Toda canção pode esconder uma história.
Primeiro, a história. Depois, a canção.
Histórias do Brasil

O Último Trem para Casa

A história que poderia ter existido antes de uma canção

Todas as noites, às dez e vinte, Ernesto começava a olhar para o relógio.

Não importava onde estivesse.

Se estivesse conversando, diminuía as palavras.

Se estivesse tomando café, bebia mais depressa.

Se estivesse ouvindo música, já não prestava tanta atenção.

Às dez e meia, levantava-se.

Às dez e quarenta, precisava estar caminhando para a estação.

Porque havia um trem que ele não podia perder.

E durante muito tempo Helena acreditou que aquilo significava que Ernesto gostava mais de ir

embora do que de ficar com ela.

Só muitos anos depois descobriu que estava enganada.

São Paulo, 1954.

A cidade crescia depressa.

Cresciam os prédios, as fábricas, as ruas e os bairros.

Gente chegava de todos os lugares procurando trabalho.

Ernesto tinha vinte e sete anos e trabalhava numa oficina de manutenção de máquinas no Brás.

Morava com a mãe, dona Amélia, numa casa simples na Zona Norte.

O pai morrera quando Ernesto tinha dezesseis anos.

Desde então, os dois haviam aprendido a depender um do outro.

Amélia fazia costuras para fora.

Ernesto trabalhava desde cedo.

Não eram infelizes.

Também não tinham vida fácil.

Foi numa festa de aniversário que Ernesto conheceu Helena.

Ela tinha vinte e quatro anos e trabalhava numa loja de tecidos.

Quando Ernesto a viu, estava perto de uma janela, conversando com duas amigas.

Passou quase meia hora criando coragem para se aproximar.

Quando finalmente conseguiu, perguntou:

— Você gosta de dançar?

Helena olhou para ele.

— Gosto.

Ernesto respirou aliviado.

— Então eu queria saber se você pode me ensinar.

Ela riu.

— Você não sabe?

— Se soubesse, não precisava inventar assunto.

Helena gostou.

Dançaram.

Ernesto pisou duas vezes no pé dela.

Mesmo assim, conseguiu seu endereço.

Naquela época, isso valia mais que um número de telefone.

No domingo seguinte apareceu na casa de Helena.

Levava flores.

A mãe dela abriu a porta.

— Quem é?

— Ernesto.

— Ernesto quem?

Ele percebeu que não sabia responder de forma convincente.

— Conheci sua filha numa festa.

A mulher examinou as flores.

— Helena!

Helena apareceu.

Surpresa.

— Você veio mesmo.

— Falei que vinha.

Começaram a namorar.

Cinema.

Passeios no centro.

Sorvete.

Festas.

E longas conversas na porta da casa dela.

Mas havia um problema.

O relógio.

Ernesto nunca podia ficar até muito tarde.

No começo, Helena achava engraçado.

— Você tem hora para dormir?

— Tenho hora para pegar o trem.

— Perde um.

— Não posso.

— Pega o próximo.

— Não tem próximo.

Ela ria.

— Então fica.

Ernesto também ria.

Mas ia embora.

Sempre.

Dona Amélia sofria de crises respiratórias.

Alguns dias estava bem.

Outros mal conseguia levantar.

Ernesto nunca contou isso a Helena em detalhes.

Não porque quisesse esconder.

Simplesmente aprendera desde menino que problema de casa ficava em casa.

Quando saía para trabalhar, deixava comida pronta.

Quando voltava, passava na farmácia.

Nas noites em que visitava Helena, uma vizinha ficava atenta.

Mas dona Amélia não gostava de dormir sem saber que o filho havia voltado.

— Pode ficar mais — dizia.

— A senhora sabe que não vai dormir.

— Durmo, sim.

— Não dorme.

— Você está perdendo a juventude por minha causa.

Ernesto fingia irritação.

— Minha juventude não acaba às onze da noite.

Amélia sorria.

— Um dia Helena vai cansar.

Ernesto não acreditava.

Durante quase dois anos, o namoro seguiu assim.

Helena começou a se incomodar.

As amigas tinham namorados que ficavam até tarde.

Alguns acompanhavam bailes.

Outros viajavam nos fins de semana.

Ernesto parecia sempre ter uma obrigação.

Certa noite foram a uma festa.

Havia música.

Helena estava feliz.

Às dez e vinte, viu Ernesto olhar para o relógio.

— Não.

Ele sorriu.

— O quê?

— Hoje não.

— Helena…

— Fica.

— Não posso.

— Pode, sim.

— Preciso pegar o trem.

— Sempre o trem.

— Você sabe.

— Não. Eu não sei.

Ernesto ficou sério.

— Como assim?

— Nunca entendi por que você precisa ir embora exatamente quando as coisas estão ficando

boas.

— Porque preciso voltar para casa.

— Todo mundo precisa.

— Para mim é diferente.

— Por quê?

Ele hesitou.

Talvez devesse ter explicado.

Mas orgulho também sabe perder oportunidades.

— Porque é.

Helena se afastou.

— Então vá.

— Helena…

— Vai perder o trem.

Ernesto foi.

Durante o caminho inteiro arrependeu-se.

Passaram quatro dias sem se falar.

No quinto, Ernesto apareceu na loja de tecidos.

Helena estava atendendo.

Esperou.

Quando ela saiu, perguntou:

— Podemos conversar?

— Tenho que ir para casa.

— Eu acompanho.

Caminharam.

Ernesto contou sobre a mãe.

Sobre as crises.

Sobre os remédios.

Sobre as noites em que Amélia acordava sem conseguir respirar.

— Por que nunca me falou?

— Não gosto de ficar contando problema.

— Eu sou sua namorada.

— Eu sei.

— Então deveria saber.

Ernesto olhou para ela.

— Talvez.

Helena parou.

— Você acha que eu ficaria brava porque você cuida da sua mãe?

— Não.

— Então?

Ele não tinha resposta.

Helena segurou sua mão.

— Da próxima vez, fala.

Ernesto assentiu.

Parecia resolvido.

Mas a vida raramente resolve tudo numa conversa.

Alguns meses depois, Helena recebeu uma proposta de casamento.

Não exatamente para ela.

Para a família.

O homem se chamava Armando.

Era filho de conhecidos de seu pai.

Tinha uma pequena loja e uma situação financeira muito melhor que a de Ernesto.

Helena recusou.

O pai insistiu.

— Esse namoro com Ernesto vai dar em quê?

— Em alguma coisa.

— Faz dois anos.

— E?

— Ele falou em casamento?

Helena não respondeu.

Ernesto não havia falado.

Não porque não quisesse.

Queria.

Mas fazia contas.

Aluguel.

Comida.

Remédios da mãe.

Salário.

Tudo parecia impossível.

Quando Helena perguntou diretamente:

— Você pretende casar comigo?

Ernesto respondeu:

— Claro.

— Quando?

— Quando conseguir.

— Conseguir o quê?

— Condição.

— E quando vai ser isso?

Ele não sabia.

— Preciso cuidar da minha mãe.

Helena respirou fundo.

— Eu sei.

— Então entende.

— Entendo mais do que você pensa.

— Então qual é o problema?

Ela demorou.

— Às vezes parece que não existe lugar para mim na sua vida.

Ernesto ficou ofendido.

— Isso não é verdade.

— Talvez não seja. Mas parece.

O relacionamento começou a se desgastar.

Não havia grande briga.

Havia pequenas decepções.

Domingos cancelados.

Planos adiados.

Conversas interrompidas pelo relógio.

Até que, numa noite, Helena disse:

— Acho melhor a gente parar.

Ernesto ficou imóvel.

— Parar o quê?

— Nós.

— Por causa do trem?

Ela quase sorriu.

— Não é por causa do trem.

— Então por quê?

— Porque eu não sei se você algum dia vai conseguir ficar.

Ernesto queria dizer muitas coisas.

Que a amava.

Que economizava dinheiro.

Que pensava em casamento.

Que imaginava uma casa para os dois e um quarto para a mãe.

Mas ficou magoado.

— Se é isso que você quer…

Helena esperou.

Talvez quisesse que ele lutasse.

Ernesto não lutou.

— É.

Ele olhou para o relógio.

Dez e trinta e cinco.

— Preciso ir.

Helena sentiu os olhos encherem.

— Claro.

Foi a pior despedida dos dois.

Os meses seguintes foram difíceis.

Ernesto continuou trabalhando.

Continuou pegando o mesmo trem.

Continuou chegando em casa para encontrar a mãe acordada.

Uma noite, Amélia perguntou:

— E Helena?

— Acabou.

A mãe ficou triste.

— Por quê?

— Não deu certo.

— Isso não é resposta.

— É a que tenho.

Amélia ficou olhando para o filho.

— Foi por minha causa?

— Não.

— Ernesto.

— Não foi.

Mas talvez tivesse sido um pouco.

Não porque Amélia exigisse.

Porque Ernesto transformara responsabilidade em muro.

Quase um ano depois, a saúde de dona Amélia piorou.

Precisou ser internada.

Helena soube por uma amiga em comum.

Foi ao hospital.

Ernesto a encontrou no corredor.

Ficou surpreso.

— O que está fazendo aqui?

— Vim ver sua mãe.

Amélia ficou feliz ao vê-la.

— Finalmente.

Helena sorriu.

— Finalmente o quê?

A velha olhou para Ernesto.

— Esse menino é muito burro.

— Mãe.

— É verdade.

Helena começou a rir.

Foi a primeira vez em meses que ela e Ernesto riram juntos.

Amélia permaneceu dez dias internada.

Helena apareceu outras vezes.

Sem promessa.

Sem conversa sobre o passado.

Apenas aparecia.

Certa noite, ela e Ernesto tomaram café no corredor.

— Você casou? — ele perguntou.

— Não.

— Armando?

Helena levantou uma sobrancelha.

— Como sabe?

— Cidade pequena dentro de cidade grande.

— Não casei.

Ernesto assentiu.

— E você?

— Também não casei com Armando.

Ela riu.

— Estou falando sério.

— Eu também.

Silêncio.

Depois Helena perguntou:

— Ainda pega aquele trem?

— Todo dia.

— Continua sendo o último?

— Para mim, sim.

— Por quê?

Ernesto sorriu.

— Porque depois dele eu não chego em casa.

Dessa vez Helena compreendeu completamente.

Dona Amélia voltou para casa, mas já não podia ficar sozinha.

Ernesto começou a procurar outra solução.

Helena soube.

— Minha tia conhece uma senhora que cuida de idosos.

— Não tenho dinheiro para isso.

— Talvez tenha.

— Helena…

— Pelo menos converse.

Conversaram.

Organizaram.

Ernesto descobriu que aceitar ajuda também era uma forma de cuidar.

Algumas semanas depois, convidou Helena para sair.

— Isso é um encontro?

— Se você aceitar.

— Que horas termina?

Ernesto olhou para o relógio.

— Hoje não sei.

Helena sorriu.

— Então aceito.

Recomeçaram devagar.

Sem fingir que nada acontecera.

Meses depois, Ernesto levou Helena para conhecer uma pequena casa que estava disponível para

aluguel.

Dois quartos.

Cozinha.

Quintal.

— O que estamos fazendo aqui? — ela perguntou.

Ernesto abriu a porta de um dos quartos.

— Minha mãe pode ficar aqui.

Depois mostrou o outro.

— E nós aqui.

Helena olhou para ele.

— Isso é um pedido de casamento?

— Eu tinha preparado uma fala.

— Então fala.

Ernesto respirou.

Esquecera tudo.

— Casa comigo?

Helena começou a rir.

— Era essa a fala?

— A versão curta.

— E a longa?

— Perdi.

Ela o abraçou.

— Sim.

Casaram-se no ano seguinte.

Dona Amélia viveu com eles por mais seis anos.

Helena ajudou a cuidar dela.

Não por obrigação.

Por escolha.

Quando Amélia morreu, Ernesto ficou ao lado da cama segurando sua mão.

Depois do enterro, entrou no quarto da mãe.

Sobre a mesa havia um relógio pequeno.

Ernesto pegou.

Helena apareceu na porta.

— Está bem?

Ele assentiu.

Depois olhou para o relógio.

— Durante anos eu corria para chegar em casa antes que ela dormisse.

Helena aproximou-se.

— Eu sei.

— Às vezes fico pensando se perdi muita coisa.

— Perdeu algumas.

— Você, quase.

— Quase.

Ela segurou sua mão.

— Mas também chegou muitas vezes onde precisava chegar.

Os anos passaram.

Ernesto e Helena tiveram dois filhos.

Ele continuou trabalhando na oficina.

Mais tarde tornou-se encarregado.

Compraram a casa.

Envelheceram.

Os trens mudaram.

Algumas linhas desapareceram.

A cidade cresceu tanto que os lugares de sua juventude pareciam pertencer a outro mundo.

Mas Ernesto nunca perdeu o hábito de olhar o relógio por volta das dez e vinte.

Helena percebia.

— Vai perder o trem?

Ele sorria.

— Acho que já perdi faz tempo.

Quando completaram cinquenta anos de casamento, os filhos organizaram uma festa.

Depois do jantar, um dos netos perguntou:

— Vô, como vocês se conheceram?

Helena respondeu:

— Seu avô vivia indo embora.

— Eu trabalhava.

— Não. Quando namorávamos.

— Eu precisava pegar o trem.

O neto riu.

— E a vó deixava?

Helena olhou para Ernesto.

— Não gostava.

— Ela quase casou com outro.

— Ernesto!

Todos começaram a rir.

O neto perguntou:

— E por que o senhor não ficava?

Ernesto pensou.

Havia passado a vida inteira tentando responder àquela pergunta.

— Porque alguém estava me esperando em casa.

O menino pareceu satisfeito.

Helena completou:

— Depois ele descobriu que também tinha alguém esperando para que ele ficasse.

Ernesto sorriu.

Era exatamente isso.

Naquela noite, depois que todos foram embora, os dois ficaram sozinhos na cozinha.

Já passava das onze.

Helena olhou para o relógio.

— Você perdeu.

— O quê?

— Seu trem.

Ernesto aproximou-se.

— Dessa vez posso ficar.

Ela sorriu.

— Ainda bem.

Sentaram-se.

Do lado de fora, São Paulo continuava acordada.

Carros passavam.

Prédios iluminavam o céu.

Quase nada lembrava a cidade onde haviam se conhecido.

Mas algumas coisas permaneciam.

Ernesto segurou a mão de Helena.

Durante muito tempo acreditara que sua juventude tinha sido dividida entre duas obrigações: a

vontade de permanecer com a mulher que amava e a necessidade de voltar para a mãe que

precisava dele.

Só depois compreendeu que não precisava escolher qual dos dois sentimentos era verdadeiro.

Os dois eram.

A vida quase nunca nos oferece amores organizados em horários convenientes.

Às vezes alguém precisa ir embora justamente quando gostaria de ficar.

Às vezes a pessoa que parte não está fugindo.

Está apenas tentando chegar a outro lugar onde também é necessária.

Talvez por isso algumas despedidas sejam tão difíceis de compreender quando somos jovens.

Vemos alguém olhando o relógio.

Vemos a pessoa se levantar.

Vemos a porta fechar.

E pensamos que ela escolheu partir.

Sem saber quem está esperando do outro lado da viagem.

Ernesto olhou novamente para o relógio.

Passava da meia-noite.

Nenhum trem precisava ser alcançado.

Nenhuma plataforma o esperava.

Nenhuma despedida era necessária.

Depois de tantos anos correndo para o último trem, finalmente podia permanecer.

E ficou.

SAUDOSA MALOCA