Toda canção pode esconder uma história.
Primeiro, a história. Depois, a canção.
Sertão e Interior

O Retrato de Teresa

A história que poderia ter existido antes de uma canção

Quando Teresa chegou à Fazenda Santa Rita, numa manhã de setembro, ninguém imaginou que sua presença mudaria para sempre a vida de duas famílias. Ela vinha de uma pequena cidade do interior, onde crescera numa casa simples ao lado da mãe e de duas irmãs mais novas. Aos vinte e dois anos, aceitara o trabalho de professora na escola rural porque precisava ajudar em casa e porque, desde menina, acreditava que ensinar alguém a ler era uma das poucas maneiras de mudar um destino sem precisar sair do lugar.

A escola ficava numa construção branca próxima à capela. Havia uma única sala, carteiras antigas e uma lousa tão gasta que algumas palavras desapareciam antes mesmo de serem apagadas. Teresa não se importou. Na primeira semana, limpou as janelas, pediu aos pais algumas tábuas para fazer uma estante e começou a reunir livros. As crianças gostaram dela imediatamente.

Foi também naquela primeira semana que conheceu Joaquim. Ele tinha vinte e oito anos e trabalhava com o pai numa propriedade vizinha. Era conhecido como homem sério, trabalhador e de poucas palavras. Encontraram-se pela primeira vez quando Teresa tentava atravessar um pequeno riacho depois de uma chuva. A água havia subido, e ela permanecia parada na margem, calculando se conseguiria passar sem molhar os sapatos.

Joaquim vinha a cavalo e parou ao vê-la.

— A senhora está esperando a água baixar?

Teresa olhou para ele.

— Estou esperando aparecer uma ponte.

— Então vai esperar bastante.

Ela sorriu.

— Foi o que imaginei.

Joaquim desceu do cavalo, encontrou algumas pedras e improvisou uma passagem. Teresa atravessou cuidadosamente e agradeceu. Quando perguntou o nome dele, ouviu apenas:

— Joaquim.

— Eu sou Teresa.

— Eu sei.

Ela se surpreendeu.

— Como sabe?

Joaquim apontou para a escola ao longe.

— Aqui todo mundo já sabe quem é a professora nova.

Montou novamente e seguiu pela estrada. Teresa permaneceu alguns segundos olhando o cavalo desaparecer ao longe. Naquela noite, pela primeira vez desde que chegara, perguntou à mulher que lhe alugava um quarto quem era Joaquim.

Os encontros começaram por acaso e continuaram por vontade. Aos domingos, depois da missa, Joaquim aparecia perto da praça. Em outros dias, passava diante da escola quando Teresa encerrava as aulas. Algumas vezes oferecia-se para carregar livros; outras, apenas caminhava com ela até a casa onde estava hospedada.

Conversavam sobre coisas simples. Teresa contava histórias dos alunos; Joaquim falava sobre a fazenda, as plantações e os animais. Ela descobriu que ele gostava de ouvir rádio à noite e que sabia tocar viola, embora raramente tocasse diante de outras pessoas. Ele descobriu que Teresa tinha medo de tempestades e guardava dentro dos livros as flores que encontrava pelo caminho.

Certa tarde, Joaquim a viu colocando uma pequena flor entre as páginas.

— Por que guarda flor dentro de livro?

— Para lembrar.

— Lembrar de quê?

— Do dia em que encontrei.

Ele achou estranho.

— Você lembra de todos?

— Quase todos.

— E quando esquece?

Teresa fechou o livro.

— Então a flor lembra por mim.

Joaquim nunca esqueceu aquela resposta.

Pouco tempo depois começaram a namorar. Não houve pedido formal. Houve apenas um domingo em que ele segurou a mão dela durante a caminhada e Teresa não retirou. No interior, isso já dizia bastante.

O problema tinha nome: Augusto.

Era filho de um dos maiores proprietários de terras da região e conhecia Teresa desde antes de sua chegada à Fazenda Santa Rita. Tinham crescido na mesma cidade. As famílias se conheciam e, durante algum tempo, todos acreditaram que os dois acabariam casados.

Todos, menos Teresa.

Augusto nunca aceitara bem isso.

Meses depois de Teresa começar a trabalhar na escola, ele apareceu. Chegou num automóvel que imediatamente chamou a atenção das crianças. Vestia-se de maneira muito diferente dos homens daquela região e carregava um embrulho. Teresa estava fechando uma janela quando o viu.

— O que você está fazendo aqui?

— Vim visitar você.

— Poderia ter avisado.

— Se avisasse, talvez você dissesse para eu não vir.

Ela não respondeu. Augusto entregou-lhe o pacote. Dentro havia um vestido.

— Não posso aceitar.

— Pode.

— Augusto…

— Sua mãe disse que você quase não volta para casa.

Teresa colocou o vestido novamente na caixa.

— Tenho trabalho.

— Sua mãe acha que existe outro motivo.

Ela fechou a tampa.

— Minha mãe não deveria conversar sobre minha vida com você.

Augusto percebeu.

— Existe alguém?

Teresa não queria responder, mas respondeu:

— Existe.

Foi a primeira vez que viu algo mudar no rosto dele.

— Quem?

— Isso não importa.

— Para mim importa.

— Para mim, não.

Augusto saiu sem levar o vestido. Naquela tarde, as crianças encontraram a caixa sobre a mesa da professora e passaram vários minutos tentando descobrir para quem seria aquela roupa tão bonita.

Teresa nunca a usou.

Joaquim soube da visita. Numa comunidade pequena, segredos envelheciam depressa. Perguntou sobre Augusto naquela mesma noite, e Teresa contou a verdade. Contou que as famílias haviam desejado o casamento, que Augusto sempre acreditara que aquilo aconteceria e que ela jamais lhe prometera nada.

Joaquim ouviu em silêncio.

— Você gosta dele?

— Não.

— Já gostou?

Teresa pensou antes de responder.

— Talvez quando era muito nova. Mas não como gosto de você.

A resposta deveria ter sido suficiente.

Durante algum tempo, foi.

No ano seguinte, Joaquim pediu Teresa em casamento. Dessa vez houve pedido formal. Ele foi até a cidade conversar com a mãe dela. Vestiu sua melhor camisa e passou a viagem inteira ensaiando o que diria. Quando chegou, esqueceu tudo.

— Dona Alzira, eu queria casar com sua filha.

A mulher olhou para ele.

— Qual delas?

Joaquim empalideceu. Dona Alzira começou a rir.

— Estou brincando, rapaz. Teresa escreveu tanto sobre você que até parece que já o conheço.

Casaram-se numa manhã de maio. A festa foi simples. Mesas foram montadas no terreiro da fazenda. Houve carne assada, bolo feito pelas mulheres da comunidade e música até tarde. Teresa usou um vestido costurado pela mãe. Joaquim tocou viola.

Antes de guardar o vestido, Teresa retirou uma pequena flor de seu buquê e colocou-a entre as páginas de um livro.

Talvez, se a história tivesse terminado ali, ninguém jamais tivesse ouvido falar deles.

Mas algumas histórias não sabem terminar quando deveriam.

Os primeiros anos foram felizes. Construíram uma pequena casa numa parte da propriedade cedida pelo pai de Joaquim. Tiveram um filho, Pedro, e depois uma menina, Ana. Teresa deixou a escola durante algum tempo para cuidar das crianças, mas voltou quando Ana completou três anos.

Joaquim trabalhava cada vez mais. Queria ampliar a criação, comprar mais terras e construir uma casa melhor.

— Para quê? — Teresa perguntava.

— Para vocês.

— Nós já temos uma casa.

— Uma casa melhor.

Ela sorria.

— Você sempre acha que o que vem depois vai ser melhor.

Joaquim não percebia que havia uma pergunta escondida naquela frase.

Os anos foram transformando pequenas diferenças em distâncias. Ele chegava tarde. Ela passava os dias entre a escola, os filhos e a casa. Conversavam menos. Não porque tivessem deixado de se amar. Às vezes, o amor simplesmente fica soterrado sob o peso das coisas que precisam ser feitas.

Foi então que Augusto reapareceu.

Ele voltara para cuidar de negócios da família. Estava diferente. Mais velho. Casara-se, tivera uma filha e ficara viúvo. Encontrou Teresa por acaso numa venda da cidade.

— Professora Teresa.

Ela reconheceu a voz antes de se virar.

— Augusto.

Conversaram alguns minutos. Nada aconteceu. Depois encontraram-se novamente. E outra vez. Augusto começou a visitar a escola porque queria fazer uma doação de livros.

Joaquim soube.

— Ele não podia mandar os livros por outra pessoa?

— Poderia.

— Então por que foi pessoalmente?

Teresa fechou a panela que estava no fogão.

— Pergunte a ele.

— Estou perguntando a você.

Ela virou-se.

— E eu estou dizendo que não tenho nada para explicar.

A discussão terminou ali.

Mas a desconfiança, não.

Joaquim começou a reparar em coisas que antes não perceberia. Um atraso. Uma ida à cidade. Uma carta.

A carta era da mãe de Teresa. Ele não sabia. Encontrou-a sobre a mesa e perguntou quem havia escrito.

— Minha mãe.

— Posso ver?

Teresa olhou para ele durante alguns segundos.

— Não.

Joaquim sentiu o sangue subir ao rosto.

— Por quê?

— Porque é uma carta para mim.

— Se não tem nada…

Teresa o interrompeu.

— Não termine essa frase.

Foi a primeira grande briga. Naquela noite, dormiram separados.

Na manhã seguinte, Teresa colocou a carta diante dele.

— Leia.

Joaquim não tocou.

— Leia — insistiu.

— Não quero.

— Ontem queria.

— Hoje, não.

Teresa recolheu a carta.

— Então nunca mais me peça para provar que sou inocente de uma coisa que não fiz.

Joaquim sabia que ela tinha razão. Mas o orgulho é uma doença que muitas vezes prefere perder a admitir que está errada.

Ele não pediu desculpas.

Os meses seguintes foram ruins. Augusto continuava na região. Joaquim continuava desconfiado. Teresa continuava se afastando.

Até que, numa tarde, Pedro chegou da cidade e comentou inocentemente:

— Vi a mãe conversando com seu Augusto.

Joaquim ficou imóvel.

— Onde?

— Perto da estação.

Quando Teresa chegou, ele estava esperando.

— Você encontrou Augusto hoje?

Ela colocou a bolsa sobre a cadeira.

— Encontrei.

— Por que não me contou?

— Acabei de chegar.

— O que estavam fazendo?

Teresa percebeu imediatamente o rumo da conversa.

— Conversando.

— Sobre quê?

— Ele vai embora.

— E foi se despedir de você?

Ela respirou fundo.

— Foi.

— E você achou isso normal?

— Joaquim, chega.

— Eu quero saber a verdade.

Teresa ficou em silêncio por alguns segundos.

— Qual verdade você quer?

— A verdadeira.

— Não. Você quer a verdade que combina com aquilo que já decidiu acreditar.

Ele bateu a mão sobre a mesa.

— Não faça de mim um idiota.

As crianças ouviram do quarto. Teresa baixou a voz.

— Eu nunca fiz isso.

— Então por que ele continua atrás de você?

— Porque ele escolheu fazer isso. Eu não controlo Augusto.

— Mas pode impedir.

— Como?

Joaquim não respondeu.

Teresa aproximou-se.

— Eu casei com você. Tive meus filhos com você. Construí minha vida aqui. Quantos anos ainda vou precisar provar que escolhi você?

A pergunta atravessou Joaquim.

Mas não atravessou o ciúme.

— Talvez tenha escolhido errado.

Teresa ficou muito quieta.

Algumas frases mudam uma vida no instante em que são pronunciadas.

Joaquim percebeu imediatamente.

— Teresa…

Ela levantou a mão.

— Não.

Naquela noite, Teresa não chorou diante dele. Arrumou algumas roupas. No dia seguinte, levou as crianças para a casa da mãe.

Disse que precisava de tempo.

O tempo não resolveu.

Joaquim tentou escrever, mas rasgou as cartas. Tentou ir buscá-la, mas voltou no meio do caminho. Esperava que Teresa retornasse.

Teresa esperava que Joaquim fosse atrás dela.

Dois orgulhos separados por poucos quilômetros conseguiram construir uma distância maior do que muitas fronteiras.

Passaram-se semanas. Depois, meses.

Augusto já havia partido. Ironicamente, o homem que provocara tanta desconfiança nem sequer estava mais ali.

Certa manhã, Joaquim entrou no quarto. O armário de Teresa permanecia quase vazio. Sobre uma prateleira encontrou um livro antigo.

Abriu.

Uma flor seca caiu no chão.

Ele se abaixou e a recolheu. Era uma pequena flor amarelada. Levou alguns minutos para lembrar.

Depois lembrou.

O riacho.

O começo do namoro.

Naquela tarde, muitos anos antes, Teresa havia encontrado aquela flor perto das pedras que ele colocara para ajudá-la a atravessar.

“Para lembrar”, ela dissera.

Joaquim sentou-se na cama e começou a folhear o livro. Encontrou outra flor.

A do casamento.

Depois outra.

E outra.

Cada uma acompanhada por uma pequena data escrita a lápis.

Havia dezenas.

Joaquim começou a reconhecer os dias: o nascimento de Pedro, o nascimento de Ana, uma viagem, um aniversário, um domingo qualquer.

Sua vida estava guardada dentro daquele livro.

A vida dos dois.

Na última página havia uma flor ainda relativamente nova. Ao lado, uma data de poucos meses antes. Joaquim tentou lembrar o que havia acontecido naquele dia.

Não conseguiu.

Debaixo da data, Teresa escrevera apenas:

Joaquim voltou cedo para casa. Jantamos os quatro juntos.

Nada extraordinário.

Nenhuma festa.

Nenhum acontecimento.

Apenas uma noite em família.

E ela havia achado importante o suficiente para guardar.

Foi naquele instante que Joaquim finalmente compreendeu a dimensão de sua estupidez.

Passara meses procurando sinais de traição.

E ignorara dezenas de sinais de amor.

Pegou o cavalo e partiu. Não trocou de roupa. Não avisou ninguém.

Quando chegou à casa de dona Alzira, Teresa estava no quintal estendendo roupas. Ela o viu aproximar-se, mas não sorriu.

— As crianças estão dentro.

— Eu vim falar com você.

— Joaquim…

Ele desceu do cavalo. Trazia o livro nas mãos.

Teresa reconheceu.

— Onde encontrou?

— No quarto.

Ela ficou séria.

— Você abriu?

— Abri.

— Não devia.

— Eu sei.

Ele se aproximou.

— Teresa, eu passei meses querendo encontrar alguma coisa que provasse que você não me amava.

Ela não respondeu.

— E encontrei um livro inteiro provando o contrário.

Os olhos dela se encheram de lágrimas.

— Eu estava errado — continuou Joaquim.

Era provavelmente a frase mais difícil que aquele homem pronunciara em toda a vida.

— Muito errado.

Teresa enxugou o rosto.

— Isso não apaga o que você disse.

— Eu sei.

— Nem o que fez.

— Eu sei.

— Eu não sei se consigo voltar.

Joaquim assentiu.

— Eu sei.

Ela olhou para ele, surpresa pela terceira resposta igual.

— Então por que veio?

Joaquim estendeu-lhe o livro.

— Porque você passou anos provando que me amava. Acho que chegou minha vez.

Teresa não voltou naquele dia.

Nem naquela semana.

Joaquim começou a visitá-la aos domingos. Às vezes conversavam. Às vezes ela não queria vê-lo.

Ele continuava indo.

Não exigia. Não acusava. Não perguntava quando ela voltaria.

Esperava.

Três meses depois, Teresa apareceu na Fazenda Santa Rita. Trazia uma mala.

Joaquim estava consertando a cerca quando a viu. Ficou parado.

Ela se aproximou.

— Não pense que está tudo resolvido.

— Não penso.

— Ainda estou zangada.

— Tem direito.

— E se você voltar a desconfiar de mim desse jeito…

— Você pode ir embora.

Teresa franziu a testa.

— Não. Você é que vai.

Joaquim sorriu pela primeira vez.

— Justo.

Ela tentou não sorrir.

Falhou.

Voltaram para casa juntos.

Muitos anos depois, quando os filhos já tinham suas próprias famílias, Joaquim encontrou Teresa sentada na varanda com aquele mesmo livro.

— Ainda guarda essas flores?

— Algumas.

Ele sentou-se ao lado dela.

— E lembra de todas?

Teresa abriu uma página. Uma flor quase desfeita permanecia presa ali.

— Dessa lembro.

— Qual é?

— O dia em que voltei para casa.

Joaquim olhou para a flor.

— Você guardou uma naquele dia?

— Guardei.

— Por quê?

Teresa fechou o livro.

— Porque quase perdemos tudo.

Ficaram em silêncio enquanto o sol desaparecia atrás dos campos.

Joaquim segurou a mão dela.

Durante muito tempo, acreditara que o amor podia ser perdido por causa de outro homem, de uma mentira ou de uma traição. Demorou anos para descobrir que havia perigos muito mais próximos: o orgulho, o medo, a desconfiança, as palavras pronunciadas quando deveriam permanecer caladas e aquelas que permanecem caladas justamente quando deveriam ser ditas.

Teresa colocou o livro sobre o colo e encostou a cabeça no ombro do marido. Dentro daquelas páginas envelhecidas havia flores que já não tinham perfume nem cor, mas continuavam guardando momentos que o tempo não conseguira apagar.

Talvez fosse assim também com o amor.

Algumas coisas perdem a aparência que tinham quando eram novas. Mudam com os anos, tornam-se frágeis, carregam marcas e quase se desfazem quando tocadas.

Mas isso não significa que tenham perdido o valor.

Às vezes significa justamente o contrário.

Naquela noite, enquanto Teresa guardava novamente seu velho livro e Joaquim observava o campo escurecer, nenhum dos dois poderia imaginar quantas outras pessoas viveriam histórias parecidas com a deles.

Histórias em que o amor quase termina não porque deixou de existir, mas porque alguém permitiu que o ciúme falasse mais alto.

E talvez, em algum lugar do interior, uma dessas histórias ainda encontrasse uma viola, algumas palavras e uma melodia.

E então virasse canção.