Quando Bento montou num cavalo pela última vez para conduzir uma boiada, tinha cinquenta e
oito anos.
Ninguém sabia que seria a última.
Nem ele.
A madrugada ainda escondia a paisagem quando os homens começaram a reunir o gado.
Mais de quatrocentas cabeças.
O destino ficava a quase duzentos quilômetros.
Bento ajeitou o chapéu, conferiu a sela e observou os rapazes.
Havia seis peões.
O mais novo, Tiago, tinha dezenove anos.
Era quase a mesma idade que Bento tinha quando fizera sua primeira viagem.
— Pronto, seu Bento? — perguntou o rapaz.
Bento olhou para a estrada.
— Pronto a gente nunca está.
Tiago riu.
— Então vamos assim mesmo?
— É assim que quase todo mundo vai.
Deram partida à boiada.
O som dos cascos começou a levantar poeira.
Bento seguiu atrás.
Durante décadas aquele fora seu mundo.
O cavalo.
A estrada.
O gado.
As ordens.
Naquela manhã, porém, enquanto via os animais seguindo todos na mesma direção, teve uma
sensação que não soube explicar.
Talvez porque começasse a perceber que passara grande parte da vida fazendo exatamente a
mesma coisa.
Bento nasceu numa fazenda no interior de Goiás.
O pai, Severino, era peão.
A mãe, Francisca, trabalhava na cozinha da sede.
A família morava numa pequena casa cedida pelo proprietário.
Bento cresceu entre cercas, currais e pastagens.
Aos sete anos já montava.
Aos dez ajudava o pai.
Aos treze deixou a escola.
A professora tentou convencer Severino.
— O menino aprende rápido.
O pai respondeu:
— Preciso dele.
Bento ouviu.
Não reclamou.
Naquela época, filho não discutia decisão de pai.
No dia seguinte foi trabalhar.
Severino ensinou tudo.
Como observar o céu.
Como perceber animal doente.
Como atravessar rio.
Como dormir no chão.
Como conduzir uma boiada sem assustá-la.
— Nunca brigue com o gado — dizia. — Descubra para onde ele quer ir e faça parecer que foi
você quem escolheu.
Bento achava aquilo inteligente.
Anos depois descobriria que a frase servia para muito mais do que gado.
Aos dezessete anos começou a acompanhar viagens.
Gostava.
Era diferente da rotina da fazenda.
Dormiam sob o céu.
Atravessavam cidades.
Conheciam pessoas.
Bento sentia-se livre.
Não percebia que todas as estradas já tinham destino determinado por outra pessoa.
Quem decidia quantos animais.
Para onde.
Quando sair.
Quando chegar.
Quanto pagar.
Era sempre alguém.
O proprietário.
O comprador.
O capataz.
Bento apenas conduzia.
Mas naquela idade isso não incomodava.
Aos vinte e dois conheceu Rosa.
Ela era filha de um pequeno comerciante da região.
Encontraram-se numa festa.
Bento dançava mal.
Rosa percebeu.
— Você está contando os passos?
— Estou.
— Pare.
— Se eu parar, piso no seu pé.
— Já pisou duas vezes.
Bento ficou vermelho.
Ela riu.
Começaram a namorar.
Rosa gostava de conversar.
Bento gostava de ouvi-la.
Ela queria ter uma pequena venda.
Talvez uma casa na cidade.
Filhos estudando.
Bento não tinha planos tão definidos.
Quando ela perguntou:
— O que você quer da vida?
Ele respondeu:
— Trabalhar.
— Isso não é o que eu perguntei.
— Quero ter minhas coisas.
— Quais?
Bento ficou sem resposta.
Nunca tinha pensado.
Rosa percebeu.
— Você devia pensar.
Casaram-se dois anos depois.
Foram morar numa casa da fazenda.
Bento tornou-se peão fixo.
Depois capataz.
Vieram dois filhos.
Pedro.
E depois Mariana.
Rosa criou galinhas.
Plantou horta.
Costurava.
Guardava dinheiro.
Sempre que Bento recebia, ela separava um pouco.
— Para quê?
— Para nós.
— Isso aqui não é nosso?
Rosa olhava para a casa.
— Não.
Bento não gostava da resposta.
Mas era verdade.
A casa era da fazenda.
O pasto era da fazenda.
Os animais eram da fazenda.
Até o cavalo que montava pertencia ao patrão.
— Um dia compramos um pedaço de terra — dizia Rosa.
Bento ria.
— Com esse dinheiro?
— Começa com esse.
Ela guardava mesmo assim.
O dono da fazenda chamava-se coronel Arnaldo.
Não era coronel de verdade.
Mas todos o chamavam assim.
Herdara milhares de hectares.
Era respeitado.
Temido por alguns.
Bento aprendera desde criança:
quando o coronel mandava, fazia-se.
Se precisava levar gado, levava.
Se precisava trabalhar domingo, trabalhava.
Se queria dispensar alguém, dispensava.
Bento não via aquilo como injustiça.
Era apenas como o mundo funcionava.
Seu pai vivera assim.
Os outros peões também.
Um dia, Pedro, então com quinze anos, disse:
— Não quero trabalhar aqui.
Bento estava consertando uma cerca.
— Ninguém chamou.
— Quando eu terminar a escola.
— Vai fazer o quê?
— Quero estudar Agronomia.
Bento riu.
— E dinheiro?
— Posso tentar bolsa.
— Faculdade é coisa de gente com dinheiro.
Pedro ficou sério.
— Não precisa ser.
— Quem colocou isso na sua cabeça?
— Professora Célia.
Bento irritou-se.
— Professora devia ensinar matéria.
Pedro respondeu:
— Foi o que ela fez.
Bento levantou-se.
— Está respondendo para mim?
O menino ficou calado.
Naquela noite Rosa falou:
— Deixa ele tentar.
— Para quê?
— Porque ele quer.
— Querer não basta.
— Talvez não. Mas ajuda.
Bento olhou para a mulher.
— Eu parei de estudar para trabalhar.
— Eu sei.
— Meu pai também.
Rosa respondeu:
— Isso não significa que Pedro precise fazer igual.
Bento ficou em silêncio.
Era uma ideia estranha.
Até então, imaginara a vida como uma trilha.
Os filhos seguiam os pais.
Os pais haviam seguido os avós.
Rosa estava dizendo que talvez existissem outros caminhos.
Pedro terminou a escola.
Conseguiu uma bolsa parcial.
Foi estudar na cidade.
Bento não demonstrou orgulho.
Também não tentou impedir.
Na despedida, entregou ao filho algum dinheiro.
— Não gaste com bobagem.
— Pode deixar.
— E se não der certo…
Pedro esperou.
— Volta.
O filho sorriu.
— Volto.
Bento observou o ônibus partir.
Sentiu uma coisa que não conhecia.
Inveja.
Não do filho.
Da possibilidade.
Pedro estava indo para um lugar que ele próprio escolhera.
Dois anos depois, Severino morreu.
Tinha setenta e três anos.
Trabalhara até poucos meses antes.
Depois do enterro, Bento encontrou uma pequena caixa entre as coisas do pai.
Dentro havia documentos, fotografias e um caderno.
Severino quase nunca escrevia.
Por isso Bento estranhou.
As páginas tinham contas.
Datas.
Algumas anotações.
Numa delas:
“Bento saiu primeira boiada hoje.”
Outra:
“Pedro nasceu.”
Mais adiante havia uma frase:
“Queria ter comprado terra. Não deu.”
Bento leu novamente.
Nunca ouvira o pai falar nisso.
Virou a página.
“Talvez Bento consiga.”
Ficou parado.
O pai tivera um sonho.
E nunca contara.
Por quê?
Talvez porque homens como Severino tivessem aprendido que desejar coisas que pareciam
impossíveis só aumentava o peso da vida.
Bento guardou o caderno.
Pouco tempo depois, Rosa mostrou quanto tinham economizado.
Bento se surpreendeu.
— Tudo isso?
— Faz vinte anos que estou guardando.
— Dá para quê?
— Entrada numa propriedade pequena.
Ela havia encontrado uma.
Quarenta hectares.
Terra simples.
Uma casa velha.
Um córrego.
Bento visitou.
Gostou.
Mas sentiu medo.
— E se não der certo?
— Pode não dar.
— E se perdermos tudo?
— Podemos perder.
— Então por que fazer?
Rosa olhou para ele.
— Porque também podemos passar a vida inteira aqui esperando alguém decidir por nós.
A frase incomodou.
Naquela semana, o coronel Arnaldo chamou Bento.
— Soube que está pensando em comprar terra.
Bento ficou surpreso.
— Quem falou?
— Cidade pequena.
O coronel acendeu um cigarro.
— Não faça besteira.
— Por quê?
— Terra pequena não dá dinheiro.
— Talvez dê para viver.
— Você vive bem aqui.
Bento olhou ao redor.
— Vivo.
— Tem casa.
— Sua.
— Tem trabalho.
— Seu.
O coronel percebeu o tom.
— Está reclamando?
Bento imediatamente recuou.
— Não.
— Então não invente problema.
Saiu.
Durante todo o dia ficou pensando.
“Não invente problema.”
Talvez comprar terra fosse realmente um problema.
Talvez Rosa estivesse sonhando demais.
Talvez o coronel soubesse mais.
À noite contou à mulher.
— E desde quando ele decide o que fazemos com nosso dinheiro? — perguntou Rosa.
— Ele conhece negócio.
— Conhece o negócio dele.
Bento não respondeu.
Não compraram.
A propriedade foi vendida para outra pessoa.
Rosa não discutiu.
Foi pior.
Durante meses, Bento percebeu uma tristeza silenciosa nela.
Um dia perguntou:
— Está com raiva?
— Não.
— Então?
— Estou cansada de esperar você decidir viver a própria vida.
Bento ficou ofendido.
— Minha vida é essa.
— Porque escolheu?
Ele abriu a boca.
Fechou.
Rosa continuou:
— Ou porque nunca escolheu outra?
A pergunta o acompanhou durante anos.
Pedro se formou.
Mariana tornou-se professora.
Os dois foram embora.
Bento continuou na fazenda.
Tornou-se o homem de confiança do coronel.
Quando Arnaldo morreu, o filho assumiu.
Chamava-se Eduardo.
Tinha quase a idade de Pedro.
No primeiro mês, começou a modernizar tudo.
Máquinas.
Caminhões.
Novos métodos.
Menos peões.
Um dia chamou Bento.
— Seu Bento, vamos diminuir as viagens de boiada.
— Eu sei.
— Transporte por caminhão sai mais rápido.
Bento assentiu.
— O senhor pode continuar aqui. Precisamos de alguém experiente.
Era uma boa notícia.
Mesmo assim, alguma coisa nele se moveu.
O mundo que acreditara permanente estava desaparecendo.
E não lhe perguntara se podia.
Foi nessa época que surgiu outra propriedade à venda.
Menor que a primeira.
Vinte e oito hectares.
Rosa mostrou.
— Não vou falar nada.
— Já falou.
— Só mostrei.
Bento tinha cinquenta e oito anos.
Pensou no caderno do pai.
“Queria ter comprado terra. Não deu.”
Pensou em Pedro.
Na estrada que escolhera.
Pensou na primeira propriedade perdida.
— Vamos ver.
Rosa não demonstrou entusiasmo.
Sabia que ainda havia muita distância entre olhar e decidir.
Antes que fechassem negócio, Bento recebeu a tarefa de conduzir uma última grande boiada.
Quatrocentas cabeças.
Foi naquela viagem que Tiago o acompanhou.
O rapaz falava muito.
— Quero juntar dinheiro.
— Para quê?
— Comprar caminhão.
— Para carregar boi?
— Talvez.
— Então vai acabar com meu trabalho.
Tiago riu.
— O senhor já devia estar aposentado.
— Respeita os mais velhos.
Durante a viagem, Bento observava o rapaz.
Tinha sonhos.
Planos.
Perguntas.
Numa noite, acampados, Tiago perguntou:
— Seu Bento, o senhor sempre quis ser peão?
Bento quase respondeu sim.
Era a resposta automática.
Mas pensou.
— Não sei.
— Como não sabe?
— Nunca me perguntaram.
Tiago riu.
— Estou perguntando agora.
Bento olhou para o fogo.
— Quando eu era menino, queria aprender a ler direito.
— Só isso?
— Naquela época já parecia muito.
— E depois?
Bento demorou.
— Depois parei de querer coisa.
O rapaz ficou quieto.
Talvez não soubesse o que responder.
Bento também não.
Na manhã seguinte, continuaram.
Em determinado trecho, parte do gado se assustou.
Alguns animais tentaram sair da rota.
Os homens correram.
Gritos.
Poeira.
Cavalos.
Bento conduziu o grupo até reorganizar a boiada.
Quando tudo se acalmou, ficou observando os animais.
Centenas deles seguindo porque outros os empurravam.
Pela frente.
Pelos lados.
Por trás.
Pensou na frase do pai:
“Descubra para onde ele quer ir e faça parecer que foi você quem escolheu.”
Durante décadas achara aquilo uma grande sabedoria.
Naquele instante, pareceu triste.
Quantas vezes fizeram isso com ele?
E quantas vezes ele fizera consigo mesmo?
Entregaram a boiada dois dias depois.
Na volta, Bento tomou uma decisão.
Chegou em casa.
Rosa estava preparando jantar.
— Compra.
Ela virou-se.
— O quê?
— A terra.
Rosa ficou olhando.
— Tem certeza?
— Não.
Ela sorriu.
— Melhor resposta que você já deu.
— Por quê?
— Porque finalmente está escolhendo mesmo com medo.
Compraram.
A propriedade era pequena.
A casa precisava de reforma.
A terra não era excelente.
Nos primeiros anos trabalharam muito.
Bento continuou algum tempo na fazenda do coronel enquanto organizava a própria.
Depois pediu demissão.
Eduardo tentou convencê-lo.
— O senhor tem segurança aqui.
Bento respondeu:
— Eu sei.
— Então por que sair?
Ele pensou.
— Porque já fiquei tempo demais só porque era seguro.
Não ficaram ricos.
Houve anos bons.
Outros ruins.
Mas pela primeira vez Bento podia olhar uma cerca e dizer:
“Eu escolhi estar deste lado.”
Plantaram.
Criaram algumas cabeças de gado.
Rosa finalmente teve uma pequena venda na frente da propriedade, como sonhara quando jovem.
Pedro ajudou com técnicas de manejo.
Mariana organizou uma pequena biblioteca numa antiga sala da casa.
Bento, aos sessenta e três anos, voltou a estudar.
Não para diploma.
Queria ler melhor.
Escrever.
A professora era a própria filha.
— Nunca imaginei ensinar meu pai — dizia Mariana.
— Nem eu imaginei obedecer filha.
— Aqui quem manda sou eu.
Bento ria.
Anos depois, Tiago apareceu.
Agora tinha um caminhão.
Depois dois.
— Vim buscar gado aqui perto — explicou.
Sentaram-se para tomar café.
— E o senhor? Nunca mais conduziu boiada?
— Nunca.
— Sente falta?
Bento pensou.
— De algumas coisas.
— Da estrada?
— Da estrada também.
Tiago olhou a propriedade.
— Fez certo em sair?
Bento sorriu.
— Não sei.
— Como não sabe?
— Porque vida não vem com outra versão para a gente comparar.
O rapaz ficou pensativo.
Bento continuou:
— Só sei que dessa vez fui eu que escolhi.
Quando completou setenta e cinco anos, os filhos organizaram um almoço.
Netos.
Amigos.
Vizinhos.
Rosa estava ao lado dele.
Depois da comida, um dos netos pediu:
— Vô, conta uma história de boiada.
Bento contou.
Falou das viagens.
Dos rios.
Das noites dormindo no chão.
Dos sustos.
Dos animais.
O menino perguntou:
— Você gostava?
— Gostava.
— Então por que parou?
Bento olhou para Rosa.
Depois para a terra.
— Porque gostar de um caminho não significa que a gente precise andar nele para sempre.
O neto pareceu não entender.
— Como sabe quando tem que mudar?
Bento riu.
— Isso é que é difícil.
— Mas como?
Ele pensou.
— Talvez quando percebe que está seguindo só porque todo mundo está indo na mesma direção.
Naquela tarde caminhou sozinho até uma cerca.
Já estava velho.
Os joelhos doíam.
A visão não era a mesma.
Mas ainda gostava de olhar o gado no pasto.
Pensou no pai.
Severino nunca conseguira comprar sua terra.
Mas talvez, de algum modo, tivesse começado aquela mudança quando escreveu:
“Talvez Bento consiga.”
Pensou também no coronel.
Nos peões.
Nas boiadas.
Em todos os anos em que acreditara que aceitar o caminho era o mesmo que escolhê-lo.
Não sentia raiva.
Aquelas pessoas haviam vivido dentro das possibilidades que conheciam.
Ele também.
Até descobrir outras.
Rosa aproximou-se.
— Vai ficar aí até escurecer?
— Talvez.
— Então vou buscar cadeira.
Bento sorriu.
Ela ainda era a mesma mulher que, cinquenta anos antes, perguntara o que ele queria da vida.
Na época não soubera responder.
Agora talvez soubesse.
Não queria possuir muita coisa.
Nem mandar em ninguém.
Nem provar que tinha vencido.
Queria apenas chegar ao fim sabendo que, em algum momento, tivera coragem de escolher.
Porque existem caminhos que recebemos dos nossos pais.
Outros que a necessidade impõe.
Há caminhos que seguimos porque todos ao redor seguem.
E há aqueles que só aparecem quando finalmente perguntamos a nós mesmos:
É realmente para lá que eu quero ir?
Bento levou quase sessenta anos para fazer essa pergunta.
Mas aprendera que nunca é tarde para mudar de direção.
Talvez liberdade não fosse poder fazer tudo.