frequentemente

precisava ser empurrado para pegar e dinheiro contado até o fim do mês.

Clara dizia que aquela era a melhor época da vida deles.

Vicente discordava.

— Melhor vai ser quando tivermos nossa casa.

Depois compraram a casa.

— Agora sim?

— Melhor vai ser quando eu abrir meu negócio.

Clara abriu o salão.

— Agora?

— Quando as crianças crescerem vai ficar mais tranquilo.

As crianças cresceram.

A vida nunca ficou tranquila.

Vicente sempre acreditava que a felicidade estava um pouco adiante.

Clara parecia saber que ela acontecia enquanto eles estavam esperando.

Apesar das diferenças, construíram uma boa vida.

Rafael nasceu primeiro. Carolina veio quatro anos depois. Houve viagens, festas de aniversário,

contas atrasadas, reformas, doenças e domingos em que ninguém tirava o pijama antes do

almoço.

E havia o cabelo de Clara.

Longo durante quase todo o casamento.

Ela reclamava que Vicente deixava roupas espalhadas pela casa. Ele reclamava dos fios de

cabelo.

Estavam no banheiro.

Na pia.

No sofá.

No carro.

Às vezes até em sua camisa.

— Como consegue espalhar cabelo pela casa inteira? — perguntava.

— É talento.

— Tem um no meu paletó.

— Então leve comigo para o trabalho.

— Não quero levar seu cabelo.

— Um dia vai sentir falta.

Vicente ria.

— Duvido.

Anos depois, lembraria daquela conversa.

O casamento não terminou por falta de amor.

Pelo menos não de uma vez.

Terminou por pequenas ausências.

Vicente foi crescendo profissionalmente. Tornou-se gerente, depois diretor comercial. Começou

a viajar mais.

Clara expandiu o salão.

Os filhos cresceram.

Cada um passou a viver numa velocidade diferente.

Durante muito tempo isso funcionou.

Até que Rafael saiu de casa para estudar.

Depois Carolina se casou.

Na primeira noite em que ficaram sozinhos, Clara preparou jantar.

Sentaram-se à mesa.

Sem os filhos, perceberam que havia muito silêncio.

— Parece estranho — disse Clara.

— O quê?

— Só nós dois.

Vicente sorriu.

— Foi assim que começou.

Ela olhou para ele.

— Foi.

Mas havia alguma tristeza naquela resposta.

Nos meses seguintes, Clara começou a falar em viajar.

Queria conhecer Portugal. Depois Itália. Queria passar alguns dias na praia fora de temporada.

Queria fazer coisas que haviam adiado durante anos.

Vicente sempre tinha uma razão.

Reunião.

Fechamento.

Meta.

Viagem de trabalho.

— Ano que vem — dizia.

Até que, certa noite, Clara perguntou:

— Quantos anos você acha que nós temos?

Vicente riu.

— Essa pergunta é perigosa.

— Estou falando sério.

— Cinquenta.

— Exatamente.

— E?

— Quantos “anos que vem” você acha que ainda temos?

Ele não gostou.

— Você está exagerando.

— Talvez.

Ela levantou-se.

— Mas estou cansada de esperar a nossa vida começar.

Vicente não percebeu naquele momento que Clara não estava falando de viagens.

Meses depois, ela pediu a separação.

Ele não acreditou.

— Por causa de uma viagem?

Clara quase riu.

— Você realmente acha que é por causa de uma viagem?

— Então é por quê?

Ela demorou antes de responder.

— Porque eu passei anos tentando viver com você e você passou anos se preparando para viver

depois.

A frase ficou.

Vicente tentou argumentar.

Falou sobre tudo que havia construído.

A casa.

O conforto.

Os estudos dos filhos.

A segurança financeira.

Clara reconheceu tudo.

— Eu sei. Você foi um ótimo pai. Sempre trabalhou por nós.

— Então?

Ela segurou as mãos dele.

— Só esqueceu de estar aqui enquanto fazia tudo isso.

Vicente sentiu como se aquilo fosse uma injustiça.

Talvez porque, em parte, fosse verdade.

A separação aconteceu devagar.

Clara alugou um apartamento e levou seus objetos pessoais.

Vicente permaneceu na casa.

Nos primeiros meses sentiu raiva.

Contava aos amigos que ela havia jogado fora trinta anos de casamento.

Dizia que Clara queria “aproveitar a vida”.

A frase saía sempre com alguma ironia.

Quando alguém perguntava se sentia falta dela, respondia:

— A gente acostuma.

Não acostumava.

Apenas aprendia a esconder melhor.

Havia dias fáceis.

Outros, não.

Domingo era o pior.

Clara sempre colocava música pela manhã. Vicente reclamava do volume.

Depois que ela saiu, a casa ficou silenciosa.

Ele tentou ligar o rádio.

Desligou minutos depois.

Alguns meses após a separação, Clara viajou para Portugal.

Mandou fotografias no grupo da família.

Vicente olhou todas.

Não comentou nenhuma.

Carolina percebeu.

— Pai, por que não curtiu as fotos da mãe?

— Eu vi.

— Ela está feliz.

— Que bom.

— O senhor podia falar isso para ela.

— Ela sabe.

Era sempre assim.

Clara precisava saber sem que Vicente precisasse dizer.

Talvez esse também tivesse sido um dos problemas.

Um ano depois, assinaram o divórcio.

Saíram do cartório juntos.

Na calçada, Clara perguntou:

— Quer tomar um café?

Vicente ficou surpreso.

— Agora?

— Agora.

Foram.

Conversaram sobre os filhos, sobre a casa e sobre coisas práticas.

Quando terminaram, Clara levantou-se.

— Cuide-se.

— Você também.

Ela o abraçou.

Vicente sentiu o perfume que conhecia havia quase trinta anos.

Por alguns segundos teve vontade de pedir que ela voltasse.

Não pediu.

Voltou para casa.

E continuou vivendo.

Até aquela manhã de sábado.

Sentado no chão do quarto, segurando um fio de cabelo.

Um dos homens da mudança apareceu na porta.

— Senhor Vicente, podemos levar a cabeceira?

Ele fechou a mão.

— Pode.

— Está tudo bem?

— Está.

Esperou os homens saírem.

Abriu a mão novamente.

O fio continuava ali.

Vicente sentiu-se ridículo.

Era apenas cabelo.

Algo que durante anos ele encontrara pela casa e jogara fora sem pensar.

Agora parecia incapaz de fazer isso.

Pegou um pequeno envelope na escrivaninha e colocou o fio dentro.

Depois ficou olhando.

— Que idiotice — murmurou.

Mas não jogou fora.

Naquela tarde Carolina apareceu.

Viu a cama nova.

— Finalmente trocou.

— A antiga estava boa.

— Então por que trocou?

— Sei lá.

Ela ajudou o pai a organizar algumas coisas.

Em determinado momento encontrou o envelope.

— O que é isso?

Vicente tentou pegar.

Tarde demais.

Carolina abriu.

— Pai…

Ele ficou constrangido.

— Achei atrás da cama.

A filha olhou para o fio.

— É da mãe?

— Deve ser.

— E o senhor guardou?

— Ia jogar fora.

Carolina sorriu.

— Claro.

— Não começa.

Ela colocou o envelope sobre a mesa.

— O senhor ainda ama a mãe?

Vicente demorou.

— Isso não importa.

— Não foi o que perguntei.

Ele sentou-se.

— Acho que algumas coisas não acabam só porque o casamento acabou.

Carolina ficou quieta.

— Ela sabe?

— Não tem por que saber.

— Pai…

— Sua mãe está vivendo a vida dela.

— E o senhor?

A pergunta incomodou.

— Estou vivendo.

Carolina não insistiu.

Antes de ir embora, beijou o pai.

— Só não espere mais vinte anos para fazer alguma coisa que queira fazer.

Vicente ficou pensando.

Na semana seguinte tirou férias.

Pela primeira vez em muito tempo, sem viagem de trabalho.

Foi para o litoral sozinho.

Caminhou.

Leu.

Dormiu à tarde.

Descobriu que não sabia muito bem o que fazer quando ninguém precisava dele.

Mas começou a aprender.

Meses depois, Clara telefonou.

— Rafael vai ser pai.

Vicente levantou-se da cadeira.

— O quê?

Ela riu.

— Nós vamos ser avós.

Conversaram durante quase uma hora.

Depois disso passaram a falar com mais frequência.

Não sobre voltar.

Sobre a vida.

Clara contou sobre Portugal.

Vicente contou sobre a praia.

— Você tirou férias?

— Tirei.

— Voluntariamente?

— Muito engraçado.

— Estou orgulhosa.

A proximidade cresceu.

Quando o neto nasceu, os dois passaram muitas horas juntos no hospital.

Certa madrugada, enquanto Rafael e a esposa dormiam, Vicente e Clara ficaram sozinhos no

corredor.

— Posso te contar uma coisa ridícula? — ele perguntou.

— Você está me assustando.

— Quando troquei a cama encontrei um fio do seu cabelo.

Clara começou a rir.

— Atrás da cabeceira.

— E?

Vicente hesitou.

— Guardei.

Ela parou de rir.

— Você guardou um fio de cabelo meu?

— Eu disse que era ridículo.

— Onde está?

— Numa gaveta.

Clara olhou para ele por alguns segundos.

— Você reclamou do meu cabelo pela casa durante trinta anos.

— Eu sei.

— Uma vez tirou um da sopa e quase pediu indenização.

Vicente riu.

— Não estava na sopa.

— Estava no prato.

— Pior ainda.

Clara começou a rir novamente.

Depois ficou séria.

— Por que guardou?

Vicente poderia ter inventado uma resposta.

Dessa vez não quis.

— Porque senti sua falta.

Clara baixou os olhos.

— Eu também senti a sua.

Ele ficou imóvel.

— Então por que nós…

Ela interrompeu.

— Sentir falta não apaga o que aconteceu.

— Eu sei.

— E voltar só por saudade seria um erro.

Vicente assentiu.

— Eu sei.

Clara olhou para ele.

— Mas talvez possamos descobrir quem somos agora.

Foi o começo.

Não voltaram a morar juntos.

Não imediatamente.

Começaram com um café.

Depois um jantar.

Depois uma viagem curta.

Vicente foi com Clara para a Argentina e, pela primeira vez na vida, desligou o telefone do

trabalho durante quatro dias.

Ela quase não acreditou.

Um ano depois decidiram morar juntos novamente.

Não na antiga casa.

Venderam-na.

Escolheram um apartamento menor, com uma varanda grande.

No dia da mudança, Clara encontrou um pequeno envelope dentro de uma caixa.

Abriu.

O fio ainda estava ali.

— Você continua guardando isso?

Vicente ficou sem graça.

— Esqueci.

— Mentiroso.

Ela segurou o fio entre os dedos.

Depois abriu a janela.

Vicente percebeu.

— Vai jogar fora?

— Vou.

— Depois de eu guardar esse tempo todo?

Clara sorriu.

— Não precisamos mais dele.

Soltou.

O vento levou o fio.

Vicente acompanhou por alguns segundos até perdê-lo de vista.

Sentiu uma pontada estranha.

Clara segurou sua mão.

— Você não queria guardar?

Ele pensou.

Depois sorriu.

— Não.

Dessa vez era verdade.

Porque finalmente compreendera que aquele pequeno fio nunca fora importante por si mesmo.

Era apenas uma prova de ausência.

Uma coisa insignificante que se tornara preciosa porque era tudo o que restara de alguém que

não estava mais ali.

Agora Clara estava ao seu lado.

Havia novamente cabelos na pia.

No banheiro.

No sofá.

Às vezes até em sua camisa.

Certa manhã, Vicente encontrou um fio sobre o paletó.

Pegou-o entre os dedos.

Clara apareceu na porta.

— O que foi?

Ele mostrou.

— De novo.

Ela sorriu.

— Vai guardar?

Vicente olhou para o fio.

Depois para ela.

— Não.

Jogou no lixo.

Clara começou a rir.

Vicente também.

Porque há lembranças que guardamos quando alguém vai embora.

Um perfume.

Uma fotografia.

Uma carta.

Um objeto sem valor.

Até mesmo um simples fio de cabelo.

Não porque essas coisas possam trazer alguém de volta, mas porque, durante algum tempo, são a

única maneira que encontramos de tocar aquilo que perdemos.

E talvez o verdadeiro reencontro aconteça quando já não precisamos mais delas.

Quando podemos finalmente deixar a lembrança partir.

Porque aquilo que procurávamos guardar…

voltou para casa.

NAQUELA MESA

Fechamos Amores e Despedidas com as cinco histórias. Agora seguimos para o próximo

segmento:

Família e Saudade

A primeira canção escolhida foi “Naquela Mesa” — Sérgio Bittencourt, consagrada na voz

de Nelson Gonçalves.

Para esta, quero trabalhar a saudade de um pai a partir das pequenas coisas que permanecem

dentro de uma casa depois que ele se vai.