No dia em que Samuel decidiu abandonar o sítio, o céu estava completamente azul.
Não havia uma única nuvem.
Ele ficou parado diante da casa olhando para cima, como se ainda esperasse alguma resposta.
Não veio.
Havia meses que o céu não respondia.
Aos quarenta e três anos, Samuel conhecia a seca. Nascera no sertão e aprendera cedo que a
chuva nunca fazia promessas.
Alguns anos eram bons.
Outros, difíceis.
Mas aquela seca era diferente.
O pequeno açude atrás da propriedade desaparecera.
Primeiro virou lama.
Depois terra rachada.
O milho morreu.
O feijão não chegou a crescer.
Das quinze cabeças de gado que possuía, Samuel vendera nove por quase nada.
Duas morreram.
Restavam quatro.
Também seriam vendidas.
Naquela manhã, sua mulher, Rosa, dobrava roupas e colocava numa mala.
Os filhos observavam.
Miguel tinha quatorze anos.
Ana, nove.
— Vamos ficar quanto tempo fora? — perguntou a menina.
Rosa olhou para Samuel.
Ele não respondeu.
— Até melhorar — disse a mãe.
— E quando melhora?
Ninguém sabia.
O sítio pertencera ao pai de Samuel.
Antes, ao avô.
Não era grande.
Nunca produzira fortuna.
Mas três gerações haviam vivido ali.
Seu avô, Francisco, chegara jovem e construíra a primeira casa com barro e madeira.
O pai, Manoel, substituíra por tijolos.
Samuel ampliara quando se casou.
Plantara duas árvores na frente quando os filhos nasceram.
Um umbuzeiro para Miguel.
Um juazeiro para Ana.
— Como sabe qual é de quem? — Rosa perguntara.
— Eu sei.
— Daqui a vinte anos vai esquecer.
— Não vou.
Não esqueceu.
Agora as duas árvores estavam diante dele.
O juazeiro ainda resistia.
Samuel passou a mão no tronco.
Ana apareceu.
— A minha árvore vai ficar?
— Vai.
— Quem vai cuidar?
Samuel engoliu.
— Ela sabe se cuidar.
A menina abraçou o tronco.
— Diz para ela que a gente volta.
Samuel virou o rosto.
Durante meses tentara evitar aquela decisão.
Rosa tinha uma irmã em São Paulo.
Lúcia telefonava.
— Venham para cá. Antônio consegue trabalho para Samuel.
Ele recusava.
— Ainda temos alguma coisa aqui.
Depois perderam mais uma plantação.
Lúcia insistiu.
— Aqui pelo menos vocês começam de novo.
Samuel não queria começar de novo.
Queria continuar.
Existe uma diferença que só entende quem já construiu alguma coisa durante muitos anos.
Começar parece esperança para quem olha de fora.
Para quem precisa abandonar tudo, às vezes parece derrota.
Rosa não pressionava.
Até que, certa noite, Samuel entrou na cozinha e encontrou apenas um pouco de farinha, arroz e
feijão.
— Acabou?
— Quase.
— Por que não falou?
— Você sabia.
Ele sabia.
Sentou-se.
Rosa ficou diante dele.
— Samuel, nossos filhos precisam comer.
— Eu sei.
— Miguel está perdendo aula para ajudar você.
— Eu sei.
— Então?
Ele demorou muito para responder.
— Liga para sua irmã.
Rosa não comemorou.
Sentou-se ao lado.
Segurou sua mão.
Foi assim que decidiram partir.
Venderam o que puderam.
Um vizinho ficou responsável pela propriedade.
— Quando chover, eu aviso — prometeu seu Agenor.
Samuel entregou-lhe a chave.
— Não deixa ninguém mexer nas árvores.
— Não deixo.
— Principalmente na da menina.
Agenor assentiu.
— Vá tranquilo.
Samuel quase respondeu que não havia tranquilidade alguma em ir embora.
Preferiu ficar calado.
O ônibus sairia às cinco da tarde.
Passaram o último dia fechando a casa.
Rosa limpou a cozinha.
Samuel achou absurdo.
— Para que limpar?
— Não vou deixar minha casa suja.
— Não vai ficar ninguém.
— Eu sei.
Ela varreu mesmo assim.
Antes de fechar as janelas, Ana entrou no quarto.
— Posso levar isso?
Segurava um pequeno pote de vidro.
Dentro havia terra.
— Para quê? — perguntou Rosa.
— É daqui.
Samuel ajoelhou-se.
— Onde pegou?
— Perto da minha árvore.
Rosa olhou para o marido.
— Deixa.
Ana colocou o vidro na mochila.
Samuel saiu antes que os filhos percebessem seus olhos molhados.
Foram até a cidade na carroceria da caminhonete de Agenor.
Samuel sentou-se atrás.
Durante o caminho olhava tudo.
A cerca.
A estrada.
Os mandacarus.
As propriedades vazias.
Outras famílias também haviam partido.
Algumas casas estavam fechadas.
Outras abandonadas.
Na rodoviária havia mais malas do que gente.
Homens.
Mulheres.
Crianças.
Todos levando pedaços pequenos de vidas que não cabiam na bagagem.
Quando o ônibus chegou, Rosa apertou a mão do marido.
— Vamos.
Samuel olhou para a estrada por onde haviam vindo.
Por um instante pensou em desistir.
Voltar.
Ficar.
Fazer o quê?
Esperar?
Rosa percebeu.
— Samuel.
Ele olhou para ela.
— Os meninos.
Era suficiente.
Entrou.
Ana ficou junto à janela.
Quando o ônibus começou a andar, perguntou:
— Pai, São Paulo é longe?
— Muito.
— Mais longe que Recife?
— Muito mais.
— E lá chove?
Samuel sorriu sem vontade.
— Chove.
— Então por que não trazemos um pouco?
Miguel riu.
— Como vai trazer chuva, Ana?
— Num caminhão.
— Água não é chuva.
— Para planta é.
Samuel ouviu os filhos discutindo.
Olhou pela janela.
A terra seca seguia ao lado da estrada.
Não sabia quando voltaria.
Mas fez uma promessa silenciosa.
Voltaria.
Mesmo que fosse apenas para morrer ali.
São Paulo os recebeu com chuva.
Foi a primeira ironia.
Quando saíram da rodoviária, chovia tanto que tiveram de esperar debaixo da cobertura.
Ana estendeu a mão.
— Pai, olha quanta água.
Samuel olhou.
Água escorria pelas ruas.
Entrava nos bueiros.
Caía dos telhados.
Por algum motivo, aquilo o deixou com raiva.
Passara meses olhando o céu vazio.
Agora via água sendo carregada pelas ruas como se não valesse nada.
Rosa percebeu.
— Não começa.
— Não falei nada.
— Eu conheço sua cara.
Foram morar na periferia, numa pequena casa alugada perto de Lúcia e Antônio.
Samuel conseguiu emprego numa obra.
Nunca havia trabalhado em construção civil.
Aprendeu.
Saía antes das seis.
Voltava à noite.
As mãos, acostumadas à enxada, passaram a carregar tijolos, ferro e cimento.
O salário era pequeno.
Mas chegava todo mês.
Miguel voltou a estudar.
Ana também.
Rosa começou a fazer comida para vender.
A vida recomeçou.
Não como queriam.
Mas recomeçou.
Nos primeiros meses, Samuel telefonava para Agenor quase toda semana.
— Choveu?
— Pouco.
— Quanto?
— Quase nada.
— E o açude?
— Seco.
Depois passou a ligar uma vez por mês.
Depois a cada dois.
A resposta quase sempre era a mesma.
— Ainda não.
Um ano virou dois.
A seca melhorou, mas Samuel não tinha dinheiro para voltar.
Os filhos estavam adaptados.
Miguel começou a trabalhar.
Rosa tinha clientes.
— Mais um pouco — dizia ela.
Samuel concordava.
Mais um pouco.
O tempo tem uma maneira estranha de transformar provisório em permanente.
Cinco anos depois, continuavam em São Paulo.
Miguel entrou num curso técnico.
Ana já falava da antiga casa como quem fala de uma lembrança distante.
Samuel não.
Toda vez que chovia, parava por alguns segundos.
Se estivesse trabalhando, olhava pela janela.
Se estivesse na rua, sentia o cheiro.
Terra molhada.
Mesmo cercado de concreto, aquele cheiro o levava de volta.
Rosa sabia.
— Está pensando no sítio?
— Não.
Ela sorria.
— Depois de tantos anos você ainda acha que consegue mentir para mim.
No sexto ano, Agenor telefonou.
Era janeiro.
— Samuel.
— Aconteceu alguma coisa?
— Choveu.
Samuel ficou em silêncio.
— Quanto?
Agenor começou a rir.
— A noite inteira.
Samuel sentou-se.
— E o açude?
— Está enchendo.
Rosa estava diante dele.
Percebeu imediatamente.
— É lá?
Samuel assentiu.
Agenor continuou:
— Se continuar assim, este ano vai dar plantação.
Samuel desligou.
Ficou olhando para o telefone.
Durante seis anos esperara aquela notícia.
Agora não sabia o que fazer com ela.
— Vamos voltar? — perguntou Rosa.
Samuel olhou para os quartos dos filhos.
Miguel tinha vinte anos.
Trabalhava.
Ana, quinze.
Estudava.
A vida deles estava ali.
— Não sei.
Rosa sentou-se.
— Você passou seis anos dizendo que voltaria quando chovesse.
— Eu sei.
— Choveu.
— Eu sei.
— Então?
Samuel percebeu algo que nunca considerara.
Voltar também podia ser difícil.
Naquela noite conversaram com os filhos.
Miguel foi direto.
— Eu não quero morar lá.
Samuel sentiu como se tivesse recebido uma ofensa.
— É sua terra.
— É a sua, pai.
Silêncio.
Rosa interveio:
— Ele era criança quando saiu.
Samuel olhou para o filho.
— Você nasceu lá.
— Eu sei. Mas minha vida está aqui.
A frase era justa.
Mesmo assim doeu.
Ana perguntou:
— A minha árvore ainda existe?
Samuel sorriu.
— Existe.
— Eu quero ver.
Decidiram visitar.
Somente visitar.
A viagem de volta pareceu mais longa.
Samuel quase não dormiu.
À medida que o ônibus avançava, reconhecia paisagens.
Cidades.
Entroncamentos.
Postos.
Até que começaram a aparecer os primeiros sinais do sertão.
Mas agora havia verde.
Não por toda parte.
Ainda era uma região dura.
Mas havia vida.
Samuel encostou a testa no vidro.
Rosa segurou sua mão.
— Está nervoso?
— Não.
— Mentiroso.
Ele sorriu.
Agenor os esperava na cidade.
Estava mais velho.
Abraçou Samuel.
— Pensei que não voltava mais.
— Eu também.
Entraram na caminhonete.
Quando chegaram à estrada do sítio, Samuel pediu:
— Para aqui.
— Por quê?
— Quero ir andando.
Desceu.
Rosa também.
Depois os filhos.
Seguiram a pé.
Samuel reconhecia cada curva.
Então viu a casa.
Estava desgastada.
Uma parte do telhado precisava de reparos.
A cerca havia caído em alguns pontos.
Mas estava lá.
E as árvores também.
Ana correu.
— Qual é a minha?
Samuel apontou.
— Aquela.
O juazeiro crescera.
A menina — agora quase mulher — colocou a mão no tronco.
— Ele ficou grande.
Samuel sorriu.
— Eu falei que sabia se cuidar.
Ana abriu a mochila.
Retirou um pequeno pote.
O mesmo.
A terra estava lá.
Samuel ficou imóvel.
— Você guardou?
— Guardei.
Ela abriu o vidro.
Despejou a terra junto às raízes.
— Agora voltou.
Samuel não conseguiu responder.
Caminhou até o açude.
Havia água.
Não estava cheio.
Mas havia água.
Abaixou-se.
Molhou as mãos.
Passou no rosto.
Rosa ficou atrás.
— E agora?
Samuel olhou para ela.
— Agora o quê?
— Vai querer ficar.
Não era pergunta.
— Quero.
— Eu sei.
— E você?
Rosa olhou para a casa.
Depois para os filhos.
— Talvez não do jeito que você imagina.
Samuel entendeu.
Não poderiam simplesmente apagar seis anos.
A vida não volta ao ponto onde foi interrompida.
Ela continua.
Mesmo longe.
Ficaram duas semanas.
Samuel consertou parte da casa.
Ajudou Agenor.
Plantou algumas sementes apenas para sentir novamente a terra nas mãos.
Quando chegou a hora de partir, não sentiu o mesmo desespero de anos antes.
Porque agora sabia que podia voltar.
Nos anos seguintes, a família encontrou outro caminho.
Samuel e Rosa passaram a dividir o tempo.
Alguns meses em São Paulo.
Outros no sertão.
Miguel ficou definitivamente na cidade.
Ana fez faculdade de Agronomia.
Talvez por acaso.
Talvez não.
Depois de formada, começou a trabalhar com projetos de irrigação e convivência com a seca no
Nordeste.
Quando contou ao pai que pretendia voltar para a região, Samuel riu.
— E você dizia que sua vida estava em São Paulo.
— Quem dizia era Miguel.
— Você também gostava.
— Ainda gosto.
— Então por que voltar?
Ana olhou para o velho juazeiro.
— Talvez porque uma pessoa possa pertencer a mais de um lugar.
Samuel gostou da resposta.
Os anos passaram.
Ele envelheceu.
Já não conseguia plantar como antes.
Sentava-se debaixo do juazeiro e observava a propriedade.
A região ainda enfrentava secas.
Algumas fortes.
Mas agora havia cisterna.
Reservatório.
Novas técnicas.
A vida continuava difícil.
Só não era exatamente a mesma.
Certa tarde, o neto de Samuel, filho de Ana, sentou-se ao lado.
— Vô, é verdade que vocês foram embora porque não tinha água?
— É.
— E por que não ficaram esperando chover?
Samuel olhou para o menino.
Era uma pergunta simples.
— Porque às vezes esperar também mata.
O menino ficou sério.
— Você ficou triste?
— Muito.
— E quando voltou?
Samuel olhou para o céu.
Havia nuvens no horizonte.
— Também.
— Por quê?
Samuel sorriu.
— Porque a gente pode chorar quando perde uma coisa e também quando encontra de novo.
O menino pareceu não entender.
Um dia entenderia.
Pouco depois começaram a cair algumas gotas.
O neto levantou-se.
— Está chovendo!
Correu para casa.
Samuel permaneceu sentado.
Não procurou abrigo.
As gotas ficaram mais fortes.
Caíram sobre o rosto.
Sobre a camisa.
Sobre a terra.
O cheiro subiu imediatamente.
Aquele cheiro.
Durante anos, bastara senti-lo para ser transportado de volta.
Agora não precisava mais imaginar.
Estava ali.
Samuel fechou os olhos.
Pensou no dia em que partira.
Na mala.
Nos animais vendidos.
Na filha abraçando uma árvore.
Na rodoviária.
Na primeira chuva em São Paulo.
Na obra.
Nos anos esperando uma ligação.
Na volta.
Pensou também em tudo que acontecera porque partiram.
Os estudos dos filhos.
Os empregos.
Os netos.
As oportunidades.
Percebeu que não podia odiar completamente a estrada que os levara embora.
Ela também os salvara.
Talvez partir não tivesse sido desistir da terra.
Talvez tivesse sido a maneira possível de continuar pertencendo a ela sem ser destruído por ela.
Rosa apareceu na porta.
— Samuel! Vai ficar aí na chuva?
Ele abriu os olhos.
Sorriu.
— Vou.
— Vai ficar doente.
— Passei metade da vida esperando por isso.
Ela balançou a cabeça.
— Velho teimoso.
Samuel começou a rir.
A chuva aumentou.
A água correu pelo terreiro.
Molhou as árvores.
Escureceu a terra.
E, pela primeira vez em muitos anos, Samuel não precisava perguntar a ninguém se estava
chovendo no sertão.
Podia sentir.
Existem partidas que fazemos porque queremos conhecer o mundo.
Outras porque buscamos oportunidades.
E existem aquelas em que a estrada não oferece escolha.
São partidas que começam com uma casa fechada, uma mala pequena e a esperança de que
aquilo seja apenas por algum tempo.
Algumas pessoas voltam.
Outras constroem casa em outro lugar.
Há também quem descubra que pode carregar dois lugares dentro de si.