Toda canção pode esconder uma história.
Primeiro, a história. Depois, a canção.
Pelo Mundo

O Homem que Aprendeu a Voar

A história que poderia ter existido antes de uma canção

Na manhã em que Lorenzo Bellini decidiu construir uma máquina para voar, sua mulher não riu.

Talvez porque conhecesse o marido havia trinta e quatro anos e soubesse que algumas ideias absurdas mereciam alguns minutos antes de serem descartadas.

Ou talvez porque Lorenzo estivesse sentado à mesa da cozinha com uma seriedade incomum, segurando um guardanapo onde desenhara duas asas enormes presas a uma espécie de bicicleta.

Giulia examinou o desenho enquanto o café esfriava.

Perguntou apenas se ele pretendia sobreviver à experiência.

Lorenzo respondeu que ainda estava trabalhando nessa parte.

Ela devolveu o guardanapo e continuou preparando o café.

Era a primavera de 1956, numa pequena cidade da região da Puglia, no sul da Itália. Lorenzo tinha cinquenta e oito anos, uma oficina de bicicletas, dois filhos adultos, uma casa que ainda precisava de reparos e nenhuma razão sensata para tentar voar.

Mas razões sensatas nunca tinham sido o problema.

O problema era que Lorenzo passara boa parte da vida tendo razões sensatas demais.

Quando criança, ele gostava de observar pássaros.

Não porque soubesse alguma coisa sobre eles. Não sabia distinguir espécies, não conhecia hábitos migratórios e jamais abrira um livro sobre aves.

Gostava simplesmente porque voavam.

Sua família morava numa pequena propriedade nos arredores da cidade. O pai, Vittorio, cultivava oliveiras e mantinha algumas cabras. A mãe, Francesca, cuidava da casa e dos cinco filhos.

Lorenzo era o terceiro.

Desde cedo aprendera que sonhos precisavam caber dentro das possibilidades da família.

Aos dez anos, construiu uma pipa com pedaços de tecido velho e varetas retiradas de uma caixa de frutas. Ficou semanas tentando fazê-la subir. Quando finalmente conseguiu, correu pelo campo até tropeçar numa pedra e rasgar os joelhos.

A pipa continuou no alto.

Lorenzo permaneceu no chão olhando para ela.

Naquela noite anunciou que um dia construiria alguma coisa capaz de carregá-lo junto.

Os irmãos riram.

O pai não.

Vittorio era um homem sério, que conhecia bem a diferença entre aquilo que uma família pobre podia desejar e aquilo que podia realizar. Disse ao filho que homens haviam sido feitos para caminhar sobre a terra.

Lorenzo perguntou por que, então, Deus tinha colocado o céu tão perto dos olhos.

Vittorio não respondeu.

Aos quatorze anos, Lorenzo deixou a escola para ajudar o pai.

Aos dezessete, começou como aprendiz numa oficina.

Descobriu que gostava de máquinas.

Gostava de desmontá-las.

Entender engrenagens.

Descobrir por que alguma coisa não funcionava.

A primeira bicicleta que construiu sozinho permaneceu durante semanas pendurada na oficina. Lorenzo olhava para ela com orgulho porque havia algo de extraordinário naquele mecanismo simples: duas rodas finas eram suficientes para fazer uma pessoa se equilibrar e correr muito mais depressa do que seus próprios pés permitiam.

Para ele, bicicleta era quase uma pequena tentativa de voo.

Foi também por causa de uma bicicleta que conheceu Giulia.

Ela tinha vinte anos quando entrou na oficina empurrando uma bicicleta com a corrente quebrada.

Lorenzo tinha vinte e quatro.

Consertou a corrente.

Depois encontrou outros três problemas que provavelmente não existiam apenas para prolongar a conversa.

Giulia percebeu.

Voltou dois dias depois para buscar a bicicleta e encontrou tudo funcionando perfeitamente.

Lorenzo não cobrou.

Ela disse que não aceitava favores.

Ele explicou que não era favor.

Era investimento.

Giulia quis saber em quê.

Lorenzo, que até então tinha passado dois dias preparando frases inteligentes, respondeu a única que lhe ocorreu:

Num café.

Ela aceitou.

Casaram-se três anos depois.

A vida começou a ganhar compromissos.

Primeiro veio Matteo.

Depois Sofia.

A oficina onde Lorenzo trabalhava foi vendida, e ele decidiu abrir a própria.

Fez empréstimos.

Comprou ferramentas usadas.

Trabalhou durante anos de manhã até a noite.

A Itália atravessava transformações. As cidades cresciam, automóveis apareciam em maior número e muita gente deixava o sul em busca de trabalho no norte ou fora do país.

Lorenzo ficou.

Havia sempre alguma coisa que precisava ser feita.

Uma prestação.

Um telhado.

Material escolar.

Remédios.

Uma bicicleta esperando conserto.

O sonho de voar foi sendo colocado num lugar cada vez mais distante.

Não desapareceu.

Apenas deixou de ter data.

Durante a guerra, Lorenzo serviu longe de casa.

Viu cidades destruídas e homens muito jovens morrerem por motivos que pareciam enormes nos discursos e incompreensíveis diante dos corpos.

Voltou diferente.

Falava menos.

Durante algum tempo não construiu nada que não fosse necessário.

Giulia percebeu que o marido evitava olhar aviões.

Antes, corria para fora quando ouvia um motor no céu.

Depois da guerra, permanecia dentro da oficina.

Talvez porque tivesse descoberto que o homem também conseguira transformar o sonho de voar numa maneira de destruir aquilo que estava embaixo.

Mas o tempo passou.

Matteo cresceu.

Sofia também.

A oficina voltou a encher.

E, pouco a pouco, Lorenzo reaprendeu a olhar para cima.

Quando completou quarenta anos, Giulia lhe deu um pequeno caderno.

Na primeira página escreveu:

**“Para as coisas que você ainda quer inventar.”**

Lorenzo começou a desenhar.

Asas.

Engrenagens.

Pequenos motores.

Estruturas leves.

Não acreditava realmente que construiria alguma delas.

O caderno era apenas um lugar onde o homem que precisava pagar contas podia conversar com o menino que construíra uma pipa.

Com o passar dos anos, encheu três cadernos.

Guardava todos numa gaveta da oficina.

Matteo tornou-se mecânico.

Sofia foi estudar em Bari e tornou-se professora.

Os filhos saíram de casa.

A oficina começou a parecer grande demais.

Giulia sugeriu algumas vezes que Lorenzo trabalhasse menos.

Ele respondia que ainda não era hora.

Aos cinquenta e cinco anos, dizia que pararia aos sessenta.

Aos cinquenta e sete, começou a falar em sessenta e cinco.

Giulia conhecia o marido o suficiente para perceber que ele não tinha medo de parar de trabalhar.

Tinha medo de descobrir o que restaria quando parasse.

Foi então que aconteceu o acidente de Carlo.

Carlo era amigo de Lorenzo desde a juventude.

Tinham praticamente a mesma idade.

Durante décadas, Carlo administrara uma pequena mercearia. Sempre dizia que um dia venderia o negócio e viajaria pela Itália com a esposa.

Queria conhecer Veneza.

Nunca tinha ido.

Queria ver os Alpes.

Queria andar de barco.

Queria passar um mês sem abrir uma porta às seis da manhã.

“Quando eu me aposentar”, repetia.

Morreu aos cinquenta e nove anos, sentado numa cadeira atrás do balcão.

Um ataque cardíaco.

Na noite depois do funeral, Lorenzo abriu a gaveta da oficina.

Retirou os três cadernos.

Ficou horas folheando.

Em muitos desenhos havia datas.

1938.

1947.

1951.

1953.

Projetos imaginados e nunca começados.

Na manhã seguinte, sentou-se à mesa da cozinha e desenhou as asas no guardanapo.

Lorenzo não pretendia realmente construir um avião.

Pelo menos não um avião de verdade.

Queria construir um pequeno planador.

Algo simples.

Madeira leve.

Tecido.

Cabos.

Um mecanismo que pudesse aproveitar o vento numa colina próxima.

Quando contou aos filhos, Matteo achou perigoso.

Sofia achou maravilhoso.

Giulia achou as duas coisas.

Durante meses, Lorenzo trabalhou depois de fechar a oficina.

O projeto ocupou um galpão emprestado por um amigo.

Logo a cidade inteira sabia.

Alguns apareciam para ajudar.

Outros apenas para rir.

As crianças eram as que mais gostavam.

Chamavam a estrutura de **l’uccello di Lorenzo** — o pássaro de Lorenzo.

Ele fingia não gostar.

Secretamente, adorava.

O primeiro teste foi um desastre.

Não saiu do chão.

O segundo também.

No terceiro, uma roda quebrou.

No quarto, o vento virou e a estrutura terminou dentro de um campo.

Giulia assistia a tudo a uma distância segura.

Nunca pediu que ele parasse.

Percebia alguma coisa no marido que não via havia décadas.

Lorenzo chegava em casa cansado, coberto de poeira, falando depressa sobre ângulos, peso e vento.

Tinha novamente a inquietação do rapaz que conhecera na oficina.

Não era apenas uma máquina que estava construindo.

Era uma parte de si mesmo que passara anos guardada numa gaveta.

No quinto teste, aconteceu.

Foi por poucos segundos.

Talvez cinco.

Talvez oito.

Nunca conseguiram concordar.

O planador desceu a encosta, ganhou velocidade e, de repente, as rodas deixaram o chão.

Lorenzo sentiu primeiro o silêncio.

Não o silêncio verdadeiro, porque o vento fazia barulho contra o tecido e havia pessoas gritando lá embaixo.

Mas o silêncio que existe quando alguma coisa que esperamos durante tanto tempo finalmente acontece.

O chão se afastou.

Pouco.

Talvez dois metros.

Para Lorenzo, poderiam ter sido dois quilômetros.

Durante aqueles segundos não era um homem de cinquenta e oito anos.

Não era dono de oficina.

Não era pai.

Marido.

Ex-soldado.

Devedor.

Contribuinte.

Era apenas alguém no ar.

O menino da pipa finalmente tinha ido junto.

O planador pousou mal.

Uma das rodas entortou.

Lorenzo caiu de lado e machucou o ombro.

Quando Giulia chegou correndo, encontrou o marido deitado na grama, olhando para o céu e rindo.

A história espalhou-se.

Durante algumas semanas, Lorenzo tornou-se uma pequena celebridade local.

Um jornal publicou uma fotografia.

“**Mecânico constrói planador artesanal e voa sobre colina da Puglia.**”

A palavra “voa” era generosa.

Mas Lorenzo guardou o recorte.

Depois consertou o planador.

Continuou fazendo pequenos voos.

Nunca muito altos.

Nunca muito longos.

Com o tempo, aprendeu a entender melhor o vento.

Um ano depois, Matteo perguntou ao pai se todo aquele trabalho valera a pena para permanecer alguns segundos no ar.

Lorenzo pensou antes de responder.

Percebeu que a pergunta estava errada.

Não tinham sido apenas alguns segundos.

Haviam sido quase cinquenta anos.

Desde o menino que observara a pipa até o homem que finalmente saíra do chão.

O voo apenas tornara visível alguma coisa que estivera dentro dele durante todo aquele tempo.

Lorenzo não abandonou a oficina.

Também não se transformou em aviador.

Sua vida continuou relativamente comum.

Consertava bicicletas.

Jantava com Giulia.

Visitava os filhos.

Pagava contas.

Reclamava das dores nas costas.

Mas alguma coisa mudara.

Começou a aceitar convites.

Viajar.

Fechar a oficina alguns dias.

Foi com Giulia a Roma.

Depois a Veneza, a cidade que Carlo nunca conseguira conhecer.

Diante dos canais, pensou no amigo.

Sentiu tristeza.

Mas também gratidão.

Algumas pessoas, mesmo depois de partir, continuam alterando a direção daqueles que ficam.

Aos sessenta e três anos, Lorenzo vendeu a oficina para Matteo.

Não esperou os sessenta e cinco.

Ele e Giulia compraram um pequeno automóvel usado e começaram a viajar.

Sem grandes planos.

Às vezes decidiam o destino pela manhã.

Giulia gostava disso.

Lorenzo demorou um pouco para aprender.

Passara a vida inteira planejando trajetos.

Descobriu tarde o prazer de não saber exatamente onde terminaria o dia.

O planador permaneceu guardado no galpão.

De vez em quando, Lorenzo ainda o utilizava.

Até que, aos sessenta e oito anos, Giulia pediu que parasse.

Não por medo.

Seu coração já não estava bem.

Ela queria viajar enquanto ainda conseguia.

Lorenzo aceitou.

Desmontou parte da máquina.

Guardou uma das asas na oficina.

Não sentiu tristeza.

Já não precisava provar nada ao céu.

Giulia morreu aos setenta e seis anos.

Lorenzo tinha oitenta.

Depois do funeral, Sofia encontrou o pai no galpão.

Ele estava sentado diante da velha asa.

Ela perguntou se pensava em voar novamente.

Lorenzo sorriu.

O corpo já não permitiria.

Mas aquilo não o entristecia.

Passara muitos anos acreditando que voar significava sair do chão.

Agora sabia que existiam outras formas.

Giulia o fizera voar.

Os filhos.

As viagens.

As invenções.

As tardes em que fechou a oficina sem motivo.

As coisas que fizera simplesmente porque davam alegria e não porque eram necessárias.

Aos oitenta e quatro anos, Lorenzo voltou à colina acompanhado da neta, Chiara.

Ela tinha nove anos.

A mesma idade que ele quando construíra sua primeira pipa.

Levaram uma feita por ele.

O vento estava forte.

Chiara correu.

A pipa subiu.

Primeiro alguns metros.

Depois muito mais.

A menina gritava enquanto soltava a linha.

Lorenzo ficou observando.

Por um instante, viu novamente o campo da infância.

O pai.

A mãe.

Os irmãos.

Vittorio dizendo que homens tinham sido feitos para caminhar sobre a terra.

Talvez o pai estivesse certo.

Lorenzo passara quase toda a vida com os pés no chão.

Mas isso nunca o impedira de olhar para cima.

Chiara entregou-lhe a linha.

O vento puxava com força.

Lorenzo segurou.

A pipa parecia pequena contra o azul imenso.

A neta perguntou se aquele tinha sido o seu sonho.

Ele pensou.

Durante muitos anos acreditara que sim.

Voar.

Subir.

Vencer a gravidade.

Agora compreendia que o verdadeiro sonho talvez nunca tivesse sido esse.

O que desejara desde menino era sentir, pelo menos algumas vezes, que a vida podia ser maior do que as obrigações que a preenchiam.

E isso ele conseguira.

Há pessoas que passam a existência esperando permissão.

Esperam dinheiro.

Esperam tempo.

Esperam aposentadoria.

Esperam os filhos crescerem.

Esperam que os problemas terminem.

Esperam a segunda-feira certa, o verão certo, o ano certo.

Lorenzo também esperara.

Até descobrir que a vida raramente entrega um período completamente vazio onde finalmente podemos começar a vivê-la.

Sempre haverá alguma coisa.

Uma conta.

Uma preocupação.

Uma responsabilidade.

Um medo.

Talvez por isso alguns sonhos precisem aprender a existir no meio da vida, e não depois dela.

O sol começava a baixar sobre os campos da Puglia.

Chiara corria pela colina, acompanhando a sombra da pipa.

Lorenzo sentou-se na grama.

Não precisava mais construir máquinas.

Não precisava subir.

Não precisava provar que um homem podia voar.

O céu continuava tão distante quanto na infância.

Mas já não parecia inalcançável.

Porque Lorenzo finalmente aprendera que voar nem sempre significava abandonar o chão.

Às vezes era permitir que alguma coisa dentro de nós se elevasse acima do medo, da rotina e das razões que encontramos para adiar aquilo que nos faz sentir vivos.

A pipa dançou no vento.

Chiara riu.

Lorenzo fechou os olhos por alguns segundos.

E naquele instante, sentado sobre a terra, com os cabelos brancos sendo empurrados pela brisa e a voz da neta ecoando pela colina, teve novamente a mesma sensação daquele primeiro voo.

Leveza.

Liberdade.

Céu.

Talvez fosse isso que procurara durante toda a vida.

Não viver permanentemente nas alturas.

Mas guardar dentro de si alguma coisa que, apesar dos anos, das perdas e do peso do mundo, **ainda soubesse voar.**