Toda canção pode esconder uma história.
Primeiro, a história. Depois, a canção.
Estradas e Viagens

O Homem das Muitas Estradas

A história que poderia ter existido antes de uma canção

Ninguém sabia exatamente onde Vicente morava.

Quando perguntavam, ele costumava responder:

— Depende do dia.

Às vezes dormia em Petrolina.

Outras em Juazeiro, Salgueiro, Arcoverde, Caruaru ou alguma cidade pequena cujo nome

esquecia poucos meses depois.

Conhecia pousadas onde nem precisava apresentar documento.

Restaurantes onde bastava sentar para a cozinheira perguntar:

— O de sempre?

Postos de gasolina onde frentistas o cumprimentavam pelo nome.

E estradas que conseguia percorrer quase sem olhar as placas.

Durante mais de quarenta anos, Vicente vendeu de tudo.

Começou com tecidos.

Depois vieram utensílios domésticos, ferramentas, rádios, relógios, produtos de limpeza e, por

último, peças para máquinas agrícolas.

Nunca ficou rico.

Mas conheceu lugares suficientes para acreditar que tivera uma vida grande.

Aos sessenta e sete anos, possuía um carro, duas malas, uma pequena casa quase sempre fechada

e milhares de quilômetros guardados na memória.

Era exatamente a vida que escolhera.

Pelo menos era isso que dizia.

Vicente nasceu numa pequena propriedade rural no sertão pernambucano.

Era o quarto de sete filhos.

Seu pai, Raimundo, plantava milho e feijão e criava alguns animais.

A mãe, Josefa, comandava a casa.

Na infância, Vicente gostava de observar os homens que apareciam de tempos em tempos

vendendo mercadorias.

Chegavam em caminhonetes carregadas.

Traziam tecidos coloridos.

Panelas.

Ferramentas.

Notícias.

Histórias de lugares distantes.

Para o menino, pareciam homens vindos de outro mundo.

Certa vez, um vendedor chamado Ezequiel passou a noite na casa da família porque o carro

quebrara.

Durante o jantar contou que estivera em Salvador, Recife, Fortaleza e Natal.

Vicente ouviu fascinado.

— O senhor conhece tudo isso?

Ezequiel riu.

— Conheço estrada.

— É a mesma coisa?

O homem pensou.

— Quase.

Vicente tinha doze anos.

Naquela noite decidiu que seria viajante.

Quando contou ao pai, Raimundo não demonstrou entusiasmo.

— Viajante de quê?

— De qualquer coisa.

— Isso é profissão?

— Seu Ezequiel vive disso.

— Seu Ezequiel quebrou o carro no meio do nada.

— Mas conhece o Brasil.

Raimundo continuou comendo.

— Conhecer lugar é diferente de conhecer a vida.

Vicente não entendeu.

Também não queria entender.

Aos dezenove anos, foi trabalhar numa loja de tecidos em Caruaru.

Seis meses depois, o proprietário perguntou se ele gostaria de fazer vendas em outras cidades.

Vicente quase respondeu antes da pergunta terminar.

Recebeu uma mala com amostras e uma lista de clientes.

A primeira viagem durou oito dias.

Quando voltou, Josefa perguntou:

— Sentiu saudade?

— Nem deu tempo.

A mãe sorriu.

— Um dia dá.

Vicente achou graça.

Nos anos seguintes, viajou cada vez mais.

Aprendeu a vender.

Sabia conversar com comerciante desconfiado.

Sabia esperar.

Sabia quando insistir e quando guardar o catálogo.

Conhecia atalhos.

Aprendeu a trocar pneu debaixo de chuva.

A dormir em quarto ruim.

A comer qualquer coisa.

A conversar com desconhecidos.

Gostava principalmente da sensação de partir.

Havia algo de novo sempre esperando depois da próxima curva.

Foi numa dessas viagens que conheceu Margarida.

Ela trabalhava na recepção de um pequeno hotel em Garanhuns.

Vicente chegou tarde.

— Tem quarto?

— Tem.

— Com banheiro?

— Tem.

— Água quente?

Margarida levantou os olhos.

— O senhor quer quarto ou está comprando a pousada?

Vicente sorriu.

— Depende do preço.

Ela não sorriu.

Vicente gostou imediatamente.

Durante três dias inventou motivos para passar pela recepção.

No quarto dia convidou-a para tomar café.

— Eu trabalho aqui.

— Depois do trabalho.

— O senhor vai embora amanhã.

— Posso voltar.

— Viajante sempre fala isso.

Vicente voltou.

Duas semanas depois.

Depois novamente.

Começaram a namorar.

Margarida sabia quem ele era.

Nunca pediu que abandonasse as viagens.

Quando se casaram, porém, fez uma pergunta:

— Você pretende continuar na estrada até quando?

Vicente respondeu:

— Enquanto eu gostar.

— E depois?

— Depois eu paro.

Parecia razoável.

Na época, os dois tinham vinte e poucos anos.

O “depois” parecia muito distante.

Alugaram uma casa pequena.

Vicente ficava fora dez ou quinze dias.

Voltava com presentes.

Tecidos para Margarida.

Brinquedos quando nasceu a primeira filha, Elisa.

Depois veio Pedro.

Vicente adorava chegar.

As crianças corriam para a porta.

Margarida preparava sua comida preferida.

Ele abria a mala e distribuía lembranças.

Durante dois ou três dias, a casa parecia uma festa.

Então começava a ficar inquieto.

Organizava papéis.

Conferia o carro.

Telefonava para clientes.

Margarida percebia.

— Já está querendo ir?

— Preciso trabalhar.

— Eu perguntei se está querendo.

Vicente evitava responder.

Porque estava.

Amava a família.

Mas também amava partir.

Na estrada ninguém perguntava que horas chegaria.

Ninguém reclamava de toalha molhada.

Não havia conta da escola sobre a mesa.

Nem torneira para consertar.

Nem discussão sobre dinheiro.

Na estrada, Vicente era apenas Vicente.

E durante muito tempo confundiu isso com liberdade.

Os filhos cresceram aprendendo a esperar.

— Seu pai chega sexta — dizia Margarida.

Às vezes chegava.

Às vezes sábado.

Às vezes telefonava:

— Apareceu um cliente em outra cidade.

Elisa começou a não acreditar nas datas.

Pedro também.

Num aniversário de doze anos, Pedro ficou esperando o pai.

Vicente prometera chegar antes do bolo.

Não chegou.

Telefonou às nove da noite.

— Filho, tive um problema.

Pedro respondeu:

— Tudo bem.

Mas não estava.

Vicente voltou no dia seguinte com uma bicicleta.

— Gostou?

— Gostei.

— Então me dá um abraço.

Pedro abraçou.

Vicente acreditou que estava resolvido.

Anos depois descobriria que presentes consertam muito menos coisas do que imaginamos.

Margarida nunca fez grandes cenas.

Talvez por isso Vicente demorasse tanto para perceber sua tristeza.

Uma noite, depois de vinte e três anos de casamento, voltou de viagem e encontrou duas malas

na sala.

— Vamos viajar?

— Eu vou.

Vicente riu.

— Para onde?

— Recife.

— Fazer o quê?

— Morar com Elisa por um tempo.

Ele parou de sorrir.

— Por quê?

Margarida sentou-se.

— Estou cansada.

— De quê?

Ela olhou para ele.

— De ser o lugar onde você deixa as malas entre uma viagem e outra.

A frase o atingiu.

— Isso não é verdade.

— É como eu me sinto.

— Eu trabalho por vocês.

— Eu sei.

— Nunca faltou nada.

— Faltou você.

Vicente levantou-se.

— Agora vai dizer que fui um pai ruim?

— Não.

— Marido ruim?

— Também não.

— Então qual é o problema?

Margarida demorou.

— Você sempre está indo embora.

Vicente não sabia se defender daquela frase.

Porque era verdade.

— Quer que eu pare de trabalhar?

— Não quero mais pedir.

— Então o que você quer?

Ela olhou para as malas.

— Descobrir como é viver sem esperar alguém voltar.

Margarida foi embora.

Vicente acreditou que seria por algumas semanas.

Não foi.

Meses depois conversaram.

Tentaram.

Mas alguma coisa havia terminado.

Divorciaram-se.

Vicente fez o que sabia fazer.

Pegou a estrada.

Passou a viajar ainda mais.

Quando alguém perguntava sobre casamento, respondia:

— Não nasci para ficar parado.

Transformou a perda em filosofia.

Era mais fácil.

Elisa casou.

Vicente compareceu.

Pedro formou-se.

Também compareceu.

Vieram os netos.

Ele aparecia com presentes.

Ficava dois dias.

Depois partia.

— Vô, fica mais — pedia uma das meninas.

— Preciso trabalhar.

— O senhor sempre precisa trabalhar.

Vicente ria.

Mas aquela frase começou a acompanhá-lo.

Aos sessenta e dois anos, a empresa para a qual trabalhava sugeriu aposentadoria.

Vicente recusou.

— Ainda dou conta.

Aos sessenta e cinco, diminuíram sua região.

Aos sessenta e sete, chamaram para uma reunião.

O gerente era mais jovem que Pedro.

— Seu Vicente, a empresa está mudando o modelo comercial.

Ele entendeu antes do fim.

Representantes mais jovens.

Pedidos pela internet.

Videoconferências.

Menos visitas.

Menos estrada.

Recebeu uma boa indenização.

Saiu da empresa numa sexta-feira.

Na segunda, acordou às cinco e meia.

Tomou banho.

Vestiu-se.

Pegou a chave do carro.

Só então lembrou.

Não havia para onde ir.

Ficou parado na cozinha.

A casa estava silenciosa.

Pela primeira vez em quase cinquenta anos, ninguém o esperava em outra cidade.

Nas primeiras semanas inventou viagens.

Visitou antigos clientes.

— Passando para dar um abraço.

Alguns ficaram felizes.

Outros estavam ocupados.

Algumas lojas já pertenciam aos filhos dos homens com quem negociara.

Uma havia fechado.

Outra virara farmácia.

Vicente começou a perceber algo estranho.

Conhecia dezenas de cidades.

Mas em quase nenhuma delas tinha alguém a quem pudesse telefonar simplesmente para dizer:

— Estou chegando.

Conhecera muita gente.

Poucas pessoas conheciam realmente sua vida.

Numa tarde, entrou numa pousada onde ficara centenas de vezes.

Havia uma nova recepcionista.

— Documento, por favor.

Vicente estranhou.

— Sou Vicente.

A moça sorriu educadamente.

— Preciso do documento mesmo assim.

Ele entregou.

Não havia nada de errado.

Ainda assim, quando entrou no quarto, sentiu-se velho.

Durante anos acreditara que aqueles lugares também eram um pouco seus.

Descobria agora que pertencera a eles apenas enquanto passava.

Na manhã seguinte decidiu visitar Margarida.

Não a via havia quase um ano.

Ela continuava em Recife.

Telefonou.

— Posso passar aí?

— Está na cidade?

— Mais ou menos.

— O que significa?

— Estou a cento e cinquenta quilômetros.

Margarida começou a rir.

— Só você acha isso perto.

Encontraram-se num café.

Ela estava diferente.

Cabelos completamente brancos.

Óculos.

A mesma maneira de olhar.

— Soube que aposentou — disse.

— Quem contou?

— Pedro.

— Aquilo não foi aposentadoria.

— Foi o quê?

— Fui dispensado.

— Aos sessenta e sete anos, Vicente, chama aposentadoria.

Conversaram.

Pela primeira vez em muito tempo, sem pressa.

Vicente perguntou:

— Você foi feliz comigo?

Margarida se surpreendeu.

— Por que está perguntando agora?

— Porque agora tenho tempo de ouvir.

Ela abaixou os olhos.

— Fui.

Vicente não esperava.

— Foi?

— Muitas vezes.

— Então por que…

— Uma coisa não apaga a outra.

Ela mexeu o café.

— Eu gostava de ver você chegando.

— E odiava quando eu saía.

— No começo.

— Depois?

— Depois aprendi a não esperar tanto.

Aquilo doeu mais do que qualquer acusação.

— Eu achava que estava dando uma vida boa para vocês.

— E deu muitas coisas boas.

Margarida tocou a mão dele.

— Só não estava lá para viver algumas delas.

Vicente permaneceu em silêncio.

— Eu errei?

Margarida pensou.

— Você viveu como sabia viver.

— Não respondeu.

— Porque talvez não exista uma resposta simples.

Ele olhou pela janela.

— Eu gostava da estrada.

— Eu sei.

— Ainda gosto.

— Também sei.

— Mas agora parece diferente.

— O que mudou?

Vicente demorou.

— Antes eu sempre tinha para onde voltar.

Margarida compreendeu.

Quando saiu dali, não pegou imediatamente a estrada.

Foi visitar Elisa.

Ficou uma semana.

A filha estranhou no terceiro dia.

— Está tudo bem?

— Está.

— Não vai viajar?

— Não tenho viagem.

— Está doente?

Vicente riu.

— Vocês têm uma opinião maravilhosa sobre mim.

Começou a buscar os netos na escola.

Fez almoço.

Consertou uma porta.

Descobriu que uma das netas tocava violão.

Não sabia.

Descobriu que o neto mais velho queria estudar Veterinária.

Também não sabia.

Havia tantas coisas acontecendo na própria família que nenhuma estrada lhe mostrara.

Depois visitou Pedro.

Ficou mais uma semana.

No final, o filho perguntou:

— Pai, o senhor está se despedindo?

— Como assim?

— Nunca ficou tanto tempo com a gente.

Vicente sentiu vergonha.

— Estou tentando fazer o contrário.

Pedro sorriu.

Meses depois, Vicente vendeu a casa que mantinha quase sempre fechada.

Comprou outra menor, entre as cidades onde os filhos moravam.

Não parou de viajar.

Seria impossível.

Mas as viagens mudaram.

Já não saía porque precisava estar sempre em movimento.

Às vezes levava os netos.

Outras, Margarida aceitava acompanhá-lo.

Não voltaram a ser marido e mulher.

Tornaram-se alguma coisa diferente.

Dois velhos amigos que compartilhavam uma história grande demais para desaparecer.

Numa dessas viagens, pararam numa pequena cidade do interior.

Sentaram-se diante de uma praça.

Margarida perguntou:

— Você sabe onde estamos?

Vicente olhou ao redor.

— Não.

Ela começou a rir.

— Finalmente.

— O quê?

— Encontramos um lugar que você não conhece.

Vicente sorriu.

— Melhor ainda.

Ficaram ali.

Sem horário.

Sem cliente esperando.

Sem obrigação de seguir.

Alguns anos depois, Vicente decidiu refazer uma antiga rota pelo sertão.

Levou o neto Rafael, de dezessete anos.

Passaram por cidades onde trabalhara.

Vicente contava histórias.

— Aqui fiquei três dias porque uma ponte caiu.

Mais adiante:

— Nesse restaurante conheci um homem que vendia sanfona.

Rafael perguntou:

— Vô, quantos quilômetros o senhor já dirigiu?

Vicente riu.

— Nem Deus contou.

— O senhor não cansava?

— Cansava.

— Então por que continuava?

Vicente olhou para a estrada.

Durante muitos anos teria respondido:

“Porque eu gostava.”

Ainda era verdade.

Mas agora havia mais.

— Talvez porque eu achasse que parar era perder alguma coisa.

— E era?

Vicente pensou.

— Às vezes era o contrário.

Rafael ficou esperando.

— Como assim?

— Enquanto eu estava procurando coisa nova lá na frente, algumas coisas importantes estavam

acontecendo atrás de mim.

O rapaz permaneceu em silêncio.

Depois perguntou:

— Se pudesse voltar, faria diferente?

Vicente diminuiu a velocidade.

Era uma pergunta difícil.

Se apagasse as estradas, apagaria também grande parte de quem era.

— Eu viajaria.

— Igual?

— Não.

— O que mudaria?

Vicente sorriu.

— Voltaria mais vezes.

Naquela noite ficaram numa pousada simples.

Depois do jantar, sentaram-se do lado de fora.

Havia poucas luzes.

O céu estava cheio de estrelas.

Rafael mexia no celular.

Vicente observava a estrada.

Um ônibus passou ao longe.

Depois um caminhão.

E o silêncio voltou.

Ele pensou no menino que um dia ouvira um vendedor contar histórias sobre cidades distantes.

Pensou no rapaz que saíra de casa acreditando que liberdade era não permanecer.

Pensou em Margarida.

Nos filhos.

Nos aniversários perdidos.

Nas chegadas.

Nas partidas.

Nas centenas de quartos onde dormira.

Nos milhares de quilômetros.

Não odiava aquela vida.

Muito pelo contrário.

Amava-a.

Talvez fosse justamente por isso que agora conseguia enxergá-la inteira.

Toda escolha entrega alguma coisa.

E toda escolha também cobra.

A estrada lhe dera horizontes.

Mas levara domingos.

Deu-lhe histórias.

Levou aniversários.

Deu-lhe liberdade.

E, durante algum tempo, quase levou o lugar para onde voltar.

Rafael guardou o telefone.

— Amanhã vamos até onde?

Vicente olhou para ele.

— Não sei.

— Não tem roteiro?

— Tenho.

— Então por que não sabe?

Vicente sorriu.

— Porque podemos mudar.

O neto pareceu gostar da resposta.

Na manhã seguinte partiram cedo.

Poucos quilômetros depois, chegaram a uma bifurcação.

Rafael apontou:

— O GPS manda pela direita.

Vicente diminuiu.

À esquerda havia uma estrada menor.

Uma placa indicava uma cidade que ele nunca visitara.

— Vamos pela esquerda.

— Mas demora mais.

Vicente olhou para o neto.

— Estamos com pressa?

Rafael pensou.

— Não.

— Então pronto.

Viraram.

Vicente abriu a janela.

O vento entrou.

A estrada seguia entre pequenas propriedades e serras distantes.

Por um instante, sentiu novamente a alegria que experimentara na primeira viagem, quase

cinquenta anos antes.

Mas havia uma diferença.

Naquela época, acreditava que a felicidade estava sempre no lugar seguinte.

Agora sabia que não.

Algumas vezes estava na partida.

Outras, na chegada.

Às vezes estava simplesmente no caminho.

E muitas vezes estava justamente nas pessoas que viajavam conosco.

Vicente seguiu dirigindo.

Ainda gostava de não saber o que existia depois da curva.

Provavelmente gostaria até o último dia.

Mas finalmente aprendera algo que seu pai tentara lhe ensinar quando ele ainda era menino:

conhecer muitas estradas não significa necessariamente conhecer a vida.

A vida também acontece quando ficamos.

Quando esperamos.

Quando retornamos.

Quando aprendemos o nome das pessoas que permanecem depois que a viagem termina.

Vicente passou décadas dizendo que sua casa dependia do dia.

Agora já sabia responder de outra maneira.

Casa não era o lugar onde estacionava o carro.

Nem o quarto onde passava a noite.

Nem a cidade registrada nos documentos.

Casa era onde alguém percebia sua chegada.

E sentia sua falta quando ele partia.

Depois de uma vida inteira viajando, Vicente finalmente descobrira a diferença entre estar livre

para ir embora e ter um lugar para onde voltar.

ASA BRANCA

Agora fechamos Estradas e Viagens com a 5ª história, inspirada em “Asa Branca” — Luiz

Gonzaga e Humberto Teixeira.

Aqui a estrada nasce por necessidade. É a história de uma família obrigada a abandonar sua terra

pela seca e de um homem que passa anos carregando a esperança de que um dia a chuva permita

o caminho de volta.