Durante quase vinte anos, Álvaro guardou uma carta que nunca teve coragem de responder.
Ela ficava dentro de uma caixa de madeira, no fundo da última gaveta de sua cômoda, junto com
alguns documentos antigos, fotografias e um relógio que pertencera ao pai. A carta já não era
branca. O papel adquirira aquela cor amarelada das coisas que sobreviveram ao tempo, e as
marcas das dobras estavam tão gastas que Álvaro tinha medo de que um dia se partissem.
Não precisava abri-la para saber o que estava escrito. Conhecia praticamente todas as palavras.
Ainda assim, algumas vezes por ano, retirava a carta da caixa, sentava-se na beirada da cama e
lia novamente.
Sempre começava do mesmo jeito:
Álvaro, não sei se você vai querer ler esta carta até o fim…
E ele sempre lia.
Tudo começara muito antes, quando os dois ainda eram jovens e acreditavam que vinte
quilômetros eram uma grande distância.
Álvaro crescera numa pequena propriedade no interior de Goiás. O pai criava gado e plantava
milho. A mãe cuidava da casa e de seis filhos. Ele era o mais velho e, desde cedo, soube que sua
vida provavelmente continuaria ali.
Foi numa festa de junho que conheceu Lúcia.
Ela morava na cidade vizinha e viera com algumas amigas. Usava um vestido azul e tinha os
cabelos presos por uma fita branca. Álvaro a viu perto da barraca de doces e passou quase meia
hora tentando criar coragem para se aproximar.
Quando finalmente conseguiu, perguntou:
— Quer dançar?
Lúcia olhou para ele.
— Você sabe?
— Mais ou menos.
— Eu também.
Era mentira dos dois.
Dançaram mal, pisaram um no pé do outro e riram durante quase toda a música.
Antes de ir embora, Lúcia escreveu seu endereço num pedaço de papel.
— Se quiser aparecer algum domingo.
Álvaro apareceu no domingo seguinte.
Depois no outro.
E em quase todos os domingos dos quatro anos seguintes.
O namoro cresceu sem grandes acontecimentos. Havia passeios pela praça, cinema quando
sobrava dinheiro, festas de igreja e tardes inteiras na varanda da casa de Lúcia. Ela queria ser
professora. Álvaro queria comprar algumas terras e aumentar a criação do pai.
Falavam sobre casamento como se fosse uma certeza.
— Nossa casa vai ter varanda — dizia Lúcia.
— A casa do meu pai tem.
— Eu quero uma nossa.
— Então vai ter.
— E duas janelas no quarto.
— Por que duas?
— Porque uma casa com uma janela só no quarto é triste.
Álvaro não entendia, mas concordava.
Se Lúcia quisesse dez janelas, teria.
A vida, porém, raramente pergunta quais são os nossos planos antes de apresentar os dela.
O pai de Álvaro morreu de repente, aos cinquenta e três anos. Um ataque do coração, no curral,
numa manhã comum. Quando Álvaro chegou, já não havia nada a fazer.
A propriedade tinha dívidas.
Os irmãos eram pequenos.
A mãe não sabia como continuaria.
Aos vinte e quatro anos, Álvaro tornou-se responsável por uma família inteira.
Lúcia tentou ajudá-lo.
— Podemos casar mesmo assim.
— Não agora.
— Por quê?
— Eu não tenho como sustentar outra casa.
— Eu trabalho.
— Não é isso.
— Então é o quê?
Álvaro não sabia explicar. Talvez fosse orgulho. Talvez medo. Talvez a educação de um homem
que aprendera que sua obrigação era resolver sozinho todos os problemas.
— Preciso de tempo.
Lúcia deu.
Primeiro meses.
Depois um ano.
Depois dois.
Ela conseguiu emprego numa escola de outra cidade. Começou a viajar todos os dias.
Álvaro trabalhava do amanhecer até a noite. Vendia gado para pagar dívidas, plantava,
consertava cercas e tentava manter os irmãos estudando.
Encontravam-se cada vez menos.
Quando Lúcia reclamava, ele respondia:
— É só por enquanto.
Mas o “por enquanto” foi ficando longo demais.
Numa noite de domingo, sentados diante da casa dela, Lúcia perguntou:
— Quanto tempo você quer que eu espere?
Álvaro ficou olhando para a rua.
— Não sei.
— Um ano?
Silêncio.
— Cinco?
Ele não respondeu.
— Dez?
— Não fala assim.
— Como quer que eu fale?
— Você sabe como estão as coisas.
— Sei. Estou vendo há três anos.
Álvaro abaixou a cabeça.
— Eu não posso abandonar minha família.
— Nunca pedi isso.
— Então o que você quer?
Lúcia respirou fundo.
— Quero saber se existe um lugar para mim na sua vida.
— Claro que existe.
— Onde?
Ele não conseguiu responder.
Lúcia levantou-se.
— Quando descobrir, me avisa.
Foi embora.
Álvaro permaneceu sentado.
No domingo seguinte não apareceu.
Nem no outro.
Esperava que ela entendesse.
Lúcia esperava que ele fosse atrás dela.
Nenhum foi.
Meses depois, Álvaro soube que Lúcia recebera uma proposta para trabalhar em Goiânia.
Ela aceitou.
Na véspera da mudança, foi procurá-lo.
Encontrou-o perto do curral.
— Vou embora amanhã.
Álvaro já sabia.
— Sua mãe contou.
— E você não ia se despedir?
— Ia.
Era mentira.
Lúcia percebeu.
— Você sempre acha que ainda vai ter tempo.
— Não começa.
— Eu não estou começando nada. Estou terminando.
Ele a encarou.
— Terminando o quê?
Os olhos dela se encheram.
— Isso que nós não temos coragem de admitir que acabou.
Álvaro sentiu raiva.
Não dela.
Da situação.
De si mesmo.
Da vida que parecia exigir dele sempre alguma coisa.
— Então acabou.
Lúcia ficou imóvel.
Talvez esperasse que ele dissesse outra coisa.
Ele também.
Mas o orgulho costuma chegar primeiro às palavras e o arrependimento, alguns segundos depois.
— Está bem — respondeu ela.
Foi embora.
Álvaro não correu atrás.
Passou anos se perguntando por quê.
Nos primeiros meses, mergulhou no trabalho. As dívidas finalmente começaram a diminuir. Dois
irmãos conseguiram emprego. Outro foi estudar fora. A mãe passou a receber uma pequena
pensão.
Pela primeira vez em anos, Álvaro começou a respirar.
E foi justamente então que percebeu o que havia perdido.
Escreveu para Lúcia.
Não enviou.
Escreveu novamente.
Também não enviou.
Certa vez chegou até o correio com o envelope no bolso e voltou para casa sem entregá-lo.
Não sabia o que dizer.
“Agora tenho tempo”?
Parecia cruel.
O tempo que ela pedira chegara justamente depois que ela havia ido embora.
Dois anos depois, soube que Lúcia estava noiva.
A notícia chegou pela irmã.
— Você sabia?
Álvaro continuou mexendo numa ferramenta.
— Sabia.
Não sabia.
Naquela noite, ficou sentado na varanda até quase amanhecer.
Uma semana depois chegou a carta.
Reconheceu a letra no envelope.
Abriu imediatamente.
Lúcia dizia que se casaria em três meses. Contava que o noivo se chamava Henrique, que era
professor e que a tratava bem. Dizia que não escrevia para pedir que Álvaro fizesse nada. Apenas
não queria começar outra vida carregando coisas que nunca havia dito.
Contou que o amara.
Talvez ainda amasse uma parte dele.
Disse que esperara durante muito tempo por uma visita, uma carta, qualquer gesto que mostrasse
que ele desejava lutar pelos dois.
O gesto nunca veio.
No fim, escreveu:
Talvez o nosso erro tenha sido acreditar que amar alguém era suficiente. Hoje acho que o amor
também precisa chegar na hora certa. Espero que você seja feliz, Álvaro. De verdade.
Ele leu a carta três vezes.
Naquela mesma noite escreveu uma resposta.
Dizia que ainda a amava.
Que fora um idiota.
Que pensava nela todos os dias.
Que queria vê-la.
Que, se ela ainda sentisse alguma coisa, ele iria até Goiânia no dia seguinte.
Dobrou o papel.
Colocou num envelope.
Na manhã seguinte não enviou.
Pensou em Henrique.
Pensou que Lúcia finalmente encontrara alguém capaz de lhe oferecer aquilo que ele nunca
oferecera.
Pensou que aparecer naquele momento seria egoísmo.
Guardou sua resposta.
E deixou que ela se casasse sem jamais saber.
Os anos passaram.
Álvaro também se casou.
Conheceu Cecília numa cooperativa. Ela era uma mulher boa, inteligente e paciente. Ele gostava
dela e, com o tempo, aprendeu a amá-la de uma maneira diferente.
Tiveram uma filha.
Construíram uma casa.
Curiosamente, com varanda.
E duas janelas no quarto.
Álvaro nunca contou a Cecília por que insistira na segunda janela.
Talvez nem ele soubesse.
O casamento durou quinze anos.
Não terminou por causa de Lúcia.
Terminou porque algumas relações chegam ao fim sem precisar de culpados. Cecília queria
mudar para Brasília depois que a filha entrou na universidade. Álvaro não queria deixar a
propriedade.
Dessa vez, ao contrário do que acontecera na juventude, ele tentou.
Conversaram.
Fizeram planos.
Procuraram alternativas.
Não funcionou.
Separaram-se amigos.
Aos cinquenta e poucos anos, Álvaro voltou a morar sozinho.
Foi então que começou a ler a carta de Lúcia com mais frequência.
Não porque quisesse reconstruir o passado.
Sabia que isso era impossível.
Lia porque aquela carta guardava uma versão dele mesmo que já não existia.
O rapaz que acreditava que sempre haveria outro domingo.
Que sempre haveria tempo.
Que certas pessoas esperariam para sempre.
Quase vinte anos depois de receber a carta, Álvaro foi convidado para uma festa de aniversário
na cidade onde Lúcia crescera.
Pensou em não ir.
Foi.
A festa acontecia num salão próximo à praça.
Conversava com um velho conhecido quando viu uma mulher entrar.
Reconheceu-a imediatamente.
O tempo havia mudado seu cabelo, seu rosto e seu jeito de andar.
Mas era Lúcia.
Álvaro sentiu o coração acelerar como não acontecia havia décadas.
Ela também o viu.
Por alguns segundos, nenhum dos dois se moveu.
Depois Lúcia sorriu.
Aproximou-se.
— Álvaro.
— Lúcia.
Abraçaram-se.
Um abraço breve.
Educado.
Insuficiente para tantos anos.
Sentaram-se algum tempo depois.
Ela contou sobre a vida. Henrique morrera havia três anos, depois de uma doença. Tiveram dois
filhos. Um morava no exterior; o outro, em Goiânia.
Álvaro falou sobre Cecília e sobre a filha.
Conversaram como duas pessoas que se conheciam profundamente e, ao mesmo tempo, eram
quase desconhecidas.
Até que Lúcia perguntou:
— Você recebeu minha carta?
Álvaro olhou para ela.
— Recebi.
— Nunca respondeu.
Ele demorou.
— Respondi.
Ela franziu a testa.
— Como assim?
— Escrevi uma resposta.
— E onde está?
— Na minha casa.
Lúcia ficou em silêncio.
— Por que não enviou?
Álvaro olhou para as próprias mãos.
— Porque você ia se casar.
— Eu sei.
— Achei que não tinha o direito de atrapalhar.
Ela respirou fundo.
— O que dizia?
Ele poderia ter contado.
Não contou.
— Coisas que eu deveria ter dito antes.
Lúcia sorriu tristemente.
— Você sempre chegava atrasado.
— Eu sei.
Ficaram algum tempo em silêncio.
Depois ela perguntou:
— Ainda tem minha carta?
— Tenho.
— Depois de todo esse tempo?
Álvaro sorriu.
— Algumas coisas a gente não consegue jogar fora.
Lúcia baixou os olhos.
— Eu também guardei algumas.
— Minhas?
— As poucas que você teve coragem de mandar quando namorávamos.
Riram.
Por um momento, tinham novamente vinte anos.
Não aconteceu nada naquela noite.
Nenhuma declaração.
Nenhum beijo.
Nenhuma promessa de recuperar o tempo perdido.
A vida não devolve vinte anos apenas porque duas pessoas se reencontram.
Despediram-se na porta do salão.
— Foi bom ver você — disse Lúcia.
— Foi.
Ela deu alguns passos e parou.
— Álvaro?
— Oi.
— Da próxima vez que escrever uma carta para alguém, mande.
Ele sorriu.
— Aprendi.
Lúcia entrou no carro e foi embora.
Naquela noite, Álvaro voltou para casa e abriu a última gaveta da cômoda.
Retirou a caixa.
Pegou a carta de Lúcia.
Depois encontrou a resposta que escrevera tantos anos antes.
Sentou-se na cama.
Leu as duas.
Quando terminou, percebeu que estava chorando.
Não era exatamente tristeza.
Também não era arrependimento.
Era saudade.
Uma saudade antiga, amadurecida pelo tempo, que já não pedia que nada fosse diferente.
Pedia apenas para ser sentida.
Álvaro enxugou os olhos e ficou algum tempo segurando as duas cartas.
Durante muitos anos imaginara que a saudade era o desejo de trazer alguém de volta.
Naquela noite compreendeu que nem sempre era assim.
Às vezes, sentir saudade era apenas reconhecer que alguma coisa havia sido importante demais
para desaparecer completamente.
Alguns amores ficam.
Não como promessa.
Não como esperança.
Nem mesmo como desejo.
Ficam como parte daquilo que fomos.
Álvaro guardou novamente a carta de Lúcia.
Mas não guardou a sua.
Na manhã seguinte colocou-a num envelope novo. Não escreveu declaração alguma, não pediu
que ela voltasse e não tentou mudar o passado.
Acrescentou apenas uma pequena folha:
Lúcia, esta resposta chegou quase vinte anos atrasada. Não quero mudar nada da vida que
tivemos depois. Só acho que você merece saber que eu também senti.
Foi até o correio.
Dessa vez, entregou o envelope.
Quando saiu, o sol já estava alto. Álvaro caminhou lentamente até o carro sentindo uma paz
estranha, como se finalmente tivesse terminado uma conversa iniciada quando ainda era jovem.
Algumas semanas depois chegou uma carta.
Era curta.
Lúcia escrevera apenas:
Eu sempre soube.
Álvaro leu aquelas três palavras várias vezes.
Depois sorriu.
Naquela noite sentou-se sozinho na varanda.
Havia lembranças que ainda doíam.
Havia escolhas que ele faria diferente.
E havia uma mulher que, apesar de tantos anos e tantos caminhos separados, continuaria vivendo
em algum lugar de sua memória.
Álvaro não tentou fugir daquela saudade.
Deixou que ela viesse.
Porque descobrira, finalmente, que sentir saudade não significa necessariamente querer o
passado de volta.
Às vezes significa apenas admitir que, ainda ontem, alguma lembrança encontrou o caminho de
casa.
E fez o coração chorar outra vez.