Toda canção pode esconder uma história.
Primeiro, a história. Depois, a canção.
Reflexões sobre a Vida

Os Nomes na Agenda

A história que poderia ter existido antes de uma canção

Quando Lúcia decidiu trocar de telefone, a atendente perguntou:

— Quer transferir todos os contatos?

— Todos.

— Tem bastante coisa aqui.

— Quanto?

A moça olhou para a tela.

— Oitocentos e dezessete.

Lúcia arregalou os olhos.

— Não conheço oitocentas pessoas.

A atendente riu.

— Seu telefone acha que conhece.

Enquanto esperava, Lúcia começou a percorrer os nomes.

Alguns reconheceu imediatamente.

Outros precisou pensar.

Havia médicos que consultara uma única vez.

Encanadores.

Restaurantes.

Antigos colegas.

Pessoas que provavelmente já tinham mudado de número.

E havia nomes que provocavam alguma coisa.

Beatriz.

Parou.

Não falava com Beatriz havia dezessete anos.

Continuou.

Mauro.

O primeiro namorado.

Não via havia mais de quarenta anos.

Professora Nair.

Provavelmente já estava morta.

Paulo Escritório.

Trabalharam juntos durante vinte e três anos.

Fazia seis que não conversavam.

Então apareceu:

Renato irmão.

Lúcia ficou olhando.

Não falava com o irmão havia quase três anos.

A atendente perguntou:

— Está tudo bem?

— Está.

Mas alguma coisa naquela lista a incomodou.

O telefone guardava pessoas que sua vida havia perdido.

Lúcia tinha sessenta e seis anos.

Era viúva havia oito.

Tinha duas filhas adultas, três netos e uma rotina razoavelmente confortável.

Durante trinta e cinco anos trabalhara numa companhia de seguros.

Fora secretária.

Assistente.

Supervisora.

Gerente administrativa.

Aposentara-se aos sessenta.

Gostava de dizer que tivera uma vida comum.

Casamento.

Filhos.

Trabalho.

Contas.

Férias.

Problemas.

Alegrias.

Nada extraordinário.

Mas naquela tarde começou a pensar que talvez uma vida não fosse medida apenas pelo que

aconteceu.

Talvez também pudesse ser medida pelas pessoas que estiveram presentes enquanto as coisas

aconteciam.

Beatriz fora sua melhor amiga na juventude.

Conheceram-se aos quinze anos.

Estudaram juntas.

Dividiram segredos.

Roupas.

Medos.

Namorados.

Foi Beatriz quem acompanhou Lúcia quando ela conheceu Roberto, o homem com quem se

casaria.

— Ele é bonito — disse Beatriz.

— Só isso?

— Quer relatório completo?

— Quero saber se gostou.

— Eu não preciso gostar. Você precisa.

Quando Roberto pediu Lúcia em casamento, Beatriz foi a primeira a saber.

Foi madrinha.

Quando nasceu a primeira filha, passou três noites ajudando.

Quando Lúcia perdeu a mãe, Beatriz dormiu em sua casa por uma semana.

Parecia impossível que um dia deixassem de ser amigas.

Mas deixaram.

Não houve traição.

Nem grande briga.

Houve vida.

Beatriz mudou-se.

Lúcia trabalhava demais.

Telefonemas diminuíram.

Encontros foram adiados.

Um aniversário esquecido.

Depois outro.

Até que o silêncio ficou grande demais para ser atravessado sem constrangimento.

Dezessete anos.

Lúcia tocou no nome.

O número ainda estava ali.

Não telefonou.

Naquela noite, encontrou uma caixa de fotografias.

Procurou Beatriz.

Achou várias.

Duas meninas numa excursão escolar.

Depois jovens numa praia.

Beatriz no casamento.

As duas segurando Carolina recém-nascida.

Lúcia virou uma das fotografias.

No verso:

“Amigas para sempre.”

Ela riu.

Depois ficou triste.

“Para sempre” é uma expressão que os jovens usam sem conhecer o tamanho do tempo.

Continuou olhando as fotografias.

Encontrou Paulo.

Colega de trabalho.

Durante vinte e três anos almoçaram juntos quase todos os dias.

Paulo sabia como Lúcia tomava café.

Sabia quando estava irritada apenas pela forma como fechava uma gaveta.

Sabia os nomes das filhas.

Ela conhecia a mulher dele.

Os filhos.

Os problemas.

Quando Roberto morreu, Paulo foi uma das primeiras pessoas a chegar ao velório.

Sentou-se ao lado de Lúcia.

Não tentou consolá-la com frases.

Ficou.

Depois que ela se aposentou, prometeram manter contato.

Nos primeiros meses, tomaram café algumas vezes.

Depois cada um seguiu sua rotina.

Seis anos.

Como alguém podia passar vinte e três anos almoçando com uma pessoa e depois simplesmente

deixar de saber o que acontecia com ela?

Lúcia procurou o contato.

Telefonou.

Chamou.

Ninguém atendeu.

Quase desligou.

— Alô?

A voz estava mais velha.

— Paulo?

— Sim.

— É a Lúcia.

Silêncio.

Depois:

— Não acredito.

Ela começou a rir.

— Ainda lembra?

— Lúcia, eu passei vinte anos ouvindo você reclamar do ar-condicionado.

— Vinte e três.

— Então como esquecer?

Conversaram durante uma hora.

Antes de desligar, marcaram café.

Dessa vez com dia e hora.

Lúcia aprendera que “qualquer dia” é uma data perigosa.

No café, Paulo chegou com uma bengala.

— O que aconteceu?

— Joelho.

— Você está velho.

— Você também.

Riram.

Conversaram como se os seis anos fossem apenas um fim de semana.

Paulo contou que perdera a esposa.

Lúcia não sabia.

Sentiu vergonha.

— Eu deveria ter…

Ele interrompeu.

— Não deveria nada.

— Você foi ao velório do Roberto.

— E você teria ido ao da Sônia se soubesse.

Lúcia percebeu a diferença.

Não era falta de carinho.

Era falta de presença.

E presença, descobriu, não sobrevive apenas de intenção.

Dias depois, criou coragem.

Ligou para Beatriz.

O número não existia mais.

Procurou pelas redes sociais.

Encontrou uma das filhas dela.

Mandou mensagem.

Horas depois recebeu resposta.

“Minha mãe vai ficar muito feliz.”

Lúcia sentiu o coração acelerar.

A filha enviou o novo número.

Ela telefonou.

— Alô?

— Beatriz?

— Quem é?

— Uma pessoa que demorou dezessete anos para ligar.

Silêncio.

Lúcia quase chorou antes da resposta.

— Sua desgraçada.

Começaram a rir.

Depois choraram.

As duas.

Encontraram-se duas semanas depois.

Beatriz estava diferente.

Claro que estava.

Cabelos brancos.

Óculos.

Alguns movimentos mais lentos.

Lúcia também.

Abraçaram-se.

Ficaram alguns segundos sem falar.

Depois Beatriz disse:

— Você está velha.

— Paulo falou a mesma coisa.

— Quem é Paulo?

Lúcia começou a rir.

Algumas coisas permaneciam.

Passaram a tarde conversando.

Não tentaram recuperar dezessete anos em quatro horas.

Seria impossível.

Contaram apenas o que parecia importante.

Filhos.

Mortes.

Casamentos.

Separações.

Doenças.

Netos.

Medos.

Quando estavam se despedindo, Lúcia perguntou:

— Como deixamos isso acontecer?

Beatriz pensou.

— Talvez porque achávamos que amizade cuidava de si mesma.

— E não cuida?

— Acho que nada cuida.

Lúcia entendeu.

Até aquilo que parece permanente precisa ser visitado de vez em quando.

Restava Renato.

Esse era diferente.

Não tinham simplesmente se afastado.

Tinham brigado.

Depois da morte do pai, discutiram sobre a venda de uma pequena casa de família.

O imóvel não valia muito.

Mas os dois conseguiram transformar aquilo numa questão enorme.

Renato queria vender.

Lúcia queria manter.

Discutiram.

Disseram coisas antigas.

Porque brigas raramente permanecem no assunto em que começaram.

— Você sempre decide tudo — ele dissera.

— Porque você nunca resolve nada.

— Você sempre se achou melhor.

— E você sempre deixou os problemas para os outros.

Em algum momento a casa deixou de importar.

Estavam discutindo infância.

Preferências do pai.

Responsabilidades com a mãe.

Feridas que tinham quarenta anos.

A casa foi vendida.

O dinheiro dividido.

Os irmãos também.

Lúcia olhava para o nome dele quase todos os dias.

Não telefonava.

Até que Carolina percebeu.

— Mãe, liga para o tio.

— Ele também tem meu número.

— Tem.

— Então pode ligar.

— Pode.

— Pronto.

Carolina suspirou.

— Vocês têm mais de sessenta anos.

— Justamente. Já temos idade para escolher com quem queremos falar.

— Ou para entender que talvez não tenham outros trinta anos para esperar quem liga primeiro.

Lúcia não gostou.

Porque era verdade.

Ligou numa terça-feira.

Renato atendeu.

— Oi.

— Oi.

Nenhum perguntou quem era.

Reconheceram imediatamente.

— Está ocupado?

— Um pouco.

— Posso ligar outra hora.

Era a antiga saída.

Renato percebeu.

— Não. Pode falar.

Lúcia não sabia o que dizer.

— Eu estava mexendo nos contatos do telefone.

— Certo.

— Seu nome apareceu.

— Imagino que estivesse lá.

— Renato…

Ele esperou.

— Aquela briga foi uma estupidez.

Silêncio.

— Foi — respondeu.

Lúcia ficou surpresa.

Esperava resistência.

— Eu falei coisas que não devia.

— Eu também.

— Ainda está com raiva?

Renato pensou.

— Não sei se era raiva.

— O que era?

— Orgulho, talvez.

Lúcia sorriu.

— Nosso pai tinha bastante.

— Você herdou quase tudo.

— Você também.

Os dois riram.

Foi pouco.

Mas suficiente.

Voltaram a conversar.

Não se tornaram inseparáveis.

Nunca tinham sido.

Mas começaram a aparecer nos aniversários.

A telefonar.

A compartilhar fotografias dos netos.

Certa vez Renato apareceu na casa de Lúcia com uma caixa.

— Achei isso.

Dentro havia objetos da casa dos pais.

Uma pequena imagem religiosa.

Cartas.

Um relógio quebrado.

Fotografias.

Lúcia pegou uma em que os dois apareciam crianças.

Renato estava numa bicicleta.

Ela corria atrás.

— Você não me deixava usar essa bicicleta.

— Mentira.

— Está vendo? Cinquenta anos e continua mentindo.

Riram.

A casa pela qual brigaram já não existia para eles.

Mas aquilo que realmente importava daquela casa estava dentro de uma caixa.

E, principalmente, sentado diante dela tomando café.

Lúcia começou a observar sua agenda de outra maneira.

Alguns contatos foram apagados.

Outros permaneceram.

Mas percebeu que uma lista de nomes não dizia quem realmente fazia parte da nossa vida.

Havia pessoas com quem falava toda semana e que pouco sabiam sobre ela.

E pessoas que não via havia décadas, mas que haviam ajudado a construir quem era.

A professora Nair, por exemplo.

Descobriu que ainda estava viva.

Tinha noventa e três anos.

Morava com uma filha.

Lúcia escreveu uma carta.

Contou que fora sua aluna.

Disse que Nair tinha sido a primeira pessoa a dizer que ela escrevia bem.

E que talvez por causa disso nunca tivesse perdido o gosto pela leitura.

Duas semanas depois recebeu resposta.

A letra era trêmula.

“Não lembro de todos os meus alunos. Mas fico feliz de saber que alguma coisa ficou.”

Lúcia chorou.

Alguma coisa sempre fica.

O primeiro namorado, Mauro, ela não procurou.

Pensou.

Depois decidiu que não precisava.

Nem toda pessoa importante do passado precisa retornar ao presente.

Essa foi outra descoberta.

Algumas histórias podem permanecer exatamente onde terminaram.

Não havia mágoa.

Nem curiosidade suficiente para justificar uma volta.

Mauro tinha sido importante.

Isso bastava.

Lembrar não obrigava a recuperar.

Aos sessenta e oito anos, Lúcia comemorou o aniversário em casa.

Carolina.

A irmã dela, Fernanda.

Netos.

Renato.

Beatriz.

Paulo.

Outros amigos.

Em determinado momento, olhou ao redor.

Havia pessoas de diferentes épocas da sua vida reunidas no mesmo lugar.

Beatriz conhecia histórias de Lúcia aos quinze anos.

Renato conhecia as de cinco.

Paulo, as de trinta.

As filhas conheciam uma versão diferente.

Os netos, outra.

Lúcia percebeu uma coisa curiosa.

Nenhuma daquelas pessoas conhecia Lúcia inteira.

Talvez nem ela.

Cada uma guardava uma parte.

Depois da festa, Carolina ajudou a arrumar.

— Foi bom?

— Muito.

— Cansou?

— Muito mais.

A filha encontrou o telefone sobre a mesa.

— Foi isso que começou tudo, não foi?

— O quê?

— Aquela história dos contatos.

Lúcia sorriu.

— Foi.

— Ainda tem oitocentas pessoas?

— Setecentas e alguma coisa.

— Conhece todas?

— Não.

Carolina riu.

Lúcia ficou séria.

— Mas agora sei quais não quero perder.

Naquela noite, antes de dormir, abriu os contatos novamente.

Não como inventário.

Como memória.

Alguns nomes despertavam alegria.

Outros saudade.

Alguns arrependimento.

Havia pessoas que partiram porque a vida as levou.

Outras porque Lúcia deixou.

Algumas relações terminaram porque precisavam terminar.

Outras talvez tivessem sobrevivido com um telefonema.

Não havia como saber.

Durante muitos anos, Lúcia imaginara a vida como uma história contada principalmente por

acontecimentos.

Casamento.

Filhos.

Emprego.

Mudanças.

Mortes.

Viagens.

Agora pensava diferente.

Talvez a verdadeira história estivesse também nos nomes.

Quem estava conosco quando aconteceu?

Quem segurou nossa mão?

Quem nos fez rir?

Quem nos decepcionou?

Quem perdoamos?

Quem não conseguimos perdoar?

Quem desapareceu sem que percebêssemos exatamente quando?

Quem ainda poderia receber uma ligação?

O tempo não preserva automaticamente as relações.

Ele faz quase o contrário.

Espalha as pessoas.

Muda endereços.

Cria novas famílias.

Novos trabalhos.

Novas preocupações.

E, se ninguém fizer nada, transforma intimidade em lembrança.

Mas Lúcia também aprendera que nem toda distância significa fim.

Algumas pontes continuam lá.

Cobertas de silêncio.

Esperando alguém atravessar primeiro.

Pegou o telefone.

Havia uma mensagem de Beatriz:

“Café quinta?”

Lúcia respondeu:

“Sim.”

Não escreveu “vamos marcar”.

Não escreveu “qualquer dia”.

Perguntou:

“Às 15?”

Beatriz respondeu imediatamente:

“Combinado.”

Lúcia colocou o telefone na mesa.

Apagou a luz.

E antes de dormir pensou que talvez uma vida inteira pudesse ser contada de muitas maneiras.

Pelos lugares onde estivemos.

Pelo trabalho que fizemos.

Pelas coisas que conquistamos.

Pelos erros.

Pelas escolhas.

Mas havia outra forma.

Talvez uma das mais bonitas.

Contar uma vida pelas pessoas que passaram por ela.

Algumas ficaram décadas.

Outras poucos meses.

Algumas ainda estavam por perto.

Outras só existiam em fotografias e lembranças.

Mas cada uma deixara alguma coisa.

E Lúcia finalmente compreendera que, enquanto ainda houver tempo, certos nomes não precisam

permanecer apenas numa agenda.

Podem voltar a ter voz.

É PRECISO SABER VIVER

Perfeito. Vou reescrever integralmente a última história, mantendo o enredo e a mensagem

que construímos, mas mudando a forma: mais conto, mais narrativa, mais ambientação e

reflexão, parágrafos mais encorpados e diálogos apenas quando realmente necessários.