Quando Sebastião nasceu, o pai plantou um pé de ipê-amarelo atrás da casa. Dizia que homem e árvore deviam crescer juntos, porque ambos precisavam aprender a enfrentar seca, vento forte e temporal sem abandonar suas raízes. Sebastião nunca soube se o pai realmente acreditava naquilo ou se apenas gostava de inventar explicações para tudo. O fato é que o menino cresceu, o ipê também, e durante mais de sessenta anos os dois permaneceram no mesmo pedaço de terra.
A propriedade ficava longe da cidade, depois de uma estrada estreita que atravessava pastagens, pequenos sítios e um córrego onde Sebastião aprendera a nadar. Não era uma fazenda grande. Havia algumas cabeças de gado, um galinheiro, uma horta, um paiol e uma casa de madeira com varanda na frente. Para qualquer pessoa que chegasse de fora, havia pouco para admirar. Para Sebastião, havia um mundo inteiro.
Quando criança, acordava antes do sol para acompanhar o pai. Aprendeu cedo que vaca doente abaixa a cabeça de um jeito diferente, que galinha inquieta anuncia mudança no tempo e que terra seca também tem cheiro quando a primeira chuva está chegando. A mãe, dona Alzira, costumava dizer que o filho aprendera primeiro a ouvir a natureza e só depois as pessoas.
Talvez fosse verdade.
Na escola, Sebastião quase não falava. Sentava-se nas últimas carteiras e esperava a hora de voltar para casa. Aos quatorze anos, abandonou os estudos definitivamente. O professor tentou convencer o pai a fazê-lo continuar. — Esse menino aprende rápido — disse. O pai respondeu que sabia, mas precisava dele na roça. Sebastião ouviu a conversa escondido atrás da porta. Nunca reclamou.
Naquela época, reclamar parecia uma coisa inútil. Havia serviço para fazer, animais para tratar e dias que começavam antes de clarear. A vida não perguntava se alguém estava satisfeito com ela.
A única coisa que Sebastião fazia sem nenhuma utilidade aparente era tocar viola.
O instrumento pertencera ao avô e ficava pendurado na parede da sala. Ninguém lhe ensinou. Aos poucos, foi descobrindo sozinho onde colocar os dedos e como arrancar das cordas sons que combinavam com aquilo que sentia. Não conhecia música direito, não sabia explicar acordes e muito menos escrever uma melodia. Apenas tocava.
A mãe gostava de ouvi-lo no fim da tarde. — Você fica diferente quando pega essa viola — dizia.
— Diferente como?
— Parece que conversa mais.
Sebastião achava graça. — Mas eu nem estou falando.
— Justamente.
Foi numa festa de igreja que conheceu Rosa.
Ela morava numa propriedade a alguns quilômetros dali e tinha um jeito de falar que compensava todo o silêncio dele. Quando se conheceram, Rosa fez tantas perguntas que Sebastião saiu da conversa sabendo quase tudo sobre ela, enquanto ela sabia apenas seu nome e que ele tocava viola.
No domingo seguinte encontraram-se novamente. Depois no outro. Quando Sebastião percebeu, já estava procurando por Rosa antes mesmo de chegar às festas.
Certa noite, depois de uma quermesse, caminhavam pela estrada quando ela perguntou:
— Você pretende falar alguma coisa ou vou ter que namorar sozinha?
Sebastião quase tropeçou.
— Namorar?
— Se não quiser, eu procuro outro.
Ele parou.
— Quero.
Rosa sorriu. — Então pronto. Não era tão difícil.
Casaram-se dois anos depois.
A casa onde Sebastião havia crescido tornou-se a casa dos dois. O pai morreu pouco antes do casamento, e dona Alzira permaneceu com eles até seus últimos dias. Vieram os filhos: primeiro José, depois Marta e, por último, Antônio.
Foram anos difíceis, mas felizes à maneira deles. Não havia dinheiro sobrando, porém havia comida na mesa. Rosa cultivava flores junto à varanda, e Sebastião dizia que aquilo era desperdício de terra boa. Ela respondia que nem tudo precisava virar comida ou dinheiro para ter serventia.
— Flor serve para quê? — ele provocava.
— Para você não esquecer que o mundo não foi feito só para trabalhar.
Sebastião nunca admitiu, mas gostava das flores.
Quando Rosa morreu, muitos anos depois, ele continuou regando todas elas.
A doença chegou depressa. Primeiro um cansaço. Depois exames, viagens à cidade, médicos e palavras que Sebastião não compreendia completamente. Em menos de um ano, a mulher que enchera aquela casa de conversa passou a maior parte dos dias deitada.
Na última semana, chamou o marido para perto.
— Você vai ficar bem?
Sebastião não respondeu.
— Tião, estou perguntando.
— Vou.
Rosa sorriu com dificuldade. — Mentiroso você sempre foi ruim.
Ele segurou a mão dela.
— O que vou fazer sozinho aqui?
— Viver.
— Fácil falar.
— Nunca disse que seria fácil.
Rosa morreu numa madrugada de inverno.
Depois do enterro, os filhos permaneceram alguns dias na propriedade. Marta organizou a cozinha. José cuidou dos animais. Antônio tentou convencer o pai a ir morar com ele na cidade.
Sebastião recusou.
— Minha casa é aqui.
— Pai, o senhor vai ficar sozinho.
— Já fiquei outras vezes.
— Não é a mesma coisa.
Sebastião sabia.
Mas respondeu:
— Eu me viro.
Quando todos partiram, entrou na casa e fechou a porta. Pela primeira vez em quase quarenta anos, não havia a voz de Rosa em lugar algum.
Naquela noite, pegou a viola.
Tentou tocar.
Não conseguiu.
Guardou o instrumento.
Passaram-se quase dois anos antes que tocasse novamente.
A vida continuou porque é isso que ela faz, mesmo quando alguém preferiria que esperasse um pouco. Sebastião levantava cedo, cuidava dos animais, plantava milho, consertava cercas e fazia comida suficiente para dois dias. À tarde sentava-se na varanda.
Algumas pessoas começaram a dizer que ele havia ficado triste demais. Outras diziam que sempre fora daquele jeito. Os filhos telefonavam. Os netos apareciam nas férias. Sebastião recebia todos com alegria, embora raramente demonstrasse.
Mas havia algo que ninguém percebia: ele conversava com Rosa.
Não como quem acredita que alguém morto está escondido em algum lugar da casa. Sebastião sabia perfeitamente que ela havia partido. Apenas mantivera o hábito de contar as coisas.
Quando uma vaca paria, dizia: — Nasceu outra, Rosa.
Quando chovia depois de muitos dias de seca: — Dessa vez veio boa.
Quando as flores dela começavam a abrir: — As suas estão aparecendo.
Depois permanecia em silêncio.
Talvez esperasse uma resposta que sabia que não viria.
Certa tarde, Antônio apareceu sem avisar. Encontrou o pai sentado debaixo do velho ipê.
— Pai, precisamos conversar.
Sebastião conhecia aquele tom.
— Quando filho diz isso, nunca vem coisa boa.
Antônio sentou-se ao lado dele. Explicou que uma empresa estava comprando propriedades na região. Havia interesse nas terras de Sebastião. O valor oferecido era muito maior do que ele imaginava.
— O senhor poderia vender e morar perto da gente. Comprar uma casa boa. Não precisava mais trabalhar.
Sebastião olhou para o campo.
— E faria o quê?
— Descansava.
— De quê?
Antônio riu. — Da vida inteira trabalhando.
— E depois que terminasse de descansar?
O filho não soube responder.
Nos meses seguintes, José e Marta também tocaram no assunto. Nenhum queria prejudicar o pai. Ao contrário. Tinham medo de que ele adoecesse sozinho. A estrada era ruim, o hospital ficava longe e a propriedade exigia cada vez mais esforço.
Sebastião compreendia.
Mesmo assim, recusava.
Até o dia em que caiu.
Estava consertando uma cerca quando sentiu uma tontura. Acordou no chão com o cachorro lambendo seu rosto. Ficou ali alguns minutos antes de conseguir levantar.
Não contou aos filhos.
Mas pela primeira vez sentiu medo.
Naquela noite sentou-se na varanda. O velho ipê balançava com o vento.
— Acho que eles têm razão, Rosa.
Ficou esperando.
O silêncio respondeu.
— Você podia pelo menos discordar.
Sorriu sozinho.
Algumas semanas depois, aceitou conversar com o comprador.
O homem chegou numa caminhonete nova, acompanhado de outro sujeito que carregava papéis. Caminharam pela propriedade, fizeram medições e falaram sobre valores. Sebastião quase não prestou atenção.
Quando chegaram atrás da casa, o comprador apontou para o ipê.
— Essa parte provavelmente vai precisar ser limpa.
Sebastião olhou para a árvore.
— Limpa?
— Retirar algumas árvores, nivelar o terreno.
— Essa não.
O homem sorriu, tentando ser gentil.
— Depois podemos conversar sobre isso.
Sebastião não respondeu.
Naquela noite não dormiu.
Levantou antes do amanhecer e caminhou pela propriedade. Passou pelo curral que construíra com o pai. Pelo córrego onde aprendera a nadar. Pelo pedaço de terra em que Rosa plantara flores pela primeira vez.
Então compreendeu por que vender era tão difícil.
Não era a terra.
Era o que estava enterrado nela sem estar debaixo do chão.
Cada lugar guardava alguma coisa.
Uma voz.
Um rosto.
Um dia.
Uma vida.
Na semana seguinte, reuniu os filhos.
— Vou vender.
Os três ficaram surpresos.
— Tem certeza? — perguntou Marta.
— Tenho.
Antônio pareceu aliviado.
Sebastião levantou a mão.
— Mas tem uma condição.
— Qual?
— O pedaço da casa fica comigo.
José não entendeu.
— Como assim?
— Vendo os pastos, vendo o fundo, vendo quase tudo. Mas a casa, o quintal e o ipê ficam.
— Pai, sozinho aqui não faz sentido.
Sebastião olhou para os filhos.
— Para vocês, talvez não.
O acordo foi feito.
Com o dinheiro, Sebastião poderia viver confortavelmente até o fim da vida. Os filhos ficaram mais tranquilos porque a área que restara era pequena e fácil de cuidar. Antônio instalou um telefone melhor. Marta contratou alguém da região para passar ali algumas vezes por semana.
Mas Sebastião continuou praticamente igual.
Acordava cedo.
Cuidava da pequena horta.
Regava as flores de Rosa.
E, depois de tantos anos, voltou a tocar viola.
No começo, apenas algumas notas. Depois músicas inteiras. Às vezes inventava melodias que esquecia no dia seguinte.
Numa tarde, o neto Lucas, então com dezesseis anos, sentou-se ao lado dele.
— Vô, toca aquela de ontem.
— Qual?
— Aquela triste.
Sebastião pensou.
— Quase todas são.
Lucas riu.
— Por que o senhor só toca música triste?
O velho passou a mão pelas cordas.
— Porque música alegre o povo canta sozinho.
— E triste?
Sebastião olhou para o campo.
— Às vezes precisa de companhia.
Lucas guardou aquela frase.
Alguns meses depois voltou com um celular e pediu para gravar o avô tocando. Sebastião reclamou, disse que aquilo era bobagem, mas acabou permitindo.
— E essa música tem nome?
— Não.
— Foi o senhor que fez?
— Sei lá. A gente vai tocando.
— Parece falar de alguém.
Sebastião sorriu.
— Música sempre fala de alguém.
— Da vó?
Ele demorou a responder.
— Também.
Lucas deixou o celular gravando.
Sebastião tocou por alguns minutos. Não havia letra, apenas uma melodia simples, arrastada, com pausas longas. Quando terminou, o neto permaneceu quieto.
— É bonita, vô.
— É triste.
— Pode ser as duas coisas.
Sebastião olhou para o rapaz e reconheceu naquela resposta alguma coisa que Rosa teria dito.
Na primavera seguinte, o ipê floresceu de uma maneira que ele não via havia anos. A copa inteira ficou amarela. As flores caíam sobre o quintal e cobriam o chão.
Sebastião levou uma cadeira para debaixo da árvore.
Sentou-se com a viola no colo.
O sol começava a desaparecer.
Ao longe, algumas máquinas trabalhavam nas terras que um dia haviam sido suas. O mundo estava mudando. Estradas melhores chegariam. Novas casas seriam construídas. Talvez dali a alguns anos quase ninguém lembrasse como aquele lugar havia sido.
Sebastião não sentiu raiva.
O tempo também tinha direito de seguir adiante.
Passou a mão pelo tronco do ipê.
— Nós dois estamos ficando velhos.
A árvore não respondeu.
Ele sorriu.
Durante muito tempo, Sebastião acreditara que tristeza era apenas aquilo que se sentia quando alguma coisa ruim acontecia. A morte do pai. A partida dos filhos. A doença de Rosa. A solidão da casa.
Com os anos, descobriu outra espécie de tristeza.
Aquela que nasce justamente das coisas boas.
Sentimos saudade porque um dia tivemos alguém. Sofremos ao deixar uma casa porque um dia fomos felizes nela. Choramos ao lembrar porque houve alguma coisa que mereceu ser lembrada.
Talvez a tristeza fosse, algumas vezes, apenas o amor procurando um lugar onde continuar existindo.
Sebastião encostou a viola no peito e olhou para as flores amarelas espalhadas pelo chão.
Pensou no pai plantando aquela árvore.
Na mãe ouvindo sua viola.
Nos filhos correndo pelo quintal.
Em Rosa perguntando para que servia uma vida dedicada somente ao trabalho.
Quase podia ouvi-la.
Pegou novamente a viola.
E tocou.
Não para esquecer.
Não para deixar de sentir saudade.
Tocou porque havia coisas que um homem simples do interior nunca aprenderia a explicar com palavras.
Mas talvez pudesse explicar com uma viola.
E, naquela tarde, debaixo de um velho ipê-amarelo, Sebastião deixou que sua tristeza falasse por ele.
Sem saber que sentimentos assim, quando encontram palavras e melodia, às vezes atravessam estradas, gerações e o próprio tempo.
E acabam virando canção.